Crônica

O beijo

Por: Walcyr Carrasco

Ilustração crônica O beijo - 2221
(Foto: Veja São Paulo)

Quando eu era criança, os laços que uniam meus pais eram misteriosos. Meu pai nunca foi um homem expansivo. Minha mãe era alegre, gostava de brincar quase como uma criança. Eles não costumavam trocar gestos de afeto no cotidiano. Ou, então, eu não os notava. Sabia, é claro, da história de seu casamento, contada por mamãe inúmeras vezes.

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Ela tivera um noivo durante cinco anos, na pequena cidade do interior paulista onde morava. Papai era seu vizinho na infância. Quando menina, brincaram juntos. Mas ele já trabalhava em outra cidade. O noivado com o outro rapaz foi rompido porque meu avô, homem rigoroso, não gostava do moço. Papai soube e não perdeu tempo. Enviou uma carta candidatando-se a namorado. Três anos depois, eles se casaram.

Só os números me confundiam um pouco. Meus pais tinham a mesma idade. Iniciaram o namoro aos 17 anos. Bem, se mamãe teve um noivo durante cinco outros... quer dizer que botou o anel no dedo com 12! Esse número me inquieta ainda hoje, não nego. Até agora também é difícil imaginar meu pai adolescente escrevendo uma carta apaixonada. Tento imaginar seu medo, o coração batendo apressado, ao botar a carta no correio. E mamãe respondendo animada, alegre, porque já conhecia meu pai e, sem dúvida, gostava de seus olhos azuis.

Ouvia essa história como se fosse de personagens que eu não conhecesse. Não combinava com aquele homem sério, às vezes bravo. Nem com a minha mãe. Minha mãe namorar? Outro noivo? Parecia tão estranho! Encarava meus pais como companheiros. Nunca como duas pessoas que viviam um amor.

Adolescente, descobri as idas e vindas dos amores. Vivi minha primeira paixão. Mais no sentimento que na realidade propriamente dita. Sempre fui do tipo romântico! Eu e meus amigos falávamos sobre o assunto o tempo todo. Quem com quem, como? Já? E também sobre as paixões do mundo das celebridades, casamentos instantâneos que nos fascinavam. Então o amor podia ser tão rápido? Torcia pelo namoro de meu irmão, apaixonado por uma prima. Acompanhava as idas e vindas de uma tia separada. E o relacionamento mais maduro de um amigo dois anos mais velho. Eu via o amor em mim e nos outros.

Mas o sentimento que unia meus pais permanecia misterioso. Era revelado em situações específicas, como quando papai foi operado e mamãe transformou-se em enfermeira, cuidadosa em sua recuperação. Ou quando se uniam para vencer as dificuldades financeiras. Também havia uma relação diplomática, da qual sempre me utilizava. Se papai era contra algo que eu queria, ela o convencia a ceder. Esses debates aconteciam na cama, de noite. Do meu quarto ouvia o som da voz de mamãe. No dia seguinte, ela me dizia:

— Seu pai deixou, mas só desta vez.

No fundo, eu achava que a cama era um local para meus pais conversarem!

Quando eu tinha 17 anos — a mesma idade em que papai pediu mamãe em namoro! —, meus pais comemoraram 25 anos de casados. As bodas de prata. Na época não tínhamos muito dinheiro. Foi uma festa simples, com pouca gente. Papai nunca bebia. Mas abriu um champanhe. Batemos os copos, porque taças não tínhamos. Nunca vi meu pai tão alegre! A certa altura, entre palavras de animação e risos dos convidados, o grande acontecimento! Papai abraçou minha mãe e a beijou na boca.

A foto tenho até hoje. Ainda me emociona. Fala sobre um amor discreto. Amor de pai e mãe, ao qual muitas vezes os filhos dão pouca importância. É um beijo inesquecível. Naquele dia, descobri que meus pais se amavam profundamente.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO