Evento

Parada Gay se transforma em arco-íris de intrigas

Briga entre militantes, perda de patrocínios e menos trios elétricos: fervem os bastidores da manifestação, que acontece neste domingo (10)

Por: João Batista Jr. e Carolina Giovanelli

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A edição de 2011: a festa não conta mais com o aporte de 300.000 reais do Ministério do Turismo (Foto: Priscilla Vilariño)

Neste domingo (10), a Avenida Paulista deve ganhar um colorido especial ao ser ocupada por um público estimado em 4 milhões de foliões. Eles são esperados para curtir a Parada Gay, cuja 16ª edição vem com o slogan “Homofobia tem cura: educação e criminalização”. O evento é conhecido por reunir tribos que incluem gays, lésbicas, transexuais e simpatizantes em geral. Todos têm o mérito de levar São Paulo ao topo do ranking do “Guinness Book” por sediar a maior aglomeração do gênero no mundo. Só os turistas de outros municípios e estados deixam por aqui mais de 200 milhões de reais, segundo cálculos da SPTuris. Ao lado da Virada Cultural, é a segunda maior festa da cidade.

Esse clima fraterno, no entanto, contrasta com a guerra protagonizada por militantes da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), organizadora do evento. Motivos para o bafafá não faltam: os patrocínios minguaram, o número de trios elétricos foi reduzido e o prestígio entre os ativistas está abalado.

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Professor universitário de sociologia, Ideraldo Beltrame abdicou do cargo de presidente da organização em outubro após ser comunicado, por e-mail, que integrantes da diretoria haviam trocado a fechadura das portas da sede, na Praça da República, supostamente para impedir sua entrada. “Não me deixaram fazer uma gestão correta e em prol da comunidade”, diz. Entre outras tarefas, Beltrame tinha a missão de construir uma sede própria para a APOGLBT, hoje locatária de um imóvel de 100 metros quadrados caindo aos pedaços, pelo qual desembolsa 1.400 reais por mês. Também pretendia resgatar a credibilidade da associação.

Em 2010, a Parada contou com 600.000 reais de patrocínios, sendo o principal deles um aporte de 300.000 reais do Ministério do Turismo. Mas, por não ter realizado prestação de contas de seus gastos, a parceria não foi renovada no ano passado. “Quem confia em uma entidade inábil para comprovar onde investiu cada centavo recebido?”, questiona Beltrame. Outros parceiros também fecharam a torneira, caso da fabricante de preservativos Olla, que em 2011 contribuiu com cerca de 70.000 reais. Petrobras, Caixa Econômica Federal e Sindicato dos Comerciários, com ajuda de 200.000, 100.000 e 25.000 reais, respectivamente, são os apoiadores da atual edição.

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Micareta sindical: há carros de professores, de comerciários, de operadores de telemarketing... (Foto: Fabio Mendes)

Beltrame foi eleito no fim de 2010 em uma votação tumultuada. Ele havia sido convidado para encabeçar a chapa criada pelo advogado e pai de santo Fernando Quaresma, que assumiu a presidência após sua renúncia, e pelo gestor ambiental Nelson Matias Pereira, do corpo de conselheiros. Entre idas e vindas, essa dupla faz parte do comando da associação há uma década. Com direito a troca de insultos, o barraco se deu porque alguns interessados foram impedidos de votar ou assistir à eleição. “Apenas ser gay não dá credencial de voto”, justifica Quaresma. “Nosso estatuto exige ser associado e estar em dia com a anuidade de 240 reais.”

No entanto, o empresário e pré-candidato a vereador Douglas Drumond, dono do recém-inaugurado hotel gay Chilli Pepper, no centro, alega que foi impedido de se cadastrar. “Tentei me filiar mais de vinte vezes. Todas em vão”, afirma ele, que entrou com uma ação na Justiça para obter sua carteirinha de sócio. Uma audiência está marcada para quinta (14), logo na ressaca pós-evento.

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O empresário Drumond, dono de um hotel gay: briga na Justiça para se associar à entidade (Foto: Mario Rodrigues)

O brilho da parada também tem sido ofuscado pela quantidade de trios elétricos de sindicatos, acusados de contratar DJs amadores e deixar de caprichar na decoração. Dos catorze carros que vão desfilar nesta edição, quatro são de entidades trabalhistas, quatro da APOGLBT, dois da prefeitura e um pertence a uma ONG. Só três são do setor privado. Isso ocorre porque donos de baladas ou qualquer outro negócio precisam desembolsar 10.000 reais de taxa de inscrição (isenta para sindicatos e ONGs), além de gastar com seguranças, aluguel do trio, bufê... O investimento total pode chegar a 80.000 reais.

Sócio das baladas The Week e The Society, André Almada avalia que não vale a pena. “Há muitos camelôs ao redor, e o evento perdeu seu glamour”, diz. “Os organizadores deveriam criar políticas de patrocínio para trazer DJs internacionais e ter carros mais equipados.”

Para amenizar as despesas, a drag queen Salete Campari vende, a 500 reais, abadás aos interessados em sacolejar em cima de seu carro alegórico. Além de levar go-go boys, a “Marilyn Monroe do Largo do Arouche” promete recepcionar a senadora Marta Suplicy, a cantora Rita Cadillac e a arquiteta Brunete Fraccaroli. Já os sindicalistas usam do expediente da militância para justificar sua presença: “Somos a favor da igualdade de oportunidades”, afirma o presidente do Sindicato dos Comerciários, Ricardo Patah.

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Beltrame, ex-dirigente do evento: 'Fui apunhalado pelas costas' (Foto: Mario Rodrigues)

Criada em 1997, a Parada Gay paulistana nasceu para lutar pelos direitos dos homossexuais e atraiu um público de 2.000 ativistas. A exemplo do ocorrido em cidades como Berlim e Londres, a passeata ganhou visibilidade e a simpatia da população. Consequentemente, transformou- se em uma peça-chave do calendário turístico local. “Trata-se de um patrimônio da cidade”, acredita o presidente da SPTuris, Marcelo Rehder. O gasto médio dos visitantes é de 1.813 reais e eles ficam cerca de seis noites hospedados na cidade.

A notoriedade da festa rendeu a São Paulo o título de quarta cidade mais “gay friendly” (algo como simpatizante da causa) do mundo, atrás apenas de Tel-Aviv, Nova York e Toronto, segundo pesquisa organizada por um site GLS americano e pela companhia aérea American Airlines. “A parada é essencial em nossa luta por igualdade, é inadmissível que ela seja administrada como se fosse a casa da maria joana”, diz Drumond.

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Quaresma, presidente da parada: ele teria trocado a fechadura das portas da sede da associação (Foto: Mario Rodrigues)

PÚBLICO EM ALTA, REPUTAÇÃO EM BAIXA

O colorido evento atrai multidão, mas disputas internas se refletem em investimento menor

4 milhões de participantes, sendo que 16% são turistas

325.000 reais de patrocínio, 45% a menos que em 2010

14 trios no desfile, três a menos que em 2011

1.500 policiais participam da operação

1.813 reais é o gasto médio dos turistas

6 horas é a duração da festa

280 seguranças cuidam dos trios

51 ambulâncias prestam assistência

128 furtos foram registrados no ano passado

Fonte: VEJA SÃO PAULO