Crônica

O país dos apelidos

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Apelidos - Crônica - Ivan Angelo
(Foto: Reprodução)

Tipo popular, baixinha, tronco pesando sobre as pernas curtíssimas, andar tombando para o lado de cada perna de apoio, não atendia quando chamavam:

— Mentira! Chega aqui, Mentira. Não ia.

Sabia da razão do apelido: o ditado “mentira tem perna curta”.Não achava graça nenhuma.

— Vem, Mentira, que eu te pago um café.

Adorava café; passava sempre por ali. Ia, tomava, saía resmungando: “Isso lá é café?”. O boteco ficou com o apelido de Café de Mentira.

Tem gente que não escapa de um apelido. Aquela história do seu Zé do Coqueiro. Cortou o coqueiro, deixou só um toco. Virou seu Zé do Toco de Coqueiro. Arrancou o toco, cavou até as raízes. Virou seu Zé do Buraco de Coqueiro. Tapou o buraco. Virou seu Zé do Buraco Tapado. Mudou-se. Deve estar com novo apelido em outras bandas, que isso de apelido é destino.

Alguns apelidos são criativos, outros não têm graça, revelam preconceito e humor negro. O povo não perde a piada, comenta “ah, que maldade” e passa o apelido adiante. O espírito da coisa é mais forte do que os bons sentimentos.

Na minha infância conheci dois desses casos de mau gosto; três, contando o do meu primo.

O mais cruel foi Rabo de Arraia. Não era nenhum valentão. Era um senhor que arrastava a perna direita, como quem dá uma rasteira. O outro foi Perna de Pau, ponta-esquerda de um timinho do outro lado da linha do bonde. Não que ele fosse ruim de bola, até que não era. Só que era amputado da perna direita, do meio da canela para baixo, e jogava de muleta. Era o dono do bar e do time. Vinha gente de outros bairros para vê-lo jogar, e ele não desgostava do apelido. Se saía briga, rodava a muleta e arrasava. Já o meu primo sofreu um estupor do lado direito e ficou com o olho meio fechado e a boca torta. Não sei quem lhe pôs o apelido de Pontaria, que ele odiava.

Eu mesmo tive um apelido que não colou. Quando rapazinho, fiz a barba, passei loção à base de limão, fui para o sole fiquei com o rosto rajado. No colégio me chamaram de Tigre-sem-bengala, às vezes só Tigre. Não durou mais do que uns três meses, o tempo das rajas, mas tinha piada.

Fernando Gabeira conta que um doidinho, preso junto com ele, cismava de manobrar dentro da cela um imaginário caminhão FNM, para estacionar.Os presos,querendo dormir, ao judavam nas complicadas manobras. O doidinho ficou com o apelido de Fenemê.

Rainha era o apelido do ex-editor-chefe do Jornal da Tarde Murilo Felisberto, branquinho e inquestionável.Seu reinado começou na época da visita da rainha Elizabeth II ao Brasil, em 1968. Outro do jornal: Toninho Boa Morte, redator da coluna de falecimentos d’O Estado de S.Paulo e do JT. Quando queriam elogiá-lo, diziam que ele dava vida à coluna. Já não está entre nós.

No ano em que as telas dos cinemas se alargaram de parede a parede, para exibir filmes no novo processo cinemas cope,um rapaz de Belo Horizonte que amargava o medíocre apelido de Bocão passou, com visível preferência, a ser chamado de Cinemascope. Sub-15 ficou sendo o apelido dorapazinho, menor de idade, que atende no balcão da lanchonetefrequentada por um desembargador meu amigo. Umaex-vizinha, lindinha, naquela Belo Horizonte dos bons tempos,chamada Leleta (com “e” fechado), recebeu o apelidode Rima Rica e nem ficou sabendo.

Alguns apelidos não têm a graça da boa sacada, de parecerquase uma charada, a exigir uma faísca de descoberta,mas são pitorescos, descritivos: Maria Tomba Homem, deuma mulher de rua que batia nos homens; Tarzã dosBueiros, de um ladrão que se escondia nos esgotos; Mãode Onça, de um goleiro com mãos enormes; Fi do Pé, dofilho do Pé de Cana, bebum folclórico. Todo mundo conheceum e divulga. Brasileiro gosta de apelidos, nas suasvariadas funções sociais.

Insuperável na graça do acontecido que gerou o apelido éCidinho Bola Nossa, juiz de futebol, mineiro, atleticanoroxo, que interveio assim numa disputa entre um jogador doAtlético e um do Cruzeiro sobre quem ia bater o lateral,favorecendo o do Atlético: “É bola nossa! Bola nossa!”.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO