Protestos em SP

Novos líderes aparecem na multidão

ALém dos integrantes do Movimento Passe Livre, outras pessoas se destacaram durante as manifestações 

Por: Juliana Deodoro

Manifestações na Avenida Paulista - capa 2327
A Avenida Paulista foi um dos palcos principais durante os protestos na capital paulista (Foto: Caetano Barreira/Folha Press)

Por volta de 22 horas de quinta-feira (20), no cruzamento da Avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio, Adriano Bittencourt, de 30 anos, gritava no megafone comprado naquela tarde para pouco mais de dez pessoas: "Não vamos parar! Não vamos desistir! Vamos criar um grupo no facebook, o Movimento Brasil Unido! O MBU, anotem!". Adriano era cercado por outros, que assim como ele, querem continuar nas ruas. "Sou um brasileiro comum, indignado. Agora que a tarifa baixou, o que vamos fazer? Precisamos continuar." Entre as palavras de ordem e o anúncio da página na rede social, ele dava conselhos. "Evitem bebidas, não estamos aqui para beber. Algumas pessoas vêm para passear e perdemos o foco." E qual é o foco? "A corrupção, a educação. Vamos entrar em debate para definir o foco. Nosso foco é nos unir."

+ Matheus Preis guiou multidão de manifestantes pelas ruas da capital

Desde a última segunda-feira (17), quando o protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) ganhou enormes proporções e levou mais de 100 mil pessoas às ruas, líderes momentâneos e improvisados surgiram no meio da multidão. Nos últimos três protestos, de tempos em tempos, era possível ver alguém tentando guiar a multidão, criando palavras de ordem ou incentivando determinadas atitudes. Na quinta, essa situação ficou ainda mais evidente quando se formaram na Avenida Paulista diversos blocos de manifestantes que se diferenciavam pelos gritos, pelas cores, pelos "líderes" e pela aceitabilidade a partidos.

O gerente financeiro Thiago Gimenez, de 31 anos, não poupava nenhum político. Exibindo um pedaço de uma bandeira destruída do PT ele dizia e centenas de pessoas repetiam: "Quem não pula é petista" e "Ô Alckmin, não esquecemos de você". Inflamado, ele disse ter ido sozinho e encontrado um grupo que seguia os mesmos ideais. "O MPL perdeu o controle da manifestação. Agora ela é do povo", afirmou. "A grande preocupação é ficar só nisso. As pessoas têm de se organizar e não deixar os partidos políticos se aproveitarem da situação." Para ele, a tarifa foi o primeiro motivo que levou tanta gente para as ruas e a PEC 37 e Renan Calheiros devem ser os próximos. "Acabou o conforto.Cada um está lutando pelo seu motivo."

O diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, José Álvaro Moisés, afirmou que as manifestações e o repúdio às instituições e partidos políticos medem a qualidade da democracia brasileira - neste ano, a Constituição Brasileira completa 25 anos. "A maneira como o parlamento tem agido levou ao afastamento de boa parte da população, que sente desconfiança e repúdio aos partidos. É uma critica, mas é algo muito perigoso porque a demoracia não pode funcionar sem parlamento e sem partidos. O mau funcionamento pode estar levando a uma situação que eventualmente motive segmentos da população a ter uma visão não democrática."

"Houve uma campanha de setores da sociedade para dividir os manifestantes entre os que fazem parte de organizações e os que não fazem. O antipartidarismo e a despolitização levaram a um rechaço de todos os partidos tradicionais", afirmou na quinta Maurício Costa de Carvalho, militante do Juntos!, organização ligada ao PSOL, presente desde o o primeiro protesto. Para Maurício, uma nova etapa política começou e a efervecência, que levou tanta gente às ruas, não vai parar. "Temos que ver agora qual luta vai mobilizar todo mundo como o aumento da tarifa mobilizou."

Moisés acredita que este é o momento de gênese de novas lideranças. "Há três semanas, o Movimento Passe Livre não era conhecido por ninguém e já se tornou referência. Movimentos dessa natureza sempre produzem novos olhares e novos atores", afirma. "Agora, se essas pessoas vão continuar liderando e em qual direção vão seguir, ainda está muito cedo para dizer." No facebook, a página do MBU criada por Adriano Bittencourt foi curtida por 158 pessoas entre quinta e sexta-feira.

Fonte: VEJA SÃO PAULO