Consumo

Obras na Oscar Freire mudam rotina de suas frequentadoras

Buracos, sujeira e bagunça tiram o bom humor das mulheres que passam pela rua

Por: Sandra Soares - Atualizado em

As frequentadoras da Rua Oscar Freire, o shopping a céu aberto mais charmoso e luxuoso da cidade, vivem seus dias de inferno astral. Elas não desistiram de olhar as vitrines e descobrir as tendências da estação. Desde outubro, entretanto, com os buracos, a sujeira e a bagunça causados pelas obras de reurbanização da rua, a maioria mudou de figurino e humor. "Gosto de usar salto 10, mas com as calçadas desse jeito não dá", afirma a dermatologista Shirlei Borelli, que, mesmo 5 centímetros mais baixa do que de costume, chamava atenção na semana passada num conjuntinho de lã Chanel. "Hoje em dia só venho para cá de tênis", diz a nutricionista Maria Pia Costa, outra habituée da região. Setenta por cento das 150 lojas que ficam nos cinco quarteirões em reforma, entre as ruas Melo Alves e Padre João Manoel, são voltadas para o público feminino. Sua endinheirada clientela reclama não só das calçadas destruídas e do trânsito decorrente das obras como também dos estragos que a poeira levantada pelas britadeiras causa aos cabelos, à pele... e ao pêlo dos lulus de estimação. "Tive de aumentar o número de banhos da Penélope de dois para quatro por mês", lamenta a artista plástica Priscila Presotto, referindo-se à sua cocker spaniel. Hoje, aliás, é raro encontrar um cachorro na Oscar Freire. Por causa das dificuldades de passear por lá, eles migraram para a Alameda Lorena, assim como os carrinhos de bebê. "O Pipo só vem à Oscar Freire se for no meu colo", diz a tradutora Suzana Alves, dona de um west highland terrier. "O lugar ficou perigoso para os cães." Entre os riscos que correm os animais está o de cair em uma vala ou o de afundar as patinhas nas áreas de cimento fresco. Suas donas temem ainda que eles sejam atropelados ou que fiquem estressados com a confusão dos engarrafamentos. Depois de ser vítima de um buzinaço na rua, há duas semanas, a oftalmologista Rosana Carneiro decidiu que "vai dar um tempo" da Oscar Freire – apenas as duas visitas mensais ao salão de beleza L'Officiel III serão mantidas. Como o trânsito em alguns trechos fica restrito a uma faixa, ela encontrou dificuldade para descer do carro em frente ao cabeleireiro. "Meu motorista parou por um minutinho e os carros que estavam atrás fizeram o maior escândalo", conta. "Pensam que a gente quer posar de madame, mas a verdade é que não há onde encostar." Para fugir desse tipo de constrangimento, Rosana pretende adotar os serviços do ponto de táxi localizado em frente ao salão. A arquiteta Fernanda Junqueira também provocou um zunzunzum ao sair de seu Audi A3 na tarde da última quarta-feira. Nesse caso, de outra natureza. "Tento estacionar longe dos operários, mas eles estão por toda parte", diz ela. "As clientes da manhã desapareceram porque se sentem constrangidas de caminhar com os looks de malhação, tops e calças justas, na frente dos trabalhadores", afirma a vendedora Carol Piza, da loja Princess. "Já cansei de ouvi-las reclamando dos comentários impertinentes." Os trinta homens que trabalham por turno na região são orientados a, digamos, não interagir com as freqüentadoras. "A cada quinzena nossos funcionários assistem a uma palestra sobre regras de conduta", garante Jailton da Silva, encarregado de obra da Potenza Engenharia e Construção, uma das empresas envolvidas no projeto. "Eles não devem mexer com ninguém." Mas olhar pode. "Eles adoram trabalhar aqui, onde só tem mulherão", admite Silva, risonho. Prevê-se que o projeto de revitalização da Oscar Freire seja concluído até o fim de outubro. A rua então estará livre de 100 postes – eles serão substituídos por um sistema subterrâneo de redes e cabos – e terá novos bancos, quiosques, lixeiras e luminárias. Suas calçadas ganharão 3 metros a mais de largura nas áreas de esquina. Niveladas, elas perderão os degraus que hoje existem em alguns pontos entre uma loja e outra. Só assim – ufa! – peruas, madames e descoladas poderão circular por lá livres, leves e sem medo de cair do salto.

Fonte: VEJA SÃO PAULO