Especial

Se meu pet falasse

Entre os 2,5 milhões de cães e 600 000 gatos da cidade, não faltam histórias de amor que os donos adoram contar e repetir. A seguir, algumas delas, relatadas do ponto de vista dos animaizinhos

Por: Alvaro Leme, Fernanda Nascimento e Giovana Romani - Atualizado em

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Carla Troianelli é dona de dez cachorros (Foto: Mario Rodrigues)

“A concorrência aqui é grande”

Napoleão, lhasa apso, 5 anos

Dona: Carla Troianelli, designer de interiores e estudante de veterinária, 44 anos

Esse bonitão aí grudado na lente da câmera sou eu: Napoleão, o imperador. Tenho muitas vontades e não nego. A culpa é da Carla, minha dona. Carioca da gema, ela se mudou para São Paulo cinco anos atrás. Veio acompanhando o marido, Gabriel, advogado. Ela me contou que, antes de me conhecer, chorou um mês inteirinho, sem parar. Sentia-se sozinha, sem amigos e abandonada no apartamento onde morava, em Moema. Nem precisa dizer que apareci para mudar o curso da história, né? Era agosto quando ela me buscou em um canil lá em Guarulhos. Foi amor à primeira latida. Até o Gabriel, que não estava lá muito contente com a novidade, se apaixonou por mim. Fiquei bem bravo quando apareceram com uma lhasa branquinha e bem-educada, a Marie Louise, dizendo que ela moraria com a gente. Nove meses depois, quase fui destronado quando pintou o Theobaldo, com sua pelugem preta. Ele adentrou nosso lar, conquistou o coração da Malu e tiveram cinco filhotes. Encantada, Carla decidiu tornar-se criadora da raça lhasa apso. Nós nos mudamos para uma casa maior, adaptada às nossas necessidades. E ganhamos muitos novos companheiros — somos dez, atualmente. Todos com nomes de origem francesa: Clotilde, Dagoberto, Blanche, Radegunda, Matilde, Carlos Magno e Josephine. A concorrência aqui é grande, mas o rei da casa sou eu.”

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“Já fiquei trancada na máquina de lavar”

Flor, vira-lata, 1 ano e meio

Donos: Lucas e Gabriel Martins Schiante, estudantes, 8 e 16 anos 

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Lucas e Gabriel Martins são donos da vira-lata Flor (Foto: Mario Rodrigues)

Uma gata vizinha bem folgada, a Kitty, adora pular o muro para me provocar. Corro atrás dela que nem louca para mostrar que este pedaço aqui é muito, mas muito meu, sabe como é? Eu sou a Flor, filha de siamês com vira-lata. Para fazer jus ao nome, tenho meus espinhos, que mostro apenas de vez em quando. Como nesta semana, quando apareceu um moço com uma caixa que chamavam de câmera fotográfica. Saíam umas luzes fortes daquilo que me tiraram do sério. O Lucas e o Gabriel, meus donos, disseram que eu estava parecendo uma oncinha. A última vez em que eu havia perdido as estribeiras desse jeito foi quando a Vilma, a mãe deles, nem viu que eu estava dentro da máquina de lavar e trancou a porta. É que eu gosto tanto, tanto, tanto dela que adoro segui-la por toda parte. Fiquei curiosa quando vi aquela portinha redonda aberta e me enfiei lá dentro. Berrei muito até me tirarem dali. Por pouco eu não — miau! — sabe como é?”

“É difícil eu repetir roupas”

Jullie, maltesa, 1 ano

Dona: Ada Borba, empresária, 48 anos 

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Jullie tem mais de cinquenta opçõs no armário (Foto: Mario Rodrigues)

Fazer poses como esta não é nada fácil. Para aprender a sentar, deitar e rolar ao comando de minha dona, foram várias aulas. Mas, mesmo antes dos truques, sempre tive comportamento exemplar. Afinal, quem consegue manter um visual caprichado como o meu pulando por aí feito cachorro louco? É impossível me encontrar na rua sem um vestido in-crí-vel e lacinhos no cabelo — combinando, é claro. Nos dias quentes, as roupinhas dão lugar a coleiras enfeitadas ou jardineiras. São mais de cinquenta opções no meu armário. É difícil eu repetir roupas. Agora, na Copa do Mundo, por exemplo, vou usar um casaco do Brasil com fitas verdes e amarelas, tá, meu bem? Faço um sucesso danado no local de trabalho da minha dona, por onde adoro desfilar. Passo a tarde toda lá, deitada quietinha em minha cama acolchoada. Quando voltamos para casa, como um pouco da minha ração com peito de peru e às vezes ganho um banho de banheira. Dá para imaginar que ir ao shopping é um dos meus programas preferidos. Apesar de gostar de passear, poupo minhas patinhas e vou dentro da bolsa da minha dona, confeccionada especialmente para mim. Assim, posso levar alguns itens indispensáveis, como lenços umedecidos, garrafa de água, petiscos e brinquedos para as horas vagas. Ai, que vida dura…”

“Elas acabaram com a minha temporada na praça”

Neguinha, vira-lata, 10 meses

Donas: Livia e Rachel de Almeida, estudantes, 8 e 5 anos 

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Livia e Rachel de Almeida são as donas da vira-lata Neguinha (Foto: Fernando Moraes)

Poucas vira-latas têm sorte como eu. Acredite se quiser, mas mesmo sem nenhum pedigree fui disputada por alguns humanos. Tudo começou quando eu estava vagando pelas ruas e resolvi seguir uma mulher em sua caminhada matinal. Ela percebeu minha presença na porta de sua casa, mas não me convidou para entrar. Fiquei esperando, sem sucesso. Em compensação, ganhei ração e comida. Como não sou boba, decidi ficar por lá. A praça do outro lado da rua virou meu lar. Instalaram uma casinha sob uma árvore, onde eu recebia os cuidados da Livia e da Rachel, que vinham brincar comigo várias vezes por dia. As coisas mudaram há cerca de duas semanas, quando fomos passear pelo bairro. Gostei tanto que quis repetir no dia seguinte, mas não tinha companhia. Aí, fui sozinha, pensando que saberia o caminho de volta. Gente! Eu rodava, rodava e não conseguia encontrar a praça. Fui resgatada por uma moça simpática, que me levou ao seu apartamento. Ela deixou avisos em pet shops contando que tinha encontrado uma cadela perdida e, que bom, a mãe daquelas garotinhas que adoro leu um deles. Assim nos reencontramos. De tão felizes em me rever, elas acabaram com a minha temporada na praça. Fui morar com a Livia e a Rachel e agora passo o dia no quintal, dormindo e tomando sol. Lar, doce lar.”

“Vivia numa favela antes de ser adotado pela Tania”

Lee, pug, 8 anos

Dona: Tania Tavares, diretora de marketing, 35 anos 

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O pug Lee vivia na favela antes de ser adotado (Foto: Fernando Moraes)

Quando alguém chega perto e passa a mão na minha cabeça, o mundo para. Encosto ali e fico só recebendo carinho. Deito no chão, faço amizade mesmo. Assim conquistei a Tania, que não me larga por nada neste mundo. ‘O Lee sofreu horrores’, ela costuma repetir. É verdade, cara! Hoje moro num apartamento bacana em Higienópolis, mas vivia em uma casa bem modesta numa favela carioca antes de ser adotado por ela. Estava com o pelo detonado, magrelo, com unhas bem compridas… Mal conseguia escutar, de tantos bichos que havia dentro da minha orelha. Fui entregue à Tania com uma corda de varal enrolada no pescoço, uma coleira improvisada. Eu a vi chorar algumas vezes. Ela dizia que era saudade da família e de São Paulo, mas que o fato de me ter ao lado a fazia aguentar a temporada no Rio de Janeiro, aonde tinha ido para estudar. E que me fazer melhorar — hoje estou fortão e esbanjo saúde — a havia ajudado a se curar de uma coisa chamada depressão. Não sei direito do que se trata, mas, por via das dúvidas, nunca saio de perto dela.”

“Adoooooro dormir”

Soneca, vira-lata, 3 anos

Dono: Cicero Cruz, analista de sistemas, 32 anos 

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Cícero Cruz é o dono da vira-lata Soneca (Foto: Mario Rodrigues)

Hummm, que preguiça… Vou ser breve, porque quero cochilar mais um pouquinho. Meu nome é Soneca. Sim, eu adoooooro dormir. Há três anos, quando ainda era filhote, fui jogado em uma rua na Penha. Como os moleques da vizinhança não me davam sossego, procurei abrigo no quintal de uma casa. Logo que entrei vi o Cicero, com a perna enfaixada, sentado numa cadeira de rodas. Não sou fácil, mas simpatizei tanto com ele! Já o cara deu de ombros. Ele detestava gatos, acredita? Foi a Angela, a mulher dele, quem me acolheu. Lembro-me de ouvi-la falar: ‘É só uma noite, amanhã ligo para o Adote um Gatinho’. Ainda bem que o telefonema nunca chegou a ser feito. Conquistei meu dono aos poucos. Por causa de uma cirurgia na perna, ele ficou de molho por seis meses. Nesse tempo, não o abandonei um segundo sequer e nos tornamos grandes companheiros. Durante a tarde, faço minha sesta em cima da cama do casal! Ainda me estranho com aquela implicante da Nina, uma cachorra que já morava aqui antes de mim. Mas ela fica no quintal. Tenho certeza de que a convivência será melhor com o próximo novo membro da família: uma criança que o Cicero e a Angela vão adotar. Enquanto ainda tenho tempo, vou aproveitar o sofá só para mim! Falando nisso, bateu um cansaço… Boa noite.”

“Ela pede a São Francisco que me proteja”

Fedido, vira-lata, 10 anos

Dona: Fernanda Passos, veterinária, 32 anos 

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O vira-lata Fedido vagava pelas ruas de Santana de Parnaíba (Foto: Mario Rodrigues)

Não sei se, por ter sofrido muito nesta vida, esqueci muitas coisas do meu passado. Lembro apenas que vagava sem rumo pelas ruas de Santana de Parnaíba. No início de 2009, parei na porta de um hotel para ver o movimento. Estava magro, sujo, com a pele inflamada, os pelos embolados e os olhos inchados. Tenho até vergonha de contar, mas, como não tomava banho fazia tempo, também cheirava mal. Nada disso fez com que a Fernanda, filha dos donos do hotel, me enxotasse de lá. Formada em veterinária, ela me alimentou e me encheu de carinho durante os quatro dias nos quais fiquei na calçada. Tudo a contragosto do pai, que preferia me ver longe. Depois de muita insistência dela, fui morar na chácara da família. Cheguei tímido e arredio, mas a Fernanda teve paciência. Tosou meus pelos, deu remédios e, bem-humorada, me batizou de Fedido. Continuo na minha e me dou bem com os outros sete cães e sete gatos da casa. Parece que conheço a Fernanda há tempos. Antes de dormir, ela beija meu focinho e pede a São Francisco que me proteja. Em outubro, ela vai se casar e mudar de endereço. Eu, claro, vou junto. Essa história eu jamais desejo esquecer.”

“Tomei uns florais para aguentar as nove horas de voo”

Lucy, teckel, 6 anos

Dona: Ana Cristina Ronconi, artista plástica, 47 anos 

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A teckel Lucy morou no México (Foto: Fernando Moraes)

Oi! Eu sou a Lucille Ball, mas pode me chamar de Lucy. Nasci no dia 6 de agosto de 2003 — exatos 92 anos depois da estrela do seriado ‘I Love Lucy’. A Ana, minha dona, é fã dela. Eu tinha 2 meses quando nos conhecemos, em uma loja de som para carros, no Itaim Bibi, onde eu estava à venda. Logo, eu, a Ana, o Giancarlo, marido dela, e o filho deles, Gianlucca, formamos uma família. Ia tudo bem quando, em 2005, o Giancarlo recebeu uma proposta para trabalhar no México. Depois de muito chororô, partimos para a cidade de Monterrey. Tomei uns florais para aguentar as nove horas de voo. Os primeiros meses no novo país foram difíceis. Eu fazia de tudo para animar minha dona e acho que consegui. Morávamos em um sobrado, e eu adorava subir e descer as escadas, o que me trouxe um problema na coluna. Em 2007, fiquei paralisada pela primeira vez. Hoje, faço acupuntura, tomo vitaminas e caminho com alguma dificuldade. Retornamos ao Brasil há dois anos. Mais uma vez, tivemos de nos adaptar. Ao lado dela, no entanto, tudo fica fácil.”

“Tive gravidez psicológica”

Marilyn (Mel), yorkshire, 5 anos

Donas: Giovanna e Gabriela Kataoka, estudantes, 10 e 14 anos 

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A yorkshire Mel teve dois filhotes (Foto: Fernando Moraes)

Não reparem no meu novo corte de cabelo, ainda estou me acostumando também. Depois de cinco anos com longos pelos caramelo, me tosaram do focinho às patas! Saí da pet shop um pouco cabisbaixa, rolando pelo chão, mas foi por uma boa causa. Meus dois filhotes, essas fofuras atrás de mim nas mãos da Giovanna e da Gabriela, deixaram minha cabeleira cheia de nós enquanto mamavam. Que mania eles têm de não parar quietos durante a refeição! Há muitos anos desejava ser mamãe — e não faltaram pretendentes, arranjados pelas minhas donas. Por quatro vezes pensei que já estava com os pequenos a caminho, mas minha veterinária dizia que era coisa da minha cabeça. A tal da gravidez psicológica, que não sei ainda se entendi do que se trata. A dona da casa, a Elizabeth, conta às visitas que fiquei triste e carregava meu Bidu de brinquedo pela casa como se fosse um filhote. E que, para não me ver cabisbaixa de novo, decidiu me castrar. Adivinha só: bem na sala de espera do hospital, conhecemos Bradoque, um yorkshire lindo, com pelos pretos e prateados. Afinidade imediata. Minhas donas resolveram me dar mais uma chance — sorte que eu estava no cio. Fui à casa dele três vezes namorar e, em menos de duas semanas, os primeiros sinais apareceram. Eu não tinha vontade de comer nem os pedacinhos de pão que ganho no café da manhã. Corremos para o veterinário, e um exame confirmou as suspeitas: eu estava esperando dois filhotes. Passei os meses de gravidez sonolenta e preguiçosa. Depois que os pequenos nasceram, algumas coisas mudaram. Abandonei o quarto para fazer companhia a eles na lavanderia e passo parte do tempo amamentando. Mas não dispenso meu banho de sol diário e uma boa soneca depois do almoço. Só não gosto de ficar sozinha, mas isso já deixei bem claro. Quando ousam sair sem mim, sempre encontram uma surpresa no tapete.”

 

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO