Crônica

Questões dezembrinas

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica 2194
(Foto: Veja São Paulo)

— Vó, você acredita em Papai Noel?

— Ah, Bel, adulto não tem cabeça para essas coisas.

— Acredita ou não acredita, vó?

— Bom...

— Não pode mentir...

— Não pode? Então acredito, pronto.

— Eh, vó, você não é mais criança.

                       ***

— Vô, Papai Noel já foi criança?

— Ih, agora você me pegou.

— Não sabe ou vai pensar?

— Na verdade, eu nunca tinha pensado nisso.

— Droga, o mais importante você nunca sabe.                      

                       ***

— Mãe, o que o Papai Noel faz nas férias de julho?

— Nem imagino.

— Eu imagino.

— É? O quê, Bel?

— Deve ser Natal em outro planeta.

                       ***

— Tia, o que é que Papai Noel de shopping faz quando acaba o Natal?

— Ah, não sei, Vivi, acho que eles procuram outra coisa para fazer.

— Que coisa?

— É... Porteiro, vendedor, carregador... Muitos são aposentados.

— Quando meu pai se aposentar, vou falar pra ele ficar sentado de Papai Noel no shopping. É melhor.

                      ***

— Tio, Papai Noel existe?

— Existe.

— Onde é que ele mora?

— Uns dizem que é no Polo Norte. Eu acho que é no céu.

— No céu? Então ele já morreu?

— Como assim?

— Quando a gente morre, vai pro céu. No céu tem gente viva?

— Não. Tem as almas boas, tem os anjos...

— Ele não é anjo... Então é alma?

— Olha, Bel, acho que é no Polo Norte mesmo que ele mora.                

                       ***

— Mãe, não são os adultos que dão presente para os outros adultos no Natal?

— Isso mesmo, filha.

— E por que precisa de Papai Noel para dar para as crianças?

— Não é que precisa. Cada um faz sua parte. A parte dele é a das crianças.

— Eu posso mudar?

— Como assim, mudar?

— Eu queria ser da parte dos adultos.

— Por que isso agora?

— Aí, se eu não gostar do meu presente, eu posso reclamar.

                         ***

— Vô, você já se vestiu de Papai Noel na noite de Natal?

— Nunca, Ju.

— Por que não?

— Quer a verdade, agora que você já é meio grandinho?

— Ahn-han.

— Não gosto da ideia nem da roupa.

— Acha ridículo?

— É, achava. Ia me sentir ridículo. Não dou pra essas coisas.

— Podia fingir que gostava.

— Não ia dar certo. Fingir pra quê?

— Pra agradar ao papai. Eu finjo.

— Quando ele se veste de Papai Noel?

— É. Eu finjo que acho engraçado e que acredito. Ele é muito legal.

— É, eu podia ter feito isso. Mas eu não sou tão legal quanto você.

Fonte: VEJA SÃO PAULO