Crônica

Reciclagem

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Crônica 2197
(Foto: Veja São Paulo)

Certa vez, recebi um arranjo de flores espetacular, envolvido em várias camadas de papéis coloridos. Do lado de fora, o cartão do remetente, com votos de felicidade. Mas dentro... outro cartão, dirigido a quem as havia enviado! Eram flores recicladas! É o que mais me acontece nesta época do ano, quando meu aniversário se conjuga com o Natal e, daqui a pouco, Dia de Reis. No ano retrasado um amigo me ofereceu um short verde, gigantesco. Passei horas meditando sobre o mimo: eu parecia tão gordo assim?

Um amigo comum revelou:

— Não conhece a figura? Deve ter ganhado de alguém e passou para a frente.

Era verdade! O short verde devia se ajustar perfeitamente ao barrigão do presenteador. Soube que ele mantinha uma gaveta na cômoda exclusivamente para guardar os presentes a serem reciclados! Também já recebi livros com dedicatórias para outras pessoas! Cheguei a ganhar uma camisa de grife, elegantíssima, mas um número menor que o meu. Na loja, surpreendi-me:

— Não é possível efetuar a troca. Esta camisa foi comprada dois anos atrás!

Já rodava pelo terceiro Natal consecutivo!

A reciclagem de presentes não é, em si, tão ruim. Também não é de mau gosto oferecer algo que a pessoa tem em casa, por exemplo. Há muitos anos uma amiga chegou com dois castiçais que enfeitavam seu console da sala. Eram lindos. Estão comigo até hoje. Há dois meses comprei uma garrafa de licor antiga, que vinha com uma caixinha de música acoplada e uma bailarina no interior. Ainda funciona. Botei na estante. Eu sei: no futuro será presenteada a alguém que ame esse tipo de objeto. Em certa ocasião, ganhei muitos excelentes livros de arte. Presenteei. Mas há gente especializada em dar novo destino ao que recebe. Pior ainda, alguns fajutam. Um conhecido tinha um armário cheio de caixas e sacolas de grifes. Cada vez que comprava algo para si mesmo, guardava a embalagem. Em natais e aniversários, adquiria alguma coisa baratinha e embalava com pacote de grife. Chegou ao extremo de costurar etiquetas em roupas. Quem recebia, levava um susto:

— Que exagero!

E o safado sorria:

— Você merece.

Funcionou por um bom tempo. Depois, começou a fofoca.

— Descobri que de grife só tinha a caixa!

— A calça não tinha nada a ver com a etiqueta.

Ganhou fama de pão-duro.

Alguns itens são os maiores alvos da reciclagem: flores, DVDs, livros, bebidas. O pior de tudo é quando alguém recicla brindes. Já recebi caixas enormes com havaianas customizadas, camisetas e bonés com logotipos. Tenho a impressão de que resolveram me fazer de bobo! O pior que já me aconteceu foi receber de volta, três anos depois, um presente que havia dado! Rodou, rodou e voltou às minhas mãos!

Há uma dinâmica: a pessoa sempre espera ganhar algo melhor do que o que deu. Quem envia presente reciclado é pior. Sempre espera alguma coisa muito boa. Exclama ao abrir o pacote:

— Saí no lucro!

Presente não é investimento, para um ganhar e outro perder! Ainda sou do tipo que gosta de encontrar algo de especial para uma pessoa querida. Ultimamente, restringi o número de presentes. Só quero ganhar algum quando a pessoa sente um desejo real de me presentear, sem agir como quem cumpre obrigação. E só ofereço quando, junto, entrego também um pouco de emoção. Quer dizer, há exceções. Até o fim do ano pretendo visitar o amigo que me deu o gigantesco short verde. Vou entregar embrulhado, como se tivesse acabado de comprar! Quero ver sua reação. Mas aposto. Como todo cara de pau, vai dizer que adorou!

Fonte: VEJA SÃO PAULO