Crônica

Quanto exagero!

Por: Walcyr Carrasco

Walcyr Carrasco - 2213
(Foto: Veja São Paulo)

Certa vez participei da seleção de meninas para uma novela infantil. Havia uma fila que dobrava o quarteirão, formada unicamente por mães e filhas, estas entre 5 e 12 anos de idade. A maioria esmagadora vestia-se com saias curtíssimas, tops, botinhas ou sandálias. Figurino que se esperaria num show de vedetes. O teste incluía um número de dança e canto. Surpreso, assisti às garotinhas rebolando e cantando músicas com insinuações maliciosas. E nós, que estávamos procurando uma personagem romântica, não sabíamos como escolher. Eu pensava: que mães são essas que trazem suas meninas vestidas desse jeito? Cantando e dançando assim? Fiquei bastante chocado na época.

Acho normal que meninas queiram imitar as mães. Já vi garotinhas se equilibrando em cima de sapatos de salto, com o rosto borrado de batom, após atacar o armário e a penteadeira maternos. Meninos também gostam de se vestir como os pais. Eu mesmo, quando criança, me senti orgulhosíssimo quando ganhei meu primeiro terninho com gravata. Um adulto!

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Mas eu não consigo entender os pais de hoje em dia. Compram ovos de Páscoa, coelhinhos de chocolate e falam das belezas da infância. Já soube de pais revoltados com escolas por terem adotado livros com um mínimo de ousadia. ONGs tratam de defender as crianças da exposição a temas violentos ou eróticos nos meios de comunicação. Mas não conheço nenhuma que critique a moda infantil. Mais que isso: os pais parecem gostar dela.

E os valores do universo adulto se refletem no jeito de vestir dos filhos.

As grifes se tornaram um pretexto para o bullying. Nas escolas frequentadas pelos filhos dos muito ricos, há uma competição para ver quem tem o melhor relógio, tênis e camiseta. Ou, no caso das meninas, também bolsa, maquiagem e joia. Os um pouquinho menos ricos são desprezados por não possuir este ou aquele objeto de consumo. Sempre aconselho a amigos que vão escolher escolas para seus pimpolhos:

— Não pense apenas na que tem o melhor padrão de ensino, mas na que lida bem com as diferenças sociais.

Já vi certa mãe desfilando com sua menina vestida de negro e a boca vermelhíssima.

— É fashion! — explicou.

Alguma criança fica à vontade num vestido? Tudo bem que se queira causar estranheza. Mas à custa da filha? Nem que fosse a família do conde Drácula!

Assisto admirado à crescente “adultização” da moda infantil. E, em consequência, sua sensualização. Li, recentemente, sobre a venda de sutiãs com enchimento para meninas com menos de 10 anos de idade. Podem me chamar de antiquado, mas o que há na cabeça das mães que vestem suas meninas assim?

Em geral, quando se toca no tema, a resposta é genérica.

— É culpa da moda! — disse uma amiga.

Como se a moda fosse uma entidade à parte, à qual devêssemos obediência absoluta. Mas a moda somos nós. Ninguém produziria essas peças se não houvesse quem as comprasse.

Ainda acredito que cada fase da vida deve ser vivida em seu esplendor. A infância é um momento de formação. De descoberta e construção de valores para a vida. Sei que os pais agem de maneira inocente. A não ser em casos muito raros, não há intenção malévola. Mas o que esperar dessas crianças que desde cedo são levadas a exercer a sensualidade? E a que riscos estão expostas?

Às vezes, acho que deveria haver uma escola para pais.

Fonte: VEJA SÃO PAULO