Crime

"Meu coração disparou e fiquei trêmulo", diz zelador que achou bebê

Francisco de Assis Alves Marinho conseguiu doações de roupas e batizou a criança de Valentina

Por: Adriana Farias

Francisco de Assis Alves Marinho bebê abandonado higienópolis
O zelador Francisco de Assis e o soldado Francisco Neto na Santa Casa (Foto: Polícia Militar/Tenente Felippe Holanda)

Uma menina recém-nascida foi encontrada na noite deste domingo (4) dentro de uma sacola de papelão abandonada na Rua Piauí, perto da Praça Vilaboim, em Higienópolis, bairro nobre na região central de São Paulo. O zelador Francisco de Assis Alves Marinho, de 37 anos, que encontrou a criança, contou detalhes do que ocorreu naquela noite.

"Era por volta das 19h30 quando eu estava saindo do Edifício Helenita, a caminho da Igreja Santa Terezinha. Eu nunca costumo ir na igreja à noite, vou sempre de manhã, mas naquele dia não sei o que me deu para trocar de turno. Ao passar pela Rua Piauí, na altura do número 1080, eu me deparei com uma sacola de papelão branca encostada a uma árvore. Fiquei curioso para saber o que tinha dentro, pois às vezes pode ter algum morador que joga coisa boa fora. Ergui a sacola, vi um saco de plástico preto, achei que não deveria ter nada de interessante e larguei o pacote no chão.

Com o impacto, na hora eu escutei um choro de criança. Meu coração disparou, me deu um frio na barriga e fiquei trêmulo... Rasguei a sacola de papelão nas laterais, tirei o saco e vi o rostinho da criança em lágrimas enrolada em um pano rosado e com uma toquinha. Liguei imediatamente para a polícia. Coloquei a pequena nos meus braços e dei uma balançada de leve como eu costumava fazer com a minha filha Maria Luiza, de 5 anos. Em poucos segundos ela parou de chorar. Acho que se sentiu aquecida.

Na sequência vi um morador do edifício da frente, que é médico, caminhando do outro lado da rua com seu cachorrinho. Gritei pedindo pela ajuda dele, que examinou a moleira da criança e viu que ela estava em perfeitas condições. Ele ligou para a esposa, que conseguiu descer com uma manta ainda mais quentinha para menina. A polícia conseguiu chegar em menos de cinco minutos, quando já se aglomerava ao menos dez pessoas no local, tentando entender o que havia acontecido.

Entrei na viatura policial e fomos para o pronto-socorro infantil da Santa Casa, onde a criança permanece em atendimento até a noite desta segunda-feira (5). A pediatra do local disse que ela deveria ter ao menos três dias de vida, estava bem de saúde e parecia que havia sido alimentada há poucas horas. Contei para minha filha do ocorrido e juntos decidimos dar o nome à ela de Valentina, porque vem de valentia e é isso porque ela é uma menina que já nasceu guerreira.

Só Deus mesmo para saber o que se passou na cabeça da mãe para abandoná-la. Pedi para um colega do prédio acionar todos os moradores pedindo ajuda com roupinhas. Já chegaram pelo menos cinquenta delas, entre vestidinhos, laços e casaquinhos. Vou voltar a visitá-la. Os moradores aqui já estão me chamando de pai dela. Minha filha até queria uma irmãzinha ou irmãozinho. O que mais me emociona é que a encontrei no dia 4 de outubro, dia do São Francisco de Assis, que serviu de homenagem para o meu nome."

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O soldado Francisco Neto (Foto: Polícia Militar/Tenente Felippe Holanda)

A menina permanece em atendimento na Santa Casa de Misericórdia, enquanto não é encaminhada para o Conselho Tutelar da Sé. Segundo a instituição, pelas condições em que foi encontrado o cordão umbilical, ainda preso à criança, o parto não foi realizado dentro de um hospital.

Segundo o delegado Eduardo Luis Ferreira, do 4º DP (Consolação), as investigações apontam para a suspeita de uma mulher de 30 anos. A reportagem de VEJA SÃO PAULO teve acesso a um vídeo que mostra o momento exato em que a criança foi deixada na rua. Nas imagens, é possível ver que uma mulher hesita em colocar a sacola no chão, dá uma olhada no local, e aí sim deixa o pacote encostado a uma árvore.

Depois, deixa o lugar caminhando normalmente. Ela ainda não foi identificada. Outra imagem mostra a mulher sem a sacola, com um guarda-chuva na mão.

“Nós também ouvimos o depoimento de dez pessoas e ninguém viu quem era essa mulher e o momento em que ela deixou o bebê”, diz o tenente Felippe Holanda, do 7º Batalhão da Polícia Militar, que atendeu a ocorrência. “Ainda bem que a criança foi acolhida por uma pessoa idônea, pois há casos assim que recém-nascidos podem ser sequestrados”, diz.

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Bebê foi encontrado dentro de sacola em Higienópolis (Foto: Adriana Farias)

Fonte: VEJA SÃO PAULO