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A ‘bella storia’ do atual presidente do Dante Alighieri

Aos 83 anos, José de Oliveira Messina, também ex-aluno do colégio, encabeça as comemorações do centenário da instituição

Por: Giovana Romani

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Fevereiro de 1934. Aos 6 anos de idade, o pequeno José de Oliveira Messina deixa a casa onde mora, na Rua Vergueiro, acompanhado pela mãe e pelo irmão mais velho. Eles tomam o bonde, fazem baldeação no Paraíso e, meia hora depois, chegam ao Trianon. Caminham mais um pouco até avistar a imponente fachada do Istituto Medio Italo-Brasiliano Dante Alighieri, na Alameda Jaú. “Viemos à igreja?”, pergunta José ao ouvir o sino tocar.

Depois daquele primeiro dia, as badaladas que indicavam o começo das aulas seriam ouvidas pelo menino muitas e muitas vezes. Hoje, aos 83 anos, ele é presidente voluntário do Dante Alighieri e comanda os festejos do centenário do colégio, fundado pela colônia italiana em São Paulo em 9 de julho de 1911. “Tenho muita história aqui”, diz. E como! Filho de pai siciliano e mãe portuguesa, ele se lembra com detalhes de passagens da infância. Por exemplo, o nome de sua primeira professora, Maria do Carmo Gualtieri. Também não esquece qual era o castigo quando aprontava: ficar sentado, imóvel, debaixo dele, o sino. Entrava na escola às 7h30 e saía às 17h. Fato raro na época, garotos e garotas frequentavam a mesma classe. No período da manhã, acompanhavam aulas do currículo em português. À tarde, aprendiam gramática, literatura, história e geografia. Tudo em italiano.

Messina estava lá quando, no início dos anos 40, o centro de ensino sofreu intervenção federal e foi rebatizado de Visconde de São Leopoldo. “Como Brasil e Itália ficaram em lados opostos durante a II Guerra, os imigrantes acabaram perseguidos.” A essa altura, ele já havia se mudado para a vizinhança da escola, nos Jardins, onde vive até hoje. Terminou o ensino médio em 1946 e, no ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Lá, presidiu o diretório acadêmico e, na mesma época, tornou-se delegado estagiário da 1ª Divisão Policial.

Formado, dava expediente no escritório que ganhou do pai (mantém até hoje em sua sala a primeira máquina de escrever). Chegou a fumar cinco maços de cigarros por dia, razão de ter recebido três pontes de safena e duas mamárias — abandonou o vício em 1971. Aposentou-se como procurador-geral do Tribunal de Contas do Município em 1993, mas não quis vestir o pijama. Membro da Associação dos Ex-Alunos do Colégio Dante Alighieri, foi indicado para a presidência do instituto de ensino em 2008 e reeleito em março para outro mandato de três anos. No posto, que tem como condição não pagar salário, ele comanda uma equipe de nove diretores, responsáveis pelas áreas pedagógica e financeira.

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Como nos velhos tempos, Messina vai a pé de casa para a escola. Quando adolescente, nas suas andanças pelo bairro, costumava ver duas meninas loirinhas brincando em um quintal. Uma delas, Myrian de Lorenzo, oito anos mais jovem, se tornaria sua mulher. Estão casados há 53 anos e — adivinhe só — ela também estudou no Dante. Assim como os seis filhos do casal. “Papai é um homem à moda antiga”, define o primogênito, o engenheiro José de Lorenzo Messina. Ele conta que, após o almoço da família no domingo, cada um dos treze netos se levanta da mesa, mostra o prato vazio e pede licença ao avô.

As tradições também são mantidas dentro dos muros da escola, por onde já passaram quase 70.000 estudantes (hoje, são 4.200). Alguns se tornaram conhecidos. São nomes tão distintos quanto o jurista Miguel Reale e o restaurateur Belarmino Iglesias Filho. “Tomei gosto pelo teatro lá, quando encenei minha primeira peça, aos 12 anos”, conta a atriz Nívea Maria, outra ex-aluna famosa. Na noite da última segunda (6), parte da nova geração teve a oportunidade de pisar no palco da Sala São Paulo para encenar a história da escola. As comemorações só terminarão em janeiro, com um cruzeiro até Buenos Aires, no qual o comandante já confirmou presença. Melhor, só se o destino fosse a cidade marítima de Riposto, na região da Sicília, de onde vem a “famiglia” Messina.

Fonte: VEJA SÃO PAULO