Crônica

Paixões pela net

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Walcyr Carrasco Crônica 2217
(Foto: Veja São Paulo)

Recentemente, eu me surpreendi em uma pesquisa. Descobri que boa parte das donas de casa já incorporou o computador ao seu cotidiano. Elas adoram as redes sociais, que usam para trocar informações, fazer amizades e, é claro, fofocar. As paixões também acontecem, e como! Eu imaginava que as mulheres teriam medo, por exemplo, de marcar encontros com desconhecidos. Puro engano:

— Pela internet, a gente conhece melhor a pessoa. Conversa tudo o que tem para conversar e depois se encontra ao vivo.

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Muitas já têm uma história de fadas para contar. É sempre a de uma amiga divorciada, sem perspectivas afetivas, que conheceu um sujeito legal pela internet. Depois de muito papo eletrônico, encontraram-se. E estão juntos até hoje. Sendo sincero, eu também conheço um caso semelhante. Após anos de convívio, o casal continua tão apaixonado que, quando ele a chama, o celular toca a marcha nupcial!

Mas nem tudo são flores.

Eu conheci uma escritora bem atraente, na faixa dos 30 anos. Começou a falar com um “rapaz” pela internet. O relacionamento foi se aprofundando. Finalmente ele confessou:

— Não tenho 30 anos como você.

— Isso não me importa. Quantos você tem?

Silêncio cibernético. Finalmente, confessou:

— Cinquenta e quatro.

Ela continuou achando que estava tudo bem. Encontraram-se. Antes de abraçá-la, ele começou a tossir:

— Sou asmático.

Apaixonada, ia dar importância para asma? Foram adiante. Mas ele tinha um ciúme doentio.

— Para quem você telefonou hoje? O que conversaram?

Ou:

— Quero ler os seus e-mails.

Pior: ele mentira em tudo. Não trabalhava. Estava desempregado havia anos. Foi morar com ela para diminuir as despesas. Controla tudo o que ela faz. O que não é muito: durante uma crise de nervos, ela pediu demissão do emprego. Estão os dois na rua, tentando descobrir um jeito de pagar o condomínio. Outro dia ela ameaçou jogar o computador pela janela!

Perto dos 40, uma amiga andava preocupadíssima.

— Não me casei ainda!

Batalhou pela internet. Conheceu um rapaz da Zona Norte de São Paulo. Marcaram o encontro pessoal. Ela não teve dúvidas: botou um casaco de inverno bem pesado. Mas, embaixo, estava completamente nua. Sinceramente, não sei o que passou em sua cabeça. Talvez quisesse praticar uma sedução à primeira vista. Tipo Cleópatra, que se desenrolou do tapete. Conheceram-se. Era um executivo de nível médio, sério. Irresistível! Ousada, ela abriu o casaco num café do centro da cidade. Só para ele, é claro. E o rapaz ficou encantado pela audácia.

— Finalmente eu me dei bem! — ela acreditava.

Como empresária, pouco tempo depois, guindou o executivo a diretor de seu negócio. Só havia um problema: ele sempre tinha uma desculpa para não levá-la para a casa dele.

— Minha mãe é muito simples, não vai se sentir bem com uma mulher sofisticada como você.

— Justamente agora estamos recebendo a visita de uns parentes, mas...

Um dia ele deixou o computador ligado. Ela não resistiu, entrou em seus e-mails. E lá estavam as... mensagens para a esposa.

— Você é casado!

— E tenho três filhos.

— Ou se separa ou perde o emprego!

Ele se separou. Não sei se por amor ou por praticidade. Mas a vida não anda fácil. Tem de trabalhar o dobro, para sustentar a ex e as crianças. E agora sua mulher pegou ciúme do computador.

Que o rapaz não é fácil, ela já sabe. No passado, bastaria controlar suas idas e vindas. Agora, a tentação pode estar entrando em casa, enquanto com uma expressão inocente ele finge atualizar os e-mails.

Se um dia ela se separar, já sabe. A culpa será do computador!

Fonte: VEJA SÃO PAULO