Solidariedade

Projeto Quixote cria "viciados" em grafite

ONG recupera crianças e adolescentes drogados com a ajuda de oficinas de arte

Por: Pedro Henrique Araújo - Atualizado em

Projeto Quixote
Jovens atendidos pela ONG: os trabalhos dos alunos são vendidos no mercado (Foto: Mario Rodrigues)
Há pouco mais de dois anos, depois de duas excelentes partidas contra o Santos, o atacante Ronaldo erguia a taça de campeão paulista pelo Corinthians. Terminada a competição, o craque resolveu doar um cobiçado troféu, sua camisa 9, a uma das ONGs mais ativas de São Paulo, o Projeto Quixote, na Vila Mariana. Ela ajuda crianças e adolescentes viciados em drogas, sobretudo o crack, a se recuperar com um método que envolve a participação em oficinas de grafite e hip-hop. Depois de receber a doação, a entidade vendeu a peça ao site Bidy por 20.000 reais. Na última terça, o Bidy iniciou um leilão virtual da camisa, que já recebeu mais de 12.000 lances e ainda não tem data para ser finalizado. Se o lance vencedor ultrapassar o valor pago pelo site, 10% desse total também será revertido para o caixa da organização.+ As ONGs mais eficientes de São Paulo+ Vila Madalena: grafites fazem a fama do Beco do Batman+ Vem aí o grafite de tricô + Xaveco Virtual: nossa ferramenta para paquerar no Twitter Criado em 1996 por profissionais ligados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Projeto Quixote começou a atuar tentando resgatar moradores de rua na região do centro da cidade conhecida como Cracolândia. Nos primeiros anos, as turmas de alunos incluídos no processo de reabilitação não ultrapassavam uma centena de inscritos. Hoje, são 1.600 atendidos por ano, o que tornou a ONG uma referência nacional no universo do terceiro setor. Em 2009, ela foi escolhida para ganhar o prêmio Best in Class do Recognition Award, da multinacional londrina PricewaterhouseCoopers. A empresa estabeleceu uma parceria com a ONG, absorvendo em seu quadro de funcionários na capital 72 jovens recuperados por ela. Quase metade deles foi contratada pela companhia. “O Quixote é uma entidade muito bem estruturada, e nós podemos ajudá-lo a formar gente para o mercado de trabalho”, afirma João César Lima, um dos sócios da PricewaterhouseCoopers Brasil. Mario Rodrigues
Jerry Batista - Projeto Quixote
O professor Jerry Batista: há quase três anos formando jovens (Foto: Mario Rodrigues)
O professor Jerry Batista: há quase três anos formando jovens A sede da ONG fica num amplo prédio de três andares na Vila Mariana. As atividades são tocadas por uma equipe de 69 funcionários e com uma verba anual de 3 milhões de reais. Esse dinheiro vem de patrocinadores como a prefeitura, a Porto Seguro e a Petrobras. “Somos uma incubadora de sonhos”, diz Auro Lescher, psiquiatra da Unifesp e um dos idealizadores do projeto. “Queremos que os jovens criem outra história para a vida deles.” A programação inclui aulas e oficinas de vídeo, informática, percussão, arte com sucata, culinária e artesanato, entre outras. A mais procurada é a oficina de grafite. O negócio ganhou tamanha dimensão que levou à montagem de uma agência, em 2000, para vender no mercado os trabalhos dos pupilos. Ela conta hoje com clientes como TNG e Casas Bahia. Mario Rodrigues
Auro Lescher - Projeto Quixote
O psiquiatra Auro Lescher: “incubadora de sonhos” (Foto: Mario Rodrigues)
O psiquiatra Auro Lescher: “incubadora de sonhos” Na sala de pintura há cerca de cinquenta jovens que se exercitam diariamente, aos cuidados de um professor e de quatro monitores (alguns deles já foram atendidos pela entidade e hoje passam adiante seus conhecimentos). O responsável é Jerry Batista, um grafiteiro com mais de uma década de experiência no ramo. Ele chegou ao Projeto Quixote há dois anos e meio para dar uma oficina de três meses e acabou sendo incorporado ao grupo de profissionais da instituição. “A nossa ideia não é ficar dando aula aqui a vida inteira para esses garotos”, afirma o professor, enquanto observa os jovens talentos testando cores numa parede. “Queremos que eles façam disso uma profissão”, completa. PROGRAMA EFICIENTEOs principais números e dados da entidadeAno de fundação: 1996Capacidade de atendimento: 1.600 crianças e adolescentesNúmero de funcionários: 69Custo anual: 3 milhões de reaisMaiores patrocinadores: Prefeitura de São Paulo, Porto Seguro e PetrobrasPrincipais títulos concedidos ao seu trabalho: Best in Class do Recognition Award (PricewaterhouseCoopers), em 2009, e Prêmio Itaú de Excelência Social, em 2008  

Fonte: VEJA SÃO PAULO