Comportamento

Conheça o ourives que fabrica as joias do funk ostentação

Com peças de ouro de 18 quilates que chegam a custar 18 000 reais, artesão da Zona Leste faz sucesso entre funkeiros como Guimê e Gui

Por: Marcus Oliveira

Ourives funk ostentação Ita
Luiz Fernando, o Ita, no ateliê da família, na Sé: produtos exibidos em videoclipes vistos por milhões de pessoas (Foto: Mário Rodrigues)

O funk ostentação ganhou visibilidade há dois anos com rimas que exaltam artigos de luxo. Em um exemplo de que “a vida imita a arte”, a fama levou seus expoentes — na maioria jovens de baixa renda da periferia — a ganhar dinheiro suficiente para bancar o estilo exibido nos videoclipes. Assim, passaram eles mesmos a circular com carrões, roupas de grife e... joias.

 

É fundamental carregar ouro, seja no pescoço, nas mãos ou nas orelhas. Neste caso, um artesão destaca-se como o principal fornecedor dos artistas do gênero: mais conhecido como Ita, Luiz Fernando Ferreira da Silva é o criador das peças usadas pelos MCs Gui, Guimê, Lon e outros. “Existe um kit básico para quem começa: quatro anéis dourados com letras ou símbolos, um colar e um pingente”, ensina ele, falando sobre os produtos mais procurados. “O investimento mínimo por um pacote desses é 4 000 reais.”

Morador de Artur Alvim, bairro da Zona Leste, o ourives desenha e fabrica os objetos na pequena oficina da família, na região da Sé. Quando começou no ramo, em 1999 — após aprender o ofício com o pai, Juraci —, Ita usava a prata como matéria-prima. A partir de 2007, seu trabalho passou a ser comercializado em lojas da Rua 24 de Maio, famosa por concentrar estabelecimentos do setor.

MC Guimê
MC Guimê: peça com o formato do próprio rosto (Foto: Reprodução)

Essa “vitrine” o fez ser procurado pelo então funkeiro iniciante MC Guimê, em 2011. “Ele pediu uma placa de ouro com a foto de seu rosto”, lembra. “Eu nem sabia quem era.” A peça, avaliada em 3 500 reais, aparece no clipe Tá Patrão, lançado naquele ano e com mais de 22 milhões de visualizações no YouTube. A partir daí, Ita viu a demanda de trabalho dobrar e hoje produz cerca de trinta artigos por semana.

A receita acompanhou o ritmo e, dos 1 000 reais que faturava em um mês, passou a embolsar 6 000 reais, em média. As joias são criadas a partir dos pedidos dos próprios músicos ou pela inspiração de Ita em modelos de rappers americanos. Mas o ourives garante ter estilo próprio. “Deixo a peça fosca no fundo e brilhante em volta e no centro”, descreve.

 

O produto mais caro que fabricou foi uma corrente com um pingente em formato de diamante, vendida a um empresário do ramo musical por 18 000 reais, neste ano. O preço dos artigos mais pedidos — iniciais de nomes e símbolos de cifrão ou coroa — varia de 900 a 8 000 reais, dependendo da quantidade de ouro de 18 quilates.

O trabalho é elogiado pelos famosos. “Sua perfeição é o diferencial”, diz Guimê. Mas não são apenas os artistas que o procuram. “Fãs encomendam réplicas”, conta o ourives. Esses artigos, mais simples, geralmente apenas banhados a ouro, costumam custar a metade do valor.

MC Gui
MC Gui: colar roubado durante um show (Foto: Lucas Lima)

No mercado, as peças do artesão do funk correm por fora. Um anel da rede de joalherias Jack Vartanian, com lojas no Shopping Iguatemi e na Rua Bela Cintra, por exemplo, é vendido por 9 800 reais, quase cinco vezes o valor dos objetos de tamanho similar de Ita. “E meus clientes ainda pechincham”, reclama.

O último produto comprado por MC Gui foi um pingente em formato de diamante cravejado de brilhantes, avaliado em 6 000 reais, utilizado durante a gravação de seu primeiro DVD, em abril.

Tanta ostentação tem seu preço. No ano passado, Gui teve uma joia com seu nome roubada durante um show na capital. Para driblar os bandidos, passou a encomendar cópias idênticas, que usa nas apresentações. Dos trabalhos com o funkeiro, surgiu uma parceria: Ita tem fabricado pingentes com a logomarca do artista, disponibilizados no site oficial do cantor. Cada um custa 80 reais, e cerca de 100 são vendidos por semana.

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(Foto: Reprodução / Veja São Paulo)

Fonte: VEJA SÃO PAULO