Exposições

Pinacoteca recebe 110 obras da pintora portuguesa Paula Rego

Marcados pela presença da libido e da morte, trabalhos impactantes integram a primeira individual da artista no país

Por: Jonas Lopes

Paula Rego - 2208
Painel que integra o tríptico "O Homem-Almofada": personagem veste a roupa do pai da artista (Foto: Divulgação)

Considerada pelo severo crítico australiano Robert Hughes um dos raros nomes contemporâneos cujas criações perdurarão ao longo dos próximos anos, a portuguesa Paula Rego ganha uma retrospectiva na Pinacoteca a partir de sábado (19). Aportam no museu 110 obras, realizadas de 1953 a 2009, entre pinturas, desenhos, gravuras e colagens provenientes de coleções públicas e particulares. Trata-se de sua primeira individual no país — antes disso, ela participou apenas de coletivas e de três edições da Bienal de São Paulo (em 1969, 1975 e 1985). É uma excelente oportunidade para o público brasileiro entrar em contato com uma produção de grande impacto estético, caracterizada por figuras de formas tão indistintas quanto as do francês Balthus. A abordagem corrosiva e naturalista da sexualidade pode ser digna de comparação com a do alemão naturalizado inglês Lucian Freud, para muitos especialistas o mais importante artista vivo.

Paula Rego, de 76 anos, cresceu durante o governo de cunho fascista do ditador Antonio Salazar e foi enviada pelos pais à Inglaterra ainda na adolescência, para escapar da opressão sobre as mulheres promovida pelo regime. Muitas vezes bonecos servem de modelo para a pintora, e o aspecto narrativo das peças advém de fontes diversas. Há desde a influência de contos infantis e de literatura até a crítica social, latente na série “O Aborto”, composta de pastéis nos quais jovens interrompem a gravidez, e em “Circuncisão Feminina”, sobre mutilação genital. Recordações pessoais também aparecem aqui e ali, caso de “Misericórdia I”, homenagem à mãe, e da misteriosa acrílica “A Família”. O tríptico “O Homem-Almofada”, por sua vez, traz personagens trajando roupas iguais às do pai da artista. Difícil não observar nesses trabalhos, marcados pela presença da libido e da morte, um comentário revelador, algo funesto, acerca da condição humana.

Fonte: VEJA SÃO PAULO