Memória

Prefeitura lança coleção de DVDs com histórias de bairros

Coleção de DVDs resgata o passado de 26 bairros paulistanos, contado por seus moradores

Por: Camila Antunes - Atualizado em

Apoiados no parapeito da janela ou atrás do balcão de armazéns podem estar os melhores cronistas de bairro, que acompanham com atenção as mudanças nas ruas e no perfil da vizinhança. Um deles é o aposentado João Batista da Silva Junior, morador de Perdizes desde 1926, o ano de seu nascimento. Durante duas décadas ele redigiu um jornalzinho com notícias do time de futebol da região, o 25 de Janeiro. Em edição semanal única, escrita a caneta, o Nosso Jornal circulava de mão em mão, com fotos dos jogadores coladas na capa e alguns desenhos que explicavam lances polêmicos.

As memórias de João Batista, que mostram uma São Paulo bucólica e solidária, estão registradas no filme Perdizes, as Glórias da Várzea, um dos 26 documentários reunidos na coleção História dos Bairros de São Paulo*. As outras regiões retratadas são Barra Funda, Bom Retiro, Brás, Brasilândia, Campos Elíseos, Capão Redondo, Capela do Socorro, Cidade Tiradentes, Freguesia do Ó, Higienópolis, Itaim Paulista, Jabaquara, Jardim Felicidade, Jardim São Paulo, Liberdade, Luz, Mooca, Pacaembu, Perus, Pirituba, São Miguel, Vila Madalena, Vila Maria, Vila Matilde e Vila Prudente.

A iniciativa de produção dos documentários foi conjunta, das secretarias municipais de Educação e de Cultura, com o objetivo de distribuí-los às 3 800 escolas mantidas pela prefeitura. "Queríamos dar aos alunos um material mais instigante do que livros didáticos", diz o secretário adjunto de Cultura, José Roberto Sadek. O projeto, no entanto, ultrapassou a expectativa inicial e os documentários serão transmitidos também na televisão, em canais públicos ou educativos. Por enquanto, somente o Canal Futura definiu a sua programação. Os vídeos poderão ser vistos às sextas-feiras, às 22h30, entre 16 de novembro e 9 de maio de 2008.

A seleção dos filmes se deu através de um concurso de roteiros. Participaram 200 cineastas, amadores e profissionais como André Klotzel, diretor de A Marvada Carne e Memórias Póstumas. Nessa coleção, Klotzel dirigiu o curta O Bom Retiro É o Mundo, mostrando o rosto dos imigrantes que povoaram a região. Para cada filme, a prefeitura liberou verba de 85 000 reais e limitou o tempo de exibição a 24 minutos, além de exigir que os realizadores cumprissem algumas regras, como entrevistar moradores antigos, apresentar mapas e fotos de época e estabelecer relações entre o passado e o presente.

Com isso, pretende-se estimular os alunos a refletir sobre as transformações sociais e geográficas. "Os filmes ajudam o paulistano a se reconhecer. Todos adoram se ver na televisão", diz João Alegria, diretor artístico do Canal Futura. Ele explica que o maior valor dessas produções é admitir as imagens de lugares feios e de pessoas humildes, que tropeçam no português e não sabem usar o plural. Em nome de uma narrativa fiel à realidade, admitem-se até mesmo certas falhas técnicas, especialmente nos documentários da periferia – sinal de amadorismo na produção ou de falta de bons equipamentos.

O apresentador do documentário sobre o Itaim Paulista, por exemplo, tem fobia à claridade e mal consegue abrir os olhos. O som de Na Trilha de São Miguel é de péssima qualidade. "Tais deficiências representam pouco em relação ao exercício de cidadania que esses documentários propõem", acredita Sadek. Está prevista uma segunda série de História dos Bairros de São Paulo. Nela devem entrar regiões paulistanas que ficaram de fora da primeira, como o Morumbi e os Jardins.

Curiosidades dos bairros

Eis trechos de histórias contadas por antigos moradores de alguns bairros da cidade, reveladas na coleção de documentários lançada pela prefeitura

Barra Funda

Os fundadores da escola de samba Camisa Verde e Branco se conheceram nas rodas de tiririca do Largo da Banana, antiga várzea onde hoje fica o Memorial da América Latina. Tiririca é um gênero de dança de roda mesclado à capoeira, no qual uma pessoa fica no meio do círculo e as de fora tentam roubar o seu lugar – o que acontece quando se perde o passo. A tradição, que acontecia ao som de canções e batucadas próprias, ficou praticamente esquecida no tempo.

Vila Madalena

A fama de bairro descolado, onde convivem muitos jovens, teve início na época do regime militar. Em 1968, muitos estudantes mudaram-se para a Vila Madalena por causa do fechamento da moradia coletiva da Universidade de São Paulo, atraídos pela simplicidade dos imóveis e pelo preço baixo dos aluguéis.

Bom Retiro

A proximidade da Estação da Luz, parada final dos estrangeiros que desembarcavam no Brasil pelo Porto de Santos, fez com o que o bairro tivesse uma aptidão natural para acolher imigrantes. Os primeiros foram os italianos, seguidos de judeus e gregos. Agora 60% do comércio do bairro está nas mãos de coreanos. Eles fundaram em São Paulo escolas e igrejas adaptadas à cultura asiática. A missa católica (foto ao lado) é rezada em coreano.

Campos Elíseos

A decadência do primeiro bairro planejado de São Paulo, abandonado pelos barões do café e transformado em zona de prostituição, teve ao menos um efeito positivo: as ruas dos Campos Elíseos serviram de cenário para filmes brasileiros na década de 70, entre eles O Pornógrafo e O Bandido da Luz Vermelha. Foi naquela época que a expressão "Boca do Lixo" foi cunhada, referindo-se ao endereço das produtoras desses filmes tidos como marginais.

*Nota: A coleção de DVDs História dos Bairros de São Paulo foi produzida inicialmente para ser distribuída às escolas municipais, como material didático. Sendo assim, os vídeos não estão disponíveis para venda e/ou locação. Para ter acesso ao conteúdo, a dica é conferir a programação do Canal Futura, que prevê a exibição dos documentários de 16 de novembro e 9 de maio de 2008, sempre às sextas, às 22h30.

Fonte: VEJA SÃO PAULO