Crônica

O autor se revela

Por: Ivan Angelo

O autor se revela
(Foto: Ilustração/Veja São Paulo)

Numa vitrina meio escondida de uma pequena sala do 2º andardo Museu de História Natural, em Nova York, encontro uma surpreendente maravilha: a figura de um tigre gravada a estilete em uma pequena presa de elefante, obra refinada, pequena e solitária em sua perfeição, produzida por algum iluminado artista para sempre desconhecido de 12 000 anos antes de Cristo.

Doze mil anos! Milhares de anos antes da invenção da roda; 6 000 anos antes da escrita cuneiforme; 11 000 antes do alfabeto fenício; 10 000 antes da primeira lenda escrita; 11 300 anos antes dos primeiros livros da Bíblia; 3 000 antes da invenção dos potes de barro; de 2 000 a 4 000 anos antes do pastoreio e da agricultura; 5 000 anos antes da primeira cidade murada, Jericó; 11 500 anos antes dos escultores, pintores e arquitetos clássicos gregos!

A ideia de que um ser humano, naqueles tempos ásperos, dedicou parte da vida a aprender a desenhar, a reproduzir nos mínimos detalhes a perfeição feroz de um tigre, a elasticidade da sua musculatura, e depois se dedicou a gravar sua busca, sua conquista, em uma pequena presa de elefante, com instrumentos toscos, gravá-la talvez para que a sua concepção permanecesse, como permaneciam as pinturas nas cavernas que habitava, para que não desaparecesse, como desapareciam os desenhos na areia, e para que pudesse levá-la consigo na errância da tribo... A história que estaria por trás daquele pequeno objeto na vitrina me emociona. Isso, e o fato de ter atravessado 14 000 anos de evolução da civilização até chegar àquela sala de museu. Não é algo tosco nem primitivo o que se vê; é traço detalhista, estudado, anatomicamente minucioso, como o de um estudo de Rembrandt, e anônimo.

A pouca distância dali fica o museu onde imperam os autores, gênios reconhecidos da arte clássica e moderna; perto, ficam as galerias de arte, onde as assinaturas valem milhares ou milhões de dólares. Fiquei pensando na vaidade dos artistas de salão e na solidão daquela busca anônima de perfeição, entre flechas e feras...

Durante milênios, a obra não teve autor. Mesmo depois da invenção da escrita. As pirâmides do Egito não foram assinadas, nem os templos do Vale dos Reis e suas pinturas, a arte dos astecas e maias, pinturas medievais, as obras dos nossos mestres barrocos... Muitos dos livros da Bíblia não têm autores; há historiadores que garantem que inclusive os evangelhos circulavam sem menção ao autor, sendo a autoria atribuída posteriormente. Somente com Hesíodo e Homero as rapsódias gregas ganharam autor. E assim foi com poemas, pinturas, narrativas, gestas, em várias culturas, para sempre sem assinatura, sem autores.

Por que, com o avanço da civilização, tornou-se tão crucial a questão da autoria? Será apenas porque o autor é proprietário de uma obra, com direitos e renda? É mesquinho pensar isso.

No mistério do aparecimento do homem entre as espécies estará o desejo de tornar-se humano. Ele resultou de uma vontade de ser humano. Evoluindo do bando, da tribo, do grupo, o homem construiu o sentimento de ser um, indivíduo. Na linguagem, nasceu o quem.

Quem fez o mundo? As religiões colocaram pela primeira vez a questão da autoria. Em todas as culturas, ele foi obra de um deus. Este organizou o caos, foi o primeiro autor: fez e disse que fez. Criar é organizar o caos: das coisas, das palavras, das formas, das cores. O autor é o indivíduo, o criador.

Sempre tive essa ideia do criador, do autor, como um organizadordo caos. Ora, merece assinar.

Fonte: VEJA SÃO PAULO