Concertos

Osesp inicia série de ensaios abertos na Sala São Paulo a 10 reais

O próximo acontece na quinta (31), com regência da portuguesa Joana Carneiro

Por: Pedro Ivo Dubra

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Músicos da Osesp: afinando a sintonia diante do público (Foto: Mario Rodrigues)

“Menos força nos violoncelos, quero ouvir mais os contrabaixos. Não, não tanto. Só um pouco”, diz o regente espanhol Rafael Frühbeck de Burgos, camisa estampada, diante dos instrumentistas da Osesp vestidos nada a caráter — alguns de jeans e tênis — em ensaios agora testemunhados pelo público. Em sua temporada 2011, a Sinfônica do Estado resolveu abrir uma parte dos preparativos à plateia. A primeira etapa da nova série aconteceu no último dia 17, quando Burgos, de 77 anos, afinava a sintonia com os músicos na “Fanfarra sobre Motivos do Hino Nacional Brasileiro”, peça curta do catarinense Edino Krieger, de 83 anos, e na “Nona Sinfonia”, de Beethoven.

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O maestro Rafael Frühbeck de Burgos: roupa descontraída nos ensaios (Foto: Mario Rodrigues)

O encontro durou uma hora e quarenta minutos. No próximo, marcado para a manhã de quinta (31), a portuguesa Joana Carneiro vai liderar o conjunto. Diretora musical da Sinfônica de Berkeley, nos Estados Unidos, ela assumirá a batuta em obras de Esa-Pekka Salonen, Messiaen e Ravel. Os ingressos têm preço único de 10 reais. Cerca de 100 lugares estarão à venda (o restante foi destinado a escolas). Haverá outras oportunidades em quase todas as quintas-feiras do ano.

A ideia de deixar a plateia espiar um pedacinho do processo de criação dos artistas já foi adotada em outras orquestras do mundo. A Filarmônica de Nova York, por exemplo, cobra 18 dólares pelo evento. Em São Paulo, um dos motivos para a iniciativa é a demanda de público. “Nosso número de assinantes cresceu e, como a sala não é elástica, há uma procura por ingressos à qual muitas vezes não conseguimos atender”, diz Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp.

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Tênis e contrabaixo: os instrumentistas fazem ensaio com roupas “civis” (Foto: Mario Rodrigues)

Para o público entusiasmado em olhar por trás da cortina, fica a dúvida se o clima no ensaio aberto é o mesmo dos não testemunhados ou se o maestro pega mais leve com a equipe diante das “visitas”. “Esse tipo de regente que trata a orquestra mal é uma minoria”, afirma o violinista Emmanuele Baldini, um dos dois spallas (líderes) do grupo. Ele conta que, antes da apresentação aberta da quinta, houve outros quatro encontros com Frühbeck de Burgos, na terça e na quarta. “Esses primeiros ensaios são bem técnicos, com muito mais pausas e repetições, e podem ser chatos para quem não é especialista. O aberto já é quase o concerto da noite.”

A florista Daniela Laloum e sua mãe, a dona de casa Dirce Sousa Pinto, gostaram do que viram. “Tentei comprar ingressos para a apresentação, mas já estavam esgotados”, conta Dirce. “Fiquei me perguntando se o ensaio não seria até melhor do que o concerto em si, pois é muito emocionante ver a coisa sendo criada”, diz Daniela. “Deu uma humanizada. Se visse essas pessoas na rua vestidas assim, jamais diria que são instrumentistas”, completa a mãe.

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Daniela Laloum e a mãe, Dirce: processo criativo emocionante (Foto: Mario Rodrigues)

Não só os leigos tiram proveito da iniciativa da Osesp. Formados em composição e regência pela Unesp, Flávio Lago e Paula Castiglioni estão habituados com a rotina de ensaios. “Deu para perceber que esse foi mais para resolver detalhes menores, que eles já vinham trabalhando bem juntos”, explica Lago. Paula destaca o apelo didático. “Não viemos assistir a um concerto, mas observar em que partes o maestro para a música e corrige a orquestra.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO