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Por que os ingressos custam tão caro?

Preço alto das entradas inteiras para shows é justificado pela existência da meia-entrada para estudantes

Por: Fabio Brisolla - Atualizado em

O ingresso mais baratinho para o show da cantora americana Madeleine Peyroux, previsto para setembro na casa de espetáculos Via Funchal, custa 100 reais. O mais caro, 400 reais. Quem foi ao Tom Brasil no mês passado ver a também americana Lauryn Hill desembolsou entre 200 e 360 reais. Para as apresentações do Cirque du Soleil, que começam por aqui em fevereiro do ano que vem, prepare novamente a carteira: as entradas variam de 130 a 450 reais. É tudo muito mais caro do que se pagaria em outras cidades do mundo. Um show da trupe canadense marcado para setembro em Nova York, por exemplo, custará a partir de 66 reais ( veja outras comparações no quadro ). Com a cotação do dólar em queda – só nos últimos doze meses a redução foi de 15% –, trazer um artista internacional ao país ficou bem menos oneroso para os produtores. Essa mudança, no entanto, não se reflete no bolso do espectador.

Segundo alguns empresários do setor, apesar de os cachês cotados em dólar estarem mais em conta, diversos custos de produção continuam tão pesados quanto os riffs das guitarras do Deep Purple, cujos ingressos para as exibições no fim do ano passado no Tom Brasil ficaram entre 100 e 200 reais. Mas a principal justificativa para os valores nas alturas é a velha carteira que garante a meia-entrada aos estudantes. "O padeiro não vende pão pela metade do preço a um estudante", diz Luciano Nogueira Neto, diretor de operação da CIE, empresa responsável pela administração do Credicard Hall, Citibank Hall e Teatro Abril. "Se vendesse, o preço do pão iria subir." Para ele, a mesma lei que prevê a meia-entrada deveria estabelecer uma compensação.

Por pressão das entidades estudantis, a atual lei da meia-entrada foi instituída em 1992. Desde então, normas municipais, estaduais e federais vêm garantindo o benefício a quem é aluno de cursos regulares (níveis fundamental, médio, universitário e pós-graduação) e também dos chamados cursos livres (entram nesse rol aulas de computação, línguas, ioga, preparação para o vestibular...). "Em alguns shows, chegamos a ter 80% de ingressos pagos com a carteira de meia-entrada", afirma Sueli Almeida, diretora artística do Via Funchal. "Há casos em que dobramos o preço dos ingressos para compensar. Não fosse a enxurrada de estudantes, as entradas poderiam, muitas vezes, custar a metade do que custam atualmente", admite o empresário Fabio Garrito, dono da produtora de eventos CJG, que diz ter investido 1 milhão de dólares para trazer o Deep Purple ao Brasil e arcado com um prejuízo de 300.000 dólares. "O ingresso ficou muito caro e os metaleiros fiéis reclamaram." Já quando trouxe o músico Billy Paul para catorze apresentações pelo país, em maio, ele conseguiu compensar a perda. "Como têm um público com maior poder aquisitivo, grandes nomes das décadas de 70 e 80 estão se mostrando um investimento com retorno mais garantido", avalia.

O preço do ingresso varia ainda em função das exigências do músico contratado. "Quanto mais famoso o artista, mais pedidos ele faz", conta Maitê Quartucci, diretora artística do Tom Brasil. Os produtores assumem a responsabilidade de bancar despesas como passagens aéreas, hospedagem, transporte dos equipamentos e alimentação. "Custos adicionais, como passagens, aumentaram nos últimos anos", diz Maitê. O sexagenário Rod Stewart, um dos astros do pop em turnê mundial na mira dos produtores paulistanos, cobra cachê em torno de 850 000 reais. Contratá-lo, porém, não sairia por menos de 1,8 milhão de reais. "Um show desse porte fica inviável em uma casa fechada", aponta Garrito. "Mesmo em um estádio, o ingresso mais barato seria em torno de 80 reais." Em tese, a meia-entrada é boa tanto para os estudantes – que muitas vezes dependem da mesada dos pais para se divertir e freqüentar programas culturais – quanto para os promotores de eventos, pois ajudará a formar um público que, no futuro, comprará ingressos pelo preço cheio. Mas, com a proliferação indiscriminada de carteiras, o preço dos ingressos sobe e quem acaba por bancá-lo são os paulistanos que já deixaram os bancos escolares.

Os preços aqui e lá fora

Cirque du Soleil

São Paulo (fev. 2008) a partir de 130 reais

Nova York (set. 2007) a partir de 66 reais

Londres (jan. 2008) a partir de 60 reais

Madeleine Peyroux

São Paulo (set. 2007) a partir de 100 reais

Lyon, França (jul. 2007) a partir de 87 reais

Sandpoint, EUA (ago. 2007) a partir de 85 reais

Living Colour

São Paulo (ago. 2007) a partir de 90 reais

Augsburg, Alemanha (jul. 2007) a partir de 59 reais

Buenos Aires (ago. 2007) a partir de 48 reais

Fonte: VEJA SÃO PAULO