Crônica

O dia delas

Por: Ivan Angelo

Crônica da edição 2395
(Foto: Divulgação)

Houve um tempo em que as crianças funcionavam com controle remoto: o olhar dos pais. Para mudar de canal, ou seja, aquietá-las, bastava aquele olhar. Parece que não funciona mais, gastou-se a pilha. Pais que têm dificuldade para lidar com os filhos justificam-se, brincando, nas conversas de festinhas de aniversário ou em fugazes palavras no elevador: criança vem sem manual de instruções. Ao que o interlocutor, solidário, faz a graça de volta: é como videogame, cada etapa é mais difícil. E riem, cúmplices.

No prédio onde moro, de 47 apartamentos, conto 28 crianças, de até 7 anos. Em cálculo desleixado, concluo que elas devem ser 28% do total de adultos, portanto o nosso mundinho está na contramão da estatística brasileira, que aponta: crianças de até 4 anos são 7% da população. É o prédio do amor, penso, com orgulho grupal. Gêmeos há seis, cinco meninos e uma menina, também na contramão demográfica nacional, que aponta pequena vantagem numérica das meninas.

Haverá olhares educadores para toda essa miudeza? Poderão seus avós funcionar como manual de instruções? Os pais avançarão seguros pelas etapas do seu videogame particular?

No meu tempo de criança não havia Dia da Criança. Quer dizer, havia, mas nem os pais nem o comércio ligavam para ele. Fora criado no recuado governo de um Arthur Bernardes, no distante ano de 1924, proposto por um deputado soterrado pela história. A partir de 1960 começou a onda, com promoções comemorativas da Estrela e da Johnson. “Bebê Johnson”, lembra? Parece que só no Brasil a data é o 12 de outubro. Em quarenta anos, virou virose. O comércio vende mais artigos infantis nesse dia do que no Natal.

Mudou, como mudou o entorno da criança. A falta do manual de instruções fez com que se multiplicassem os pediatras.Mães não dão uma colher de sopinha sem receita médica. Alimentar as crianças está complicado, com seu paladar reduzido a macarrão, pizza, hambúrguer, fritas e nuggets. O “não gosto” era resolvido com um “come menos”, mas a insegurança dos pais tornou isso impossível. Leite, sucos? Nem pensar. Escola? Desde pequeninas preparadas para a competitividade do mercado, custe o que custar. Parquinho, bicicleta, clube? Só acham graça na Disney. Brincadeiras? Videogames. Melhor presente? Celular. Dizia o velho Bernard Shaw que os filhos se tornaram tão caros que só os pobres podem se dar ao luxo de tê-los.

No tempo em que não havia Dia da Criança o futuro era simples. Engenheiro, médico ou advogado — e estamos conversados. Rebeldes eram domados na carreira militar, endinheirados ganhavam um negócio, e o resto ia trabalhar para os de cima, que o país precisava crescer.

Eu, de pequeno, queria ser santo, modestamente. Naquele semestre que precede a primeira comunhão, eu me apliquei com fervor nesse desejo. O catequista contava a vida dos santos, os milagres. Era preciso ser bom para receber a graça, e procurei ser boníssimo. Estava começando a ler gibis com a ajuda dos irmãos mais velhos e via os santos como possuidores de superpoderes. Na verdade, eu só queria os superpoderes e acabei me cansando da bondade.

“Filhos?” — pergunta Vinicius de Moraes no Poema Enjoadinho. E responde: “Melhor não tê-los!”. Aí vem a dúvida: “Mas se não os temos / como sabê-lo?”. Enumera uma pilha de problemas que eles trazem, e conclui: “Porém, que coisa / Que coisa louca / Que coisa linda / Que os filhos são!”.

Pois não são?

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO