Crônica

Policiais paulistanos

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Sempre fui fã de romances policiais. Conheço pessoas para quem a leitura só pode ser séria, para quebrar a cabeça. Penso o contrário. Um bom livro também ajuda a relaxar. Até agora fãs de mistérios como eu eram obrigados a deglutir penhascos ingleses ou correrias por Los Angeles e Nova York. Há algum tempo surgiu uma safra de romances policiais cujo cenário é São Paulo, com seus bairros e tipos humanos. O último é Morte nos Búzios, de Reginaldo Prandi. Não nego. Conheço o Reginaldo há uns... puxa, trinta anos! (É nessas horas que vejo como o tempo passa.) Para mim, sempre foi o tipo acabado do intelectual. Professor titular de sociologia da USP, passou anos estudando as religiões afro-brasileiras. Fez teses. Há uns meses, encontrei-me com ele em um evento literário.

– Vou lançar um policial! – contou-me.

Estranhei. Intelectuais em geral não confessam sequer que lêem histórias de detetives. Quanto mais escrever! Assim que saiu, enviou para minha casa. Não nego, sou exigente. Adolescente, já era fã de Sherlock Holmes. Mas adorei Morte nos Búzios. Reginaldo misturou seu conhecimento sobre as religiões afras com a imaginação. Os crimes acontecem a partir das previsões de uma mãe-de-santo da Freguesia do Ó. Aos poucos, o delegado Tiago Paixão começa a descobrir suspeitos entre os freqüentadores do terreiro. Bem... se eu falar um pouco mais acabo contando quem é o culpado! Para um paulistano, é muito diferente acompanhar uma trama que se passa em lugares conhecidos, como a própria Freguesia do Ó, Indianópolis, Vila Formosa, Bela Vista. Enquanto eu lia, visualizava os bairros. Ao terminar, pensei: São Paulo chegou lá!

Essa coleçãozinha de capa preta da Companhia das Letras já lançou outros policiais paulistanos. A começar pela série do investigador Bellini, de Tony Bellotto, que virou até filme. Outro autor, menos conhecido, é Joaquim Nogueira. Delegado aposentado, também cria tramas ambientadas na cidade – com conhecimento de causa, por sinal. Seu detetive, Venício, circula principalmente pela Zona Norte. Gosta de arroz, feijão e saladinha. Em Vida Pregressa e Informações sobre a Vítima, mostra outros policiais, bicheiros, quarentonas mal-amadas, prostitutas, milionários.

Não é só uma questão geográfica. Todos os livros – incluindo os de Bellotto – têm um tom bem brasileiro. Os investigadores e os delegados ganham mal. Há corrupção, e muitas vezes o limite entre o crime e a lei é tênue. Não se trata de cópias da ficção americana e da inglesa simplesmente transportadas para cá. Têm nosso jeitão. Em Morte nos Búzios, por exemplo, um dos personagens freqüenta o terreiro e uma igreja pentecostal, onde ajuda a exorcizar exus! E não vê nisso nenhuma contradição! O investigador de Vida Pregressa se vira em um Fusca! Ninguém demonstra um respeito exagerado pelos policiais, que trabalham pressionados pela falta de verbas. Sintomaticamente, em Informações sobre a Vítima, após o assassinato de um investigador, um dos personagens pergunta:

– Onde é que nós estamos? A bandidagem não respeita mais a polícia?

Frase que dispensa comentários.

Também, não nego, é sintomático o desabrochar da ficção policial tão fortemente aqui, em São Paulo. A inesquecível cadela Baleia de Vidas Secas surgiu na saga dos migrantes nordestinos. A emocionante Ana Terra, de O Tempo e o Vento, só poderia ter sido criada em terras gaúchas. Quem melhor que Dona Flor para falar da pimenta baiana? A nós, paulistanos, revelaram-se os policiais com investigadores mal pagos, assassinatos, corrupção, gente entregue ao deus-dará. Sem querer ser chato, reconheço: cada lugar tem a literatura que merece.

Fonte: VEJA SÃO PAULO