Crônica

Pombo-correio

Por: Ivan Angelo

Crônica 2375
(Foto: Divulgação)

Como me tornei pombo-correio do meu chefe e de minha colega do curso ginasial? Ela já se encontrava com ele antes ou só depois da minha sorrateira colaboração? Era caso dele? De que maneira fui envolvido nessa trama obscura? Por que não procurei saber os detalhes que explicariam tanta coisa? Ou será que os apaguei da memória?

A escola ficava no centro de Belo Horizonte e não havia a rigidez de hoje quanto à idade dos alunos da mesma classe. A minha abrigava três adultos — um que era epilético, um que desde o primeiro ano queria me aliciar para o integralismo, um casado —, e havia as duas primas, Aíla e Ieda, a primeira contando uns dois anos mais que os meus 13, ou até mais, seios meio cansados. Não me perguntem como um menino de 13 anos reparava nessas coisinhas.

Entre os detalhes apagados está o ano em que essas duas primas entraram para a escola, na minha turma. Os fatos se deram na 3ª série, turno da manhã, a partir de setembro — certeza, porque foi a época em que comecei a trabalhar como contínuo na contabilidade do extinto Departamento Nacional de Estradas de Ferro (DNEF). Se as meninas estivessem naquela turma desde a 1ª série, dois anos antes, a trama do meu aliciamento como mensageiro amoroso seria ainda mais complicada. Teria de haver inexplicáveis coincidências para, dois anos depois, eu estar trabalhando naquela seção cujo chefe, num final de expediente, me mandou entregar um bilhete a minha colega.

Aquela “vaguinha” no serviço público foi conseguida por meu pai, chofer de praça noturno, com o engenheiro-chefe beberrão, que ele transportava dos bares aos lupanares na madrugada belo-horizontina; não foi com o chefe da contabilidade, aquele piauiense feioso que me chamou de lado e me passou um bilhete para a minha colega lindinha, sim, lindinha, Aíla, que me intimidava com olhares, rindo do bobinho tímido. Como se fez a ligação? Teria escolhido para ela, de propósito, a escola na qual eu estudava? Teria perguntado alguma vez onde eu estudava? Elas, as primas, teriam entrado para a escola só em setembro? Como fui enredado nessa trama?

Foram muitos os bilhetes, simples papéis dobrados, os dele recebidos por mim à tarde e passados a ela de manhã; os dela entregues no fim da aula, tudo furtivamente, como coisa errada. Nunca os li, dela ou dele, de ida ou de volta. Queimavam no meu bolso. Paralisado, não procurei saber de onde ela conhecia meu chefe. Nada perguntava a nenhum dos dois, como se perguntar fosse indevida intromissão. Um contínuo faz o que mandam. Entrega papéis, colhe assinaturas, busca sanduíches, reconhece firma nos cartórios, aponta lápis...

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A prima dela, Ieda, acrescentava mistérios ao que deixava escapar. Eram piauienses e primas também da mulher do meu chefe. Teriam trazido aquele rolo de lá, de Parnaíba. Ela se chamava Adir, nome que ele abreviava para Adi, em piauiês. Mandou-me à casa deles um dia levar ou buscar algum papel. Bonita— a pele brilhava! —, ficou me encarando, o cúmplice!, a ponto de me dar uns tapas, “confessa, safadinho”. A prima Ieda deve ter denunciado o leva e traz. Teria sido mesmo de raiva aquele olhar? Hoje, romancista, fantasio que ela talvez quisesse dar o troco. Aquele bonitinho ali, incapaz de sustentar um olhar, confusamente culpado, poderia ser o objeto da sua vingança, todas as ações sob o controle dela, senhora de mim, ai de mim.

A função durou até o fim do ano letivo, perto do Natal. Na 4ª série as primas não estavam mais na escola, e não tive coragem de perguntar por elas ao meu chefe.

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO