Cidade

Os problemas da reurbanização do Largo da Batata

Após seis anos de obras, boa parte do projeto não será implementada

Por: Ricky Hiraoka

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Projeto de Tito Livio para a reurbanização do Largo da Batata (Foto: Tito Livio)

Transformar um dos lugares mais feios da cidade em um bulevar arborizado, com espaço para performances artísticas e área de convivência. As barracas de camelôs e a poluição visual dariam lugar a muitas árvores, quiosques, feiras permanentes de artesanato e um pequeno coreto. Essa era a ideia doarquiteto Tito Livio Frascino para reformar radicalmente o Largo da Batata, em Pinheiros. Seu projeto de melhoria do local venceu em 2002 um concurso promovido pelo governo municipal, que secomprometeu a executá-lo. Passados mais de dez anos, a realidade continua bem distante do sonho concebido na prancheta. No lugar disso, a região é hoje um descampado árido pavimentado comcimento, em estado constante de obras. “É frustrante constatar que até agora poucas coisas saíram do papel”, lamenta Frascino. “Nem as árvores foram plantadas direito. Eu havia recomendado a compra de araucárias, mas eles as trocaram por ipês e outras espécies que não têm condições de sobreviver ali.”

Fruto de um investimento previsto de cerca de 300  milhões de reais, a reurbanização começou a ser  tocada em 2007 e deveria ter sido finalizada há três anos. Agora, a prefeitura promete resolver as pendências até dezembro. Na verdade, parte delas. “Desistimos do coreto e do espaço para banquinhas  de artesanato por acreditar que seria difícil manter tudo isso limpo e por temer que moradores de rua ocupassem o espaço”, explica Ricardo Pereira da Silva, diretor da SP Obras,órgão municipal  responsável pela reforma. A intenção de promover feiras ainda existe. “Eventos desse tipo ocorrerão sazonalmente”, informa Silva. O palco, segundo ele, não foi construído por razões de segurança. A  estrutura ficaria sobre o túnel por onde passam os trens do metrô, e a SP Obras considerou que seria mais prudente não levantar nada em cima. “Além disso, o ruído da Avenida Brigadeiro Faria Lima não permitiria shows de qualidade”, argumenta o diretor.

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O projeto de reforma e a situação atual: investimento previsto de 300 milhões de reais (Foto: Fernando Moraes)

A SP Obras afirma que, para terminar a reforma da região, só falta trocar o asfalto, deixar as calçadas acessíveis, fazer o aterramento de fios e melhorar a iluminação de ruas como Teodoro Sampaio, Cunha Gago, Paes Leme e Artur de Azevedo, entre outras. “Estamos nos esforçando para encerrar isso antes do prazo estipulado para não atrapalhar as vendas de Natal dos pontos comerciais”, diz o diretor do órgão. Uma vez concluídas as construções, a SP Obras dará início à terceira fase do projeto, que inclui a  modernização da Rua Butantã e o alargamento da Rua Eugênio de Medeiros. “Desta vez seremos mais rápidos e não causaremos grandes transtornos”,  promete Silva. “Terminaremos antes da Copa.”A reforma do Largo da Batata é um dos objetivos principais da Operação Urbana Faria Lima, junto com a reorganização dos fluxos de tráfego da avenida e a construção de um novo terminal de ônibus (batizado de Victor Civita, em homenagemao fundador da Editora Abril, ele começou a  funcionar em junho). Um dos responsáveis pelo  atraso na entrega do projeto foi o desabamento, em 2007, do canteiro de obras da Estação Pinheiros, que afetou os trabalhos de construção do vizinho terminal. A operação ficou parada por cerca de um  ano e, depois disso, o espaço acabou sendo  redimensionado, ganhando o triplo da área. Em 2009, as escavadeiras tropeçaram na descoberta de um sítio arqueológico no Largo da Batata, o que  paralisou as máquinas por mais um ano  aproximadamente.

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O largo no último dia 15: protestos por melhorias na educação (Foto: Alexandre Moreira)

A expectativa pela chegada dessas melhorias deu lugar a um sentimento de frustração. “Nossa rotina é uma bagunça há muitos anos”, afirma a tradutora  Joana Canêdo. “A gente nunca sabe que ruas se encontram interditadas, sem contar o fato de que as obras estão impedindo que a ciclovia da Faria Lima se desenvolva.” Junto com um grupo de moradores do bairro, Joana acompanha de perto a  movimentação. Recentemente, eles encaminharam àsautoridades responsáveis um documento com  sugestões do que gostariam de ter na área. Entre os pedidos estão mais plantas, centros de recreação,  áreas de esportes e painéis que expliquem a história  do local. Quem trabalha na região do Largo da Batata também não vê a hora de o tormento terminar. A reforma atrapalhou o trânsito e ainda interferiu no  lucro dos comerciantes. “Em 2010, quando fecharam a Rua Baltazar Carrasco, meu negócio ficou isolado por meses”, diz o empresário Silvio Yshii, dono de um estabelecimento que vende produtos eletrônicos e de informática. Nesse período, ele viu o faturamento cair 30% e teve de demitir dois funcionários para não operar no vermelho. Com a via desimpedida, o  problema de Yshii passou a ser outro. O ponto de ônibus foi deslocado para a esquina de sua loja. Agora, quando dois coletivos ficam enfileirados esperando os passageiros entrar, o estacionamento de seu comércio é bloqueado. “Já pedi que fosse mudada a parada, mas não me deram resposta.

Algumas das ideias do projeto original que foram deixadas de lado

› Palco para shows

› Coreto para pequenas apresentações no Largo de Pinheiros

› Estrutura para feiras permanentes de arte e artesanato

› Mobiliário urbano composto de bancas de jornal, bancos e quiosques

› Escultura no Largo da Batata› Plantio de mudas de araucária

Os fatores que atrapalharam o andamento dos trabalhos

› Desabamento no metrô: O acidente na Estação Pinheiros, em 2007, fez com que a construção do terminal de ônibus ao lado ficasse parada por quase um ano. Como muitas residências do entorno acabaram sendo demolidas, aproveitou-se para ampliar o espaço do terminal, que ficou com 9 000 metros quadrados, o triplo do tamanho previsto.

› Sítio arqueológico: em 2009, durante as obras do Largo de Batata, foram encontradas cerca de 30 000 peças do século XIX. A retirada do material demorou meses.

Fonte: VEJA SÃO PAULO