Paulistano Nota Dez

Professor de boxe ensina moradores de rua

Nilson Garrido construiu academias embaixo de viadutos

Por:

Nilson Garrido
"Não precisamos de ‘bolsa-crack’, mas de uma bolsa para craques no esporte" (Foto: Silvana Garzaro)

Em 2004, o ex-pugilista Nilson Garrido voltava do emprego como segurança em um prédio do centro quando encontrou um menino de 9 anos caído e machucado no Vale do Anhangabaú. Morador de rua, o menor era usuário de cola. No caminho para o hospital, Garrido contou a ele sua trajetória no boxe, que incluiu a participação em vários torneios amadores na capital entre 1988 e 1996.

Combinaram um encontro na manhã seguinte, sob o Viaduto do Chá, para treinar os movimentos básicos do esporte. O tal garoto apareceu acompanhado de oito amigos e, até o fim do dia, outros quarenta aprendizes haviam se juntado ao grupo. Apenas no primeiro mês, a academia improvisada atraiu cerca de 750 pessoas, entre desabrigados, dependentes químicos e menores abandonados.

A movimentação chamou a atenção da prefeitura, que em 2006 cedeu o vão do Viaduto do Café, no Bixiga. O espaço, antes tomado por lixo, ganhou uma limpeza. Geladeiras quebradas, pneus e computadores velhos foram improvisados como sacos de pancada e equipamentos de musculação. Com a ajuda voluntária da enfermeira Corine Batista, nascia ali o projeto Cora-Garrido.

Em nove anos, 45 mil pessoas participaram das aulas, que hoje são dadas nos viadutos do Glicério, no centro, e Alcântara Machado, na Mooca, onde Garrido mora com o filho Fábio, de 33 anos, e o pupilo Fernando Menoncello, de 31, exusuário de drogas que perambulava pelo bairro, além de dez cachorros — entre eles o fiel escudeiro Negão (foto).

Treinando dez horas por dia há quatro meses, Menoncello é considerado uma promessa pelo professor. “Acho que ele tem chance de conseguir vaga na pró-xima Olimpíada”, acredita Garrido. “É a prova de que não precisamos de ‘bolsa-crack’, mas de uma bolsa para craques no esporte.”Hoje, os dois locais recebem juntos 500 alunos por dia.

Além das doações de materiais, o projeto é sustentado com dinheiro arrecadado pelo trio em serviços como lavagem de carros da vizinhança. De olho no futuro, Garrido construiu uma maquete — que exibe orgulhoso sob o viaduto — para ilustrar o que sonha ser a evolução de sua proposta: um espaço com academia de artes marciais, cinema, creche e playground para crianças de rua em áreas hoje degradadas. “Viaduto e gente pobre tem em todo lugar, só falta a vontade de querer mudar as coisas”, afirma.

Nome: Nilson Garrido

Profissão: professor de boxe

Realidade que transformou: construiu academias embaixo de viadutos para ensinar o esporte a moradores de rua

Fonte: VEJA SÃO PAULO