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Problemas com empresa terceirizada afetam serviços do Detran

Depois de dois anos , o governo troca empresa terceirizada responsável pela maior parte do atendimento no Detran 

Por: Adriana Farias

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O empresário Paulo Roberto Jerônimo: mais de quatro horas em filas (Foto: Mario Rodrigues)

Após ficar mais de duas décadas sem dirigir depois que se envolveu em um acidente de trânsito, o empresário Paulo Roberto Jerônimo, de 56 anos, decidiu voltar a colocar as mãos em um volante. Sua ideia é investir em um food truck de lanches. Para dar o primeiro passo no trabalho de pôr a carteira de motorista em dia, no entanto, Jerônimo teve de ir oito vezes à unidade Armênia do Detran entre janeiro e setembro. Em algumas dessas ocasiões, ele enfrentou mais de quatro horas em filas. “Além de faltar gente para atender, de tempos em tempos me mandavam para um guichê diferente”, conta. “Até que não aguentei e invadi aos gritos a administração exigindo uma resposta.” Numa situação normal, a fase inicial de seu processo teria de ser concluída em um dia.

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Na quarta (2), finalmente recebeu o ofício com a autorização para seguir em frente na reabilitação do documento.O périplo do empresário não é novidade para muitas das outras 10 000 pessoas que passam pelo Detran todos os dias. Um dos termômetros do nível de satisfação dos usuários são os números registrados no site Reclame Aqui. Em 2014, o endereço recebeu 1 103 queixas relacionadas ao órgão, quatro vezes mais do que o total de 2011, ano em que o governo estadual reformulou completamente o serviço. A antiga sede no Ibirapuera foi abandonada e o principal posto agora fica na Armênia, que recebeu investimento de 7 milhões de reais para funcionar no esquema Poupatempo, ou seja, com a distribuição de senhas por horário e a burocracia centralizada em um só local. Outras quatro unidades surgiram para dividir melhor o trabalho e facilitar a vida dos motoristas (Interlagos, Aricanduva, Marechal Deodoro e Raposo Shopping).

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O atendimento ao público, antigamente a cargo de policiais civis, passou a ser feito por funcionários treinados de seis empresas terceirizadas.As mudanças provocaram uma série de melhorias, como a agilização na retirada do certificado de registro de licenciamento de veículo. A operação, que durava três dias, passou a ser realizada em uma hora. Foram implementados também 23 serviços on-line, incluindo a consulta de multas.

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A despeito desses avanços, a situação andou bastante tumultuada nos últimos tempos na unidade Armênia, justamente aquela escolhida para se tornar a “cara” do novo modelo de funcionamento. Quem cuidava da maior parte da operação por ali desde 2011 era a terceirizada S7 Seven. No fim de 2013, a empresa virou uma dor de cabeça. Além de não depositar em dia o salário de seus mais de 150 funcionários locados na Armênia (alguns atrasos chegavam a quinze dias), a companhia também não pagava o vale-transporte, o vale-refeição e as férias vencidas. Os empregados começaram a faltar, deixando os guichês vazios.

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A unidade Armênia: lentidão provocada pela falta de funcionários (Foto: Mario Rodrigues)

Como resultado disso, atendimentos que poderiam ser resolvidos em quarenta minutos, como o pagamento de multas, levavam até três horas. “As pessoas não aguentam esperar e explodem a ponto de agredir o funcionário”, afirma Daniel Motta, presidente da Asdetran, o sindicato dos servidores do órgão. “Toda semana acontecem duas confusões desse tipo.” Problemas semelhantes ocorreram em outros postos daqui e de fora da capital com a S7 Seven, como Aricanduva, São Bernardo do Campo, Guarulhos, Aparecida e Osasco.

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A companhia recebeu no período de 2011 a 2015 mais de 42 milhões de reais do governo estadual (o contrato era renovado, em média, anualmente).   Com o aumento do número de reclamações, a empresa passou a ser notificada pelas falhas. Isso aconteceu mais de trinta vezes desde o fim de 2013, com multas que totalizaram cerca de 166 000 reais, e o governo estadual resolveu não renovar o acordo.

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Sede da S7 Seven, em São Bernardo do Campo: contrato não renovado (Foto: Mario Rodrigues)

“Foi uma questão pontual, pois as demais terceirizadas vêm operando bem nos últimos quatro anos”, afirma Daniel Annenberg, diretor-presidente do Detran. Se não bastasse ser tirada do negócio, a S7 Seven teve descontados 325 000 reais do que tinha a receber, de julho de 2014 a julho deste ano, e está impedida de participar de licitações do governo do estado por dois anos. “Essa penalidade foi desproporcional e injusta”, reclama Demitrius Zabotto da Costa, proprietário da companhia. Segundo ele, a empresa passou a enfrentar dificuldades com a crise econômica. “Outros clientes começaram a atrasar os pagamentos e ficamos em situação bem difícil.”O total de 473 postos de trabalho deixados pela S7 Seven  em seis unidades do Detran foram ocupados por outras empresas. Na Armênia atua desde a semana passada a Esperança Serviços Eireli. Na segunda (31), entre 29 guichês de três setores, doze estavam vazios por volta das 15h30. Funcionários confusos e informações desencontradas estão entre as principais queixas ouvidas por lá.

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O ator Fernando Trauer encarou uma espera de seis horas até conseguir renovar sua habilitação. “A pior parte foi quando me mandaram pegar uma fila de banco que tinha umas 100 pessoas, sendo que eu poderia pagar a taxa no próprio guichê com o cartão de débito”, diz. O mesmo problema aconteceu com o professor Jonathan Mota, de 29 anos, que foi transferir um veículo para o seu nome. “Vim com a vistoria pronta, pois paguei um particular para resolver tudo, mas um funcionário disse que eu teria de refa­zê-la. Enfrentei mais de uma hora na fila, sendo que não era necessário, pois, quando fui atendido, me disseram que o documento estava perfeito”, conta. Segundo o Detran, são transtornos pontuais e típicos de uma fase de transição. “Em um mês tudo vai estar redondo de novo”, promete Annenberg. ß

Fonte: VEJA SÃO PAULO