Cultura

Nova orquestra ficará nos antigos estúdios da 'Hollywood brasileira'

Filarmônica Vera Cruz ficará sob a batuta de Júlio Medaglia

Por: Daniel Salles - Atualizado em

  • Voltar ao início

    Compartilhe essa matéria:

  • Todas as imagens da galeria:

Não é exagero dizer que a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada em 1949 no município de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, desempenhou o papel de pequena Hollywood brasileira. Encabeçada pelo italiano Franco Zampari, responsável pela criação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ela foi equipada com alguns dos aparelhos mais modernos da época.

Uma parcela significativa da história do cinema nacional foi gestada em seus estúdios. É o caso de ‘O Cangaceiro’, de Lima Barreto, ‘Apassionata’, de Fernando de Barros, e ‘Sai da Frente’ e ‘Nadando em Dinheiro’, estrelados por Amácio Mazzaropi.

A biografia romanceada do compositor Zequinha de Abreu, ‘Tico-Tico no Fubá’, dirigida por Adolfo Celi com Anselmo Duarte e Tônia Carrero no elenco, foi um dos maiores sucessos da produtora. Atolada em dívidas, a companhia perdeu sua estrutura para a prefeitura de São Bernardo na década de 70. Jogados às traças, os estúdios viraram depósito municipal e passaram a abrigar feiras e exposições. Hector Babenco, que ali rodou ‘Carandiru’, de 2003, foi um dos raros diretores que se interessaram em alugar o local para filmagens nos últimos anos.

Um plano para ressuscitar o antigo pavilhão da Vera Cruz foi elaborado pelo governo estadual na década de 90, mas quase nada saiu do papel. No começo do ano passado, a prefeitura anunciou que fará nova tentativa. “A verdade é que ninguém soube exatamente qual destino dar a esse espaço”, diz Leopoldo Nunes da Silva Filho, o secretário de Cultura da cidade. O novo projeto é ambicioso. Com conclusão prometida para 2012, prevê o desmembramento do antigo galpão da Vera Cruz, de 5 400 metros quadrados e 15 metros de altura, em diversos estúdios, nos quais poderão ser filmados de longas-metragens a peças publicitárias.

Vera Cruz 2179
Cartaz de 'Candinho', de 1954, sucesso de Amácio Mazzaropi (Foto: Projeto Memória Vera Cruz)

Ainda em fase de projeto, e por isso sem orçamento definido, o complexo também abrigará uma escola de cinema e de música. Um teatro ao lado, para 800 pessoas, que começou a ser construído na década passada, será finalizado e deverá integrar um centro cultural, reunindo fotografias e documentos da antiga companhia cinematográfica. A reforma do edifício custará aos cofres públicos 4 milhões de reais e tem conclusão prevista para o fim de 2011.

O teatro vai abrigar a nova orquestra do município, a Filarmônica Vera Cruz. Sob o comando do maestro Júlio Medaglia, a sinfônica fará sua primeira apresentação, só para convidados, às 20 horas deste sábado (21), no auditório Doutor Attílio Zóboli (Avenida Dom Jaime de Barros Câmara, 201, São Bernardo do Campo). Quem entregará a batuta ao regente será a atriz Eliane Lage, protagonista do primeiro longa da Vera Cruz, Caiçara (1950), além de outros sucessos lá rodados, como Sinhá Moça (1953).

Serão executados obras de Beethoven, Chopin e um trecho da trilha sonora do filme O Cangaceiro. O concerto será repetido no domingo (22), às 18 horas, no Ginásio Poliesportivo Adib Moyses Dib (Avenida Kennedy, 1155, São Bernardo do Campo). Com orçamento anual de 16 milhões de reais, a orquestra ainda não tem uma programação definida. Também não está completa.

Seus cinquenta músicos atuais foram contratados provisoriamente — os 75 instrumentistas definitivos serão escolhidos no começo do ano que vem, por meio de um concurso. “Vamos retirar músicos das melhores orquestras brasileiras, dos Estados Unidos e da Europa”, acredita Medaglia. Exageros à parte, o regente promete salários convidativos, de cerca de 9 000 reais, quase iguais aos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a mais importante do país. “Nos próximos anos, o Grande ABC se transformará em um importante polo de música erudita”, diz o maestro.

Fonte: VEJA SÃO PAULO