Comportamento

Pais sonham em transformar filhos em estrelas do funk ostentação

Jovens MCs já fazem shows e lançam clipes na internet que chegam a ser vistos por até 100 000 pessoas

Por: Marcus Oliveira

Familia Ostentação - MC Joãzinho VT, com o pai, a mãe e as duas irmãs estúdio de presente
MC Joãzinho VT, com o pai, a mãe e as duas irmãs em estúdio (Foto: Mario Rodrigues)

Desde o estouro do funk ostentação, os cantores especializados não param de faturar com o gênero no qual as músicas tecem louvações a joias, carrões e roupas de grife, entre outras coisas. Um dos astros da categoria, Guilherme Aparecido Dantas, de 21 anos, que nasceu em um bairro pobre de Osasco e é mais conhecido hoje como MC Guimê, faz uma média de 25 shows a cada trinta dias, faturando cerca de 1 milhão de reais no período.

A ascensão desses artistas transformou em sonho de consumo de algumas famílias daqui a possibilidade de ter um herdeiro repetindo a façanha. O torneiro mecânico Valdeci Caetano dos Santos Júnior, de 38 anos, faz parte do time. Ele largou o emprego na metalúrgica Atlas, em que trabalhava havia seis anos com salário de aproximadamente 2 000 reais por mês, para se dedicar integralmente à carreira de João Vitor, 13, seu filho do meio (a mais velha chama-se Gabriela, de 16, e a caçula é Estela, de 9 meses).

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Natural de Osasco, a exemplo do ídolo Guimê, o calouro adotou o nome artístico de MC Joãozinho VT. Ele se lançou em 2013 com um vídeo caseiro divulgado na internet. Em pouco mais de três dias, cerca de 600 pessoas haviam acessado o clipe. “Joãozinho ficou animado com o retorno, pediu para gravar mais músicas e resolvemos fazer a coisa de forma profissional”, explica Santos Júnior. Até o momento, o pai calcula ter gasto cerca de 70 000 reais, boa parte disso na montagem de um estúdio para o jovem, que é autor de músicas como Sábado de Sol, que teve mais de 80 000 acessos na internet, meio no qual foi divulgada. Com isso, deu para garantir uma razoável agenda de shows, com média de quatro apresentações por semana com cachê de 750 reais cada uma.

Joãozinho não é o único aspirante da área do funk ostentação. Proprietário de uma das empresas mais requisitadas do ramo na capital, a Maximo Produtora, Hugo Alencar conta que recebe material de aproximadamente vinte novos artistas jovens por semana. A maioria não tem o mínimo de qualidade. “Os pais sempre acham que têm um Michael Jackson em casa”, ironiza o empresário, responsável por administrar a carreira de Guimê. A expectativa é sempre alta, pois o gênero musical representa para muitas famílias o que era o futebol no passado, ou seja, uma chance de mudar de patamar financeiro rapidamente em caso de sucesso.

Família Ostentação - Du Conventi, com Julio e Suzi shows só nos fins de semana
Du Conventi, com Julio e Suzi: shows só nos fins de semana (Foto: Mario Rodrigues)

Um dos craques do futebol de salão da cidade de São Caetano do Sul, no ABC paulista, o estudante Paullo Conventi Leme da Costa, 14, largou a bola para tentar ganhar a vida como artista. A decisão ocorreu em 2011, motivada por um problema de saúde sofrido pelo pai. Na época, o microempresário Julio César Leme da Costa, 52, recebeu um transplante de rim e parou de trabalhar para se tratar. Vendo a mãe, a dona de casa Suzi Aparecida, desesperada com a situação, Paullo decidiu gravar as canções que escrevia por hobby e lançou o resultado na internet, assinando como MC Du Conventi. Em poucos meses, ele passou a fazer pequenas apresentações e gravou o clipe de Joga pra Frente, Joga pra Trás, com a participação da subcelebridade Geisy Arruda, visto até agora por mais de 100 000 pessoas. Enquanto a fama não vem, o cantor ajuda Suzi cortando o cabelo de amigos em um salão de beleza que ela abriu na garagem de sua casa, na Zona Leste da capital. O pai, hoje recuperado, virou um de seus maiores incentivadores. “Permito shows apenas nos fins de semana, para não atrapalhar o colégio”, afirma Costa.

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Artista frustrado, o ex-cantor Marlon Silva de Araujo, 28, tenta emplacar agora no showbiz o filho Felipe, 7. Batizado de MC Bigodinho, o menino entoa as canções feitas pelo pai sem entender as letras maliciosas (uma delas diz como as meninas se soltam nas baladas depois de algumas doses de uísque). “É tudo uma grande brincadeira e tomo outros cuidados”, diz Araujo. “Nos shows, o Felipe fica no camarote, entra no palco antes dos outros e volta para casa mais cedo.”

MALÍCIA PRECOCE

Alguns trechos de letras cantadas pelos jovens

› ”Me chamou no Face, querendo minha atenção. Postou no Instagram queria roubar meu coração”

MC Joãozinho VT

› ”Joga pra frente, joga pra trás, com a Range Rover as novinhas pedem mais”

MC Du Conventi

› “Ela tá dançando, ela tá descendo, sabe de quem é a culpa? Do Chivas, do Jack,do Red e do Black Label”

MC Bigodinho

Fonte: VEJA SÃO PAULO