Crônica

Olhares

Por: Ivan Angelo

Crônica - Olhares
(Foto: Negreiros)

Que elas não se enganem: o primeiro olhar de um homem para uma mulher que o atrai já é uma carícia. Discreta se ele é fino, leve brisa que arrepia; pesada se ele é grosso, apalpadela ofensiva.

Que os homens também não se enganem: o olhar-resposta da mulher propõe uma rápida charada — se souber como, você me ganha. A cena pode dar em nada, os dois podem não querer transformar a carícia visual em tátil, mas a dinâmica daquela olhada não nasceu ali, naquele breve instante, resultou de momentos da vida inteira deles, de eleições, de preferências, de sensações prazerosas. 

Desde que eram bebês, a imaginação deles acumulou dados sobre pessoas, detalhes que atraíram sua visão, tato, paladar, olfato, audição, e encantam: certo olhar, um peito, um jeito de sorrir, o tom de voz, uma pele tocada pela luz, o ruído de passos, certa pisada, uma pinta, um modo de pegar, movimentos de mãos, consistência e calor de mão, roçar de cabelo, certo cabelo, um canto, cheiro, perfume, uma boca, dentes, pé, respiração, ocomer, o dormir... São pequenos momentos de encantamento guardados para a pessoa futura montar seu kit fascinação.

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Os meninos, mais tarde, na escola, acrescentam ao seu banco de dados os encantos da menina mais bonita da sala, as pernas de certa feia, o cabelo da professora... Na adolescência, absorvem alguma informação sobre volumes e sabor. Está quase desenhado o tipo da mulher que vai atrair seu olhar. Às suas fontes pessoais de busca de dados agora se somam o cinema, a televisão, as revistas, a realidade virtual. Então, quando eles olham, já sabem o que querem ver.

As meninas, convivendo com o interesse muitas vezes desajeitado dos meninos, traduzido ora em empurrões, ora em gostosuras do lanche dividido no recreio, vão esculpindo seus modelos de príncipes e vilões, e acrescentarão à receita novos lances da vida e das ficções. Então, quando as olham, elas sabem o que procuram.

A psicologia comportamental tem constatado coisas curiosas a respeito da atração feminina sobre o homem em determinadas situações. Quando ele está cansado, ou relaxado, ou com medo, o seu interesse é menor, o índice de apreciação cai. A endorfina e a adrenalina, que entram em ação nos momentos de tensão e esforço físico, parecem aguçar no homem “aquele”olhar.

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Um estudo feito nos Estados Unidos, comparando o comportamento de dois grupos selecionados de homens em um parque, um deles correndo e o outro apenas vagando por ali, mostrou que os homens que corriam achavam as mulheres — as mesmas para os dois grupos — mais bonitas e atraentes. Outra experiência foi realizada em duas pontes: a primeira de concreto, firme; a segunda de cordas e madeira, balançante. Um grupo de homens deveria atravessar a ponte de concreto, na extremidade da qual estaria por acaso uma mulher bonita. Outro grupo atravessaria a ponte insegura, e no fim passaria pela mesma mulher bonita. Depois os grupos foram entrevistados sobre detalhes variados da travessia. Os homens da ponte perigosa acharam a mulher muito mais bonita e atraente. (Será por isso que as academias de ginástica são lugares de olhares?)

O olhar do homem não é só carícia: é caça. O das mulheres é também produto de uma vida inteira de seduções. Seu mas gostam dos discretos e ternos, outras preferem a pegada forte. Quando cruzam o olhar, o homem não pode esconder o jogo, a mulher só negaceia até certo ponto, senão não há jogo, a partida termina em zero a zero. Ele e ela sabem que seus olhares buscam o que de melhor passou pelos seus sentidos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO