Crônica

Procura-se

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

Mercado de trabalho muito particular é o das empregadas domésticas. Nele funciona o QI, quem indica, completamente diferente do quem indica dos políticos, porque aqui se busca a eficiência, a competência e a honestidade — qualidades que não fazem parte das exigências dos gabinetes.

As perguntas são: “Ela é de confiança?”, “É limpa?”, “Sabe co zinhar?”, “O tempero é bom?”, “Lava e passa direitinho?”, “Bebe?”, “Fuma?”, “Se dá bem com crianças?”. Não se acham essas informações nos pequenos anúncios dos jornais. O que funciona é o boca a boca, indicações das comadres, parentas, empregadas antigas e vizinhas, antes de alguém se decidir a botar uma pessoa dentro de casa, com acesso a telefones, cartões, gavetas, chaves, conversas, varal de roupas e o resto.

Está cada vez mais difícil arranjar uma das boas. A rede de informantes vai minguando, as restrições crescem: “Pra dormir no trabalho, ninguém aceita mais”; “Essa não pode nos fins de semana”; “Tem de sair às 4 horas, senão não pega o trem”; “Ah, não, com cachorro em casa ela não aceita”. Na procura, ouvi casos, me lembrei de outros...

Solteiro, tive uma muito boazinha, moça, nada feia, nada bonita, sonsazinha, calada. Não sabia que ela bebia. Eu saía para trabalhar e só voltava de madrugada. Ela bebeu quase toda a cachaça de qualidade que amigos mineiros me mandavam. Quando percebi, peguei leve: sem uma palavra, tranquei as pingas a chave. Ela nunca havia tocado nos uísques e vodcas, mas acabou encarando. Tranquei. Vinhos e cervejas talvez ela considerasse perfumaria. Acabou bebendo o álcool utilizado na limpeza — e só descobri porque começou a sumir limão. Ela admitiu que tomava o álcool com limão e açúcar. Foi a primeira e última conversa que tive com ela a respeito de bebida. Nunca mais voltou.

Uma amiga lembrou-se de outra que bebe. Um dia exagerou, dormiu de pileque na cama da patroa e queimou a colcha, o lençol e o colchão com cigarro aceso.

Uma diarista se sentou com a patroa no café da manhã e cobrou: “Não tem coalhada, não? Eu sempre tomo coalha- da no café da manhã. Café da manhã sem coalhada não existe”.

Uma, de um sobrinho, começou a ficar triste. “Que é que você tem, Maria?”, ele perguntava. Ela respirava fundo e: “Nada”. Ele era solteiro, meio fechado, não dava muita conversa. Mas aquilo de ficar com uma pessoa deprimida em casa o incomodava. Quando a mãe chegou de Minas para visitálo, ele pediu: “Mãe, vê aí que que ela tem, porque assim não vai dar”. Com jeito e alguns dias, a moça se abriu e explicou: estava assim porque o patrão não conversava com ela, não elogiava seu trabalho nem sua comida. Queria reconhecimento. Ele cedeu um pouco, mas ela acabou saindo.

Esta outra, quando ficava à toa, era um perigo. Cismou que queria “dar uma limpadinha” na coleção de cachaças do patrão, velho médico, então viúvo, que juntou mais de 200 garrafas presenteadas por pacientes desde os tempos em que clinicava no interior. Ele dizia para deixar ficar as garrafas e explicava que a graça delas era a “pátina do tempo”, expressão que não teve certeza de ela ter entendido. Um dia voltou do consultório e encontrou todas as garrafas mergulhadas na banheira, no tanque e em vários baldes, com os preciosos rótulos originais e selos boiando em água com sabão.

Esta chegou da zona rural de Minas para a casa de um primo, crua de todo. Ficou encantada com o primeiro banho de chuveiro: “Nossinhora, bom demais. Tirano água de chuva, eu nunca tinha tomado água na cacunda”.

Termino com Geralda, a perfeita. Tão querida que ao anunciar que queria ir embora provocou uma comoção na casa. Mas como! Alguém te ofendeu, alguém te magoou, quer aumento, quer férias, vamos conversar. Não, não ia trabalhar em outra casa, queria parar, viver mais para ela, para a família. Foi tanta a choradeira geral que ela ficou. E de novo quis ir, e toda vez se dobrava aos apelos e agrados de todos. Afinal, sem outro recurso, o jeito que ela encontrou foi fugir de madrugada. Nunca se soube para onde.

Fonte: VEJA SÃO PAULO