Memória

Reforma revela pintura que pode ser uma das mais antigas do país

Estima-se que mural na Capela de São Miguel Arcanjo, que fica na Zona Leste da capital, seja do fim do século XVI

Por: Mariana Barros

Mural na Capela São Miguel Arcanjo-2239
Mural descoberto na igreja: a estimativa é que seja do século XVI (Foto: Mario Rodrigues)

Construída pelos jesuítas, a Capela de São Miguel Arcanjo, localizada em São Miguel Paulista, na Zona Leste, é uma das mais antigas da metrópole. Ela surgiu em 1560, apenas seis anos após a missa de fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, berço da cidade, e preserva uma parte importante de nossa história. Além de ser um dos únicos exemplares remanescentes de taipa de pilão, o lugar guarda um conjunto relevante de relíquias arqueológicas e artísticas, como fragmentos de ossos indígenas, cerâmicas, esculturas e altares de quatro séculos de existência. Há dois meses, uma descoberta aumentou ainda mais essa lista de tesouros.

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Desde 2006, a igreja vem passando por um amplo processo de recuperação, investimento que já consumiu 7 milhões de reais, doados por um grupo de patrocinadores que inclui empresas como Votorantim, Itaú e Petrobras. A última etapa da obra, com conclusão prevista para dezembro, é a conservação das paredes internas. A equipe do restaurador Julio Moraes trabalhava nisso quando, ao arrastar os altares de madeira laterais, deparou com um enorme desenho composto de sóis e caracóis. “Eu estava em outra sala quando um funcionário veio perguntar como proceder com as pinturas”, conta Moraes. “Nem sabia do que ele estava falando e fiquei perplexo ao ver pela primeira vez a obra.” O mural em questão tem 3 metros de altura por 2,5 de largura e foi desenhado em tons de vermelho, preto e branco.

Relíquias sacras da capela São Miguel Arcanjo-2239
Relíquias sacras: imagens dos séculos XVI, XVII e XVIII estão expostas em uma sala especial dentro da capela (Foto: Mario Rodrigues)

Para desvendarem a idade da peça, os pesquisadores empregaram o método de datação por carbono 14, e devem ter um diagnóstico preciso até o fim do ano. Eles trabalham com a hipótese de se tratar de um painel do fim do século XVI. “Caso isso seja confirmado, será uma das pinturas mais antigas desde o descobrimento do Brasil”, diz Moraes. A primeira suspeita de que havia algo de valioso atrás dos altares surgiu há quatro anos, já durante o restauro, quando foi possível ver, por uma fresta de um deles, traços coloridos na parede. Ninguém imaginava, porém, qual seria a dimensão da pintura.

No ano passado, os funcionários da capela haviam vivido a emoção de uma grande descoberta. Os restauradores acharam uma escultura de terracota do século XVII guardada no escritório do padre Geraldo Antonio Rodrigues, o pároco local. A autoria da imagem, uma Nossa Senhora dos Prazeres de 60 centímetros, é atribuída a frei Agostinho de Jesus, considerado o primeiro escultor brasileiro. Atualmente ela está em uma das vitrines da sala interna de exposição, criada para preservar essa e outras peças da época.

 

Capela São Miguel Arcanjo-2239
Para desvendarem a idade da peça, os pesquisadores empregaram o método de datação por carbono 14, e devem ter um diagnóstico preciso até o fim do ano. Eles trabalham com a hipótese de se tratar de um painel do fim do século XVI. “Caso isso seja confirmado, será uma das pinturas mais antigas desde o descobrimento do Brasil”, diz Moraes. A primeira suspeita de que havia algo de valioso atrás dos altares surgiu há quatro anos, já durante o restauro, quando foi possível ver, por uma fresta de um deles, traços coloridos na parede. Ninguém imaginava, porém, qual seria a dimensão da pintura. No ano passado, os funcionários da capela haviam vivido a emoção de uma grande descoberta. Os restauradores acharam uma escultura de terracota do século XVII guardada no escritório do padre Geraldo Antonio Rodrigues, o pároco local. A autoria da imagem, uma Nossa Senhora dos Prazeres de 60 centímetros, é atribuída a frei Agostinho de Jesus, considerado o primeiro escultor brasileiro. Atualmente ela está em uma das vitrines da sala interna de exposição, criada para preservar essa e outras peças da época. (Foto: Mario Rodrigues)

Quando a capela foi fundada pelo padre José de Anchieta, em 1560, o distrito de São Miguel Paulista, hoje com 423.000 moradores, era uma pequena aldeia indígena estabelecida num local chamado Ururaí. De lá para cá, foram feitas várias reformas. A igreja foi reconstruída em 1622 (data entalhada na porta principal) e recebeu novas obras no século XVIII, quando passou dos jesuítas para os franciscanos. São desse período os dois altares laterais e o telhado mais alto. O primeiro restauro profissional ocorreu em 1939, supervisionado pelo então recém-criado Iphan (órgão de preservação do patrimônio federal). Suas relíquias, incluindo o recém-descoberto painel, podem ser conferidas de perto por visitantes, seja nas missas, seja durante os tours guiados pelo local. Mais informações em capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.

Joias sagradas Destaques do pequeno templo inaugurado em 1560

 - Fragmentos de ossos, lanças e cerâmicas indígenas estão expostos aos visitantes. Antes da chegada de José de Anchieta, fundador da capela original, a região era chamada Ururaí e abrigava tribos.

- Na sala de exposições, há uma imagem de Nossa Senhora dos Prazeres atribuída a frei Agostinho de Jesus, considerado o primeiro escultor brasileiro.

- O altar principal, de cerca de 6 metros, é de madeira. Com feições renascentistas, data do século XVII.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO