Crônica

O mundo é do barulho

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

crônica 2177
(Foto: Veja São Paulo)

Vou dormir de madrugada. Acordo tarde. Tenho sono pesado. Há um bom tempo, pulo da cama às 7 da manhã! É quando começam as marteladas no apartamento do vizinho. Perguntei ao zelador:

— O vizinho está reformando?

— Mandou botar pedras decorativas na parede. Uma a uma!

Uma a uma, oh, céus! Dá impressão de que estão construindo as pirâmides. Até que tenho sorte. Um amigo casou-se e mudou para o apartamento de seus sonhos.

— A minha mulher é um doce! Agora vou aquietar — prometeu.

No segundo dia de vida em comum, começaram a quebrar tudo no apartamento de baixo. Marretadas de manhã até o entardecer! O casal ficou tenso. Discussões explodiam por qualquer motivo. Ele a acalmou:

— Estamos nervosos por causa do barulho. Daqui a pouco acaba

Finalmente, as marretadas cessaram. Eles sorriram aliviados. Na manhã seguinte, começou a maquita. O som dessa maquineta cortando pisos é de enlouquecer. A doce esposa criou um ferrão! Histéricos, eles discutiram porque um dos dois havia esquecido o leite fora da geladeira. E o leite redundou na separação. Ela voltou para a casa da mãe. Ele ficou com o financiamento do imóvel e o barulho da obra.

Mas reformas são inevitáveis. E quando o ruído provém de um calçado?

— Minha vizinha de cima anda de tamancos o dia todo! É toc, toc, toc! — confidenciou uma amiga do Twitter.

Um amigo enlouquecia com o salto agulha da executiva do andar seguinte. Outro, com as crianças alheias brincando de pega-pega no quarto imediatamente acima do dele! Mas o premiado sou eu! Ganhei uma banda de rock! Tenho uma casa na Granja Viana na qual procuro descansar nos fins de semana. De uns tempos para cá, todo domingo o filho de uma vizinha resolve ensaiar com a turma. O som se propaga de maneira impressionante em um lugar com poucas construções. A desafinação também! Já tive vontade de bater na porta e aconselhar:

— Desistam! Isso não é música, é barulho!

Não posso, sob o risco de cometer um erro. Muitas bandas modernas são tão agradáveis quanto uma serra elétrica! E o pior: tem quem goste!

A música, confesso, me persegue. No passado, tive também um professor de piano como vizinho de apartamento. Ele tocava magnificamente. Mas os alunos, que sofrimento! Na época, se ouvia dó, ré, mi, fá... Os pelos dos meus braços se eriçavam!

Pior é quando se tem um vizinho festeiro. Toda semana, um terror: som alto, pés se arrastando, gritos na varanda! Sim, eu sei que há uma lei. Mas a do silêncio não pegou. E, mesmo diante da lei, há exceções. Nos últimos meses, um prédio da Avenida Angélica foi reformado de segunda a segunda. Inclusive de madrugada. Fica atrás do meu apartamento. Reclamei. Disseram que tinham alvará. Imagino que sim, por ser um hospital. Agora o barulho parou. Suspeito que alguns moradores da região serão seus primeiros clientes.

Consertos ocorrem durante a madrugada para não perturbar o trânsito. Mas é duro dormir acalentado por uma britadeira!

Já quis mudar para o campo. Morar numa casa a quilômetros de qualquer outra, longe da poluição sonora. Fiz uma experiência. Passei a noite ouvindo rãs coaxando e pios de coruja! Quando fechei os olhos, o galo cantou. Entre um galo e uma britadeira, não sei, não... Mesmo porque depois vem vaca mugindo, cão latindo por qualquer motivo... Desisti da ideia!

Socorro! Todo mundo faz barulho o tempo todo. E quem não gosta de barulho é que acaba sendo esquisito!

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO