Crônica

O natal solitário

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

Minha avó paterna preparava um banquete de Natal. Lembro-me das mesas emendadas para abrigar filhos e netos. O menu era uma miscelânea: frango assado, cabrito, pernil, tortas, macarronada, maionese, arroz com passas. Travessas espalhadas pelas mesas, e o almoço ao som de risos e pedidos de “me passa a maionese, me dá o frango”, com os pratos sobrevoando as cabeças. O vinho, só para os adultos, mas nós, crianças, tínhamos direito a um pouco com água e açúcar misturados no copo para matar a vontade. Minha mãe me exibia como troféu:

— Olha só como ele cresceu!

Eu reclamava dessas demonstrações de corujice!

O tempo passou. Tive uma fase de rebeldia, quando declarava aos quatro ventos que certas datas não têm importância. Comparecia de má vontade, como se tivesse coisa mais importante para fazer — e não tinha! Meus avós faleceram. A família se espalhou, os encontros rarearam. Assim, em um certo Natal, descobri que estava sozinho. Meus irmãos, em outras cidades. Minha mãe, na casa do mais velho. Eu, em uma fase pessoal ruim, sem lugar para ir. De tarde comprei uma torta, comida especial. Arrumei a mesa. Acendi uma vela. E tentei confraternizar comigo mesmo. Aí começaram os sons natalinos. As vozes e risos de outros apartamentos. Música. E também as luzes acesas, o pisca-pisca das árvores enfeitadas. Festa e alegria vibrando através das janelas. Eu me senti o último ser sobre a terra. A sobremesa, que parecia tão boa, já não tinha sabor algum. Fui deitar dilacerado pelo sentimento de solidão!

Nos anos seguintes, minha família continuou dividida. Mas eu aprendi a lição: passei o Natal nas casas mais diversas. Certa vez, com a família de uma amiga. Não conhecia ninguém, só ela e o filho pequeno. Quando minha amiga passou em casa, entrei no carro com um certo temor. Como seria recebido? Ao entrar, minha timidez aumentou. Além da mãe, havia um batalhão de irmãos e sobrinhos. Mas alguém disse:

— E aí, tudo bem?

Em festa de Natal não é preciso conhecer ninguém. Basta continuar o papo. Logo eu estava integrado, rindo, me divertindo. No momento da troca de presentes, meu coração se apertou.

— Vou ficar de fora!

Meu nome foi chamado duas vezes! Tanto minha amiga quanto sua mãe me deram presentes! Abri meus pacotes, com a mesma alegria de todos os outros.

Certa época eu e meus vizinhos na Granja Viana fazíamos uma festa só. Cada um levava um prato ou bebida. Compartilhávamos a noite. Esses vizinhos tomaram outros rumos — e sinto saudade dessas ocasiões, em que nos tornávamos uma família só.

Voltei para a cidade. E o Natal mudou para meu endereço. Segui a tradição da minha avó: muita fartura! Enchia a mesa de comida. Vinham as famílias completas e famílias das famílias! Na hora dos presentes, chamava também quem estivesse trabalhando em casa. E ainda arrumava presentes extras, para o caso de aparecer alguém de última hora.

Mas a vida muda, não muda? Hoje, no apartamento, lamento mal conhecer meus vizinhos! A família cresceu de um lado, diminuiu de outro. Mas Natal sozinho, eu nunca mais passei. Ultimamente, passo o Natal com grupos de amigos. Uma coisa linda da vida é saber que se nasce em uma família, mas se cria outra, formada por amigos verdadeiros e tão significativa quanto a de sangue! Prometi a mim mesmo nunca mais passar um Natal sozinho, coisa mais triste! E, se descubro alguém sem festa, convido-o também. Mesmo se o presente for um simples abraço, aprendi que no Natal ele faz toda a diferença!

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO