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Ariel Goldenberg brilha em filme sobre portadores de síndrome de Down

Paulistano ainda faz sucesso na internet  com campanha para trazer o ator Sean Penn à estreia de Colegas

Por: Júlia Gouveia [com reportagem de Miguel Barbieri e João Batista Jr.] - Atualizado em

Ariel Goldenberg
Ariel: “Estou ansioso para ver se ele vai aparecer mesmo” (Foto: Lucas Lima)

“Sean Penn, eu quero que você venha assistir ao nosso filme. Mas quero que você se sente ao meu lado. Please, come here!” Foi com essas palavras que o paulistano Ariel Goldenberg, de 32 anos, conseguiu nas últimas semanas um feito: mobilizou boa parte da internet brasileira por meio do vídeo em que fala sobre sua vida como portador da síndrome de Down, relembra os primeiros passos da carreira e faz o apelo para que o astro de Hollywood venha ao Brasil ver a estreia de Colegas, comédia protagonizada por Ariel.

A gravação de quase seis minutos inclui ainda os depoimentos de um time de mais de vinte celebridades, como Juliana Paes e Lima Duarte. Em poucos dias no ar, a campanha se tornou um fenômeno de popularidade, acumulando mais de 1 milhão de visualizações no YouTube. Ela entrou para os Trending Topics do Brasil no Twitter e foi compartilhada à exaustão no Facebook. Com o passar do tempo, a rede de apoio aumentou. O comediante inglês Ricky Gervais retuitou a mensagem para seus 4 milhões de seguidores na rede social. No sábado de Carnaval, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Aécio Neves também postaram um vídeo em que aparecem abraçados e reforçam o convite para Penn vir ao país. “Estou muito feliz com a repercussão e na torcida para que ele apareça mesmo por aqui”, comemora Ariel. Ele conta que a admiração pelo ator surgiu após o lançamento do drama Uma Lição de Amor, de 2001, no qual o americano interpreta um deficiente mental às voltas com a luta pela guarda da filha de 7 anos. “Quando vejo uma pessoa interpretando um deficiente, fico emocionado”, explica. “Eu me sinto representado de um jeito bom.”

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Ariel Goldenberg - Colegas
Em seu apartamento: fascínio pelo protagonista de filmes como 'Milk' (Foto: Lucas Lima)

Enquanto aguarda uma resposta de seu ídolo (até a última quinta, 14, o escritório de Sean Penn em Los Angeles ainda não havia se manifestado sobre a história), Ariel pode celebrar o feito de já ter realizado um de seus sonhos. Ele conseguiu vencer as limitações impostas pela síndrome para atuar profissionalmente. Com pré-estreia em São Paulo na segunda-feira (18) no Cinemark do Shopping Iguatemi e previsão de entrada no circuito comercial em março, Colegas tem como destaque no elenco outros dois atores com a mesma alteração genética: Breno Viola e Rita Pokk, que é par romântico de Ariel no longa e sua mulher na vida real. A trama narra a viagem de três amigos que fogem da instituição onde vivem para ir em busca de seus sonhos. Pelo caminho, num clima de road movie, eles acabam se metendo em uma série de confusões: roubam um carro, assaltam estabelecimentos com revólveres de brinquedo e fogem na boleia de um caminhão para a Argentina, entre outras coisas. Sem a preocupação de soar politicamente correto, o enredo lida naturalmente com a condição deles e consegue tratar de forma leve um tema delicado. “A sacada do filme é mostrar os portadores como iguais”, acredita o diretor, Marcelo Galvão. “Essa acaba sendo a maior forma de inclusão social.” Exibida em agosto no Festival de Cinema de Gramado, a fita levou da crítica o Kikito de melhor filme e o Prêmio Especial do Júri, para as atuações de Ariel, Rita e Breno.

Ariel e Rita Pokk
Com Rita Pokk, sua mulher, no apartamento do Sumaré: paquera iniciada no colégio (Foto: Lucas Lima)

Durante a filmagem, concentrada em sua maior parte entre junho e setembro de 2010, a equipe se deslocou para diversas locações, como Paulínia, no interior de São Paulo, e Buenos Aires e arredores. Os atores viajaram sozinhos, sem os familiares, o que exigiu alguns cuidados especiais. “A gente acabava assumindo uma função meio de ‘mãe’, falando para moderar na comida, ir dormir cedo e tomar os remédios”, lembra o produtor executivo Marçal Souza. Para não correr o risco de os três ficarem tímidos no set e comprometerem o apertado orçamento da produção, Galvão ensaiou com o trio durante quatro anos antes de, literalmente, cair na estrada. “Os Down têm um lado lúdico muito forte, o que torna mais fácil para eles se metamorfosear em cena”, afirma o diretor. Trabalhar com eles, no entanto, exigiu jogo de cintura para driblar alguns obstáculos. Ariel, por exemplo, tem certa dificuldade na dicção e, quando perde o interesse pela conversa, distrai-se facilmente. Por outro lado, chamou a atenção da equipe pelo empenho e pela facilidade em decorar suas falas.

Campanha 'Vem, Sean Penn'
Trecho do vídeo da campanha virtual 'Vem, Sean Penn': grande fã do ator (Foto: Reprodução)

Nos bastidores, Ariel acabou tendo também uma participação fundamental. Desde o início, envolveu-se no levantamento de recursos para viabilizar o projeto, orçado em 6 milhões de reais, trabalhando de forma obstinada. “Logo no começo, ele veio com a ideia de ligar para o Lula e pedir dinheiro”, lembra Galvão. “Expliquei que eu não tinha o número do telefone. Horas depois, chegaram ao nosso escritório vários fax com os números do Palácio do Planalto.” Sozinho, Ariel arrecadou cerca de 400.000 reais. Boa parte da verba ele conseguiu com a AkzoNobel, empresa de tintas na qual trabalhou um ano e meio no setor administrativo. Agora, na fase do lançamento do filme no circuito comercial, tem orgulho de ajudar na divulgação. “Sou o marketing de Colegas”, gaba-se o ator, ao citar a campanha pela vinda de Sean Penn como exemplo de ação que está contribuindo para tornar o longa conhecido no mercado.

Cena de 'Colegas'
Em ação no longa: trabalho obstinado na frente e atrás das câmeras (Foto: Divulgação)

Caçula de uma família judia de quatro irmãos, Ariel provocou comoção nos pais quando nasceu. A artista plástica Corinne e o executivo da área de seguros Jacques Goldenberg só souberam que o filho tinha a síndrome — alteração genética causada por um erro na divisão celular — horas depois do parto. “Recebi a notícia da pior maneira possível: o assistente do pediatra me disse que o bebê era mongoloide”, recorda a mãe. “Jacques desmaiou quando soube.” Na época, ainda não havia testes para detectar a presença da síndrome no feto e o estigma sobre a condição, que atinge atualmente entre 15.000 e 18.000 pessoas em São Paulo, era ainda maior.

Entre as alterações típicas da síndrome estão olhos oblíquos, rosto arredondado, mãos menores e orelhas pequenas e há comprometimento intelectual de intensidade variável. Assim que Ariel começou a crescer, Corinne e Jacques, que se separaram quando o menino tinha 5 anos, optaram por tratá-lo da mesma maneira que os demais irmãos — incluindo aí broncas e palmadas eventuais. Na infância, seu fascínio pelo mundo do cinema aflorou. “Ele passava a tarde assistindo a programas de making of e encenando com bonecos”, relata Corinne. Sua predileção era pelos filmes repletos de efeitos especiais do diretor Steven Spielberg, principalmente Hook — A Volta do Capitão Gancho e Tubarão.

O ator estudou apenas em escolas especiais. Numa delas, a Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (Adid), localizada no bairro do Brooklin, fez curso de teatro com o diretor Leonardo Cortez. “Ele sempre mostrou muita vontade de se expressar”, recorda o professor. Nas montagens do colégio, Ariel participou de encenações de peças de Shakespeare, como Romeu e Julieta. Do grupo também saíram as indicações para que fizesse pontas na televisão, como na novela Jamais Te Esquecerei, do SBT (2003), e no remake do seriado Carga Pesada, da Globo (2005).

Na Adid, não foi só sua paixão por atuar que despertou. Ali, ele conheceu Rita. A paquera entre os dois começou a rolar em 2000, em uma festa promovida pela mãe dela no restaurante La Buca Romana, no Shopping Ibirapuera. O relacionamento ficou sério quando, em uma troca de cortejos, o rapaz dedicou à futura namorada a melosa Eu Juro, da dupla Leandro & Leonardo. A moça retribuiu com My Heart Will Go On, tema do filme Titanic. Quase quatro anos depois, eles decidiram se casar. “Não queria ficar encalhado”, brinca Ariel.

A cerimônia ecumênica, conduzida por um rabino e um padre, foi realizada em um bufê no bairro da Vila Olímpia. Desde então, o casal divide um apartamento de 300 metros quadrados no Sumaré com a mãe de Ariel. “Meu papel é cuidar da infraestrutura da casa, pagar as contas, ver se tem comida”, enumera Corinne. “Sozinhos, eles não dão conta dessas tarefas.” No quarto do casal, a parede é forrada com fotos e cartazes de filmes de Sean Penn. Quando não estão trabalhando, eles frequentam os cinemas em shoppings próximos de casa. Às terças e quintas, vão religiosamente às aulas de pilates, novo hobby de ambos. Enquanto aguarda ansiosamente a estreia de Colegas, Ariel já vai traçando os próximos passos de sua carreira. Ele não quer apenas fazer outros trabalhos no cinema, mas planeja um dia se tornar diretor, espelhando-se em outro de seus ídolos, Steven Spielberg. “Quero filmar longas, fazer novelas e criar um documentário”, afirma com determinação. Para quem já venceu tantos obstáculos, nada realmente parece impossível.

CENAS DOMÉSTICAS

Alguns momentos da vida de Ariel Goldenberg

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Fonte: VEJA SÃO PAULO