Ambiente

Novo trecho do Rodoanel muda o panorama da Serra da Cantareira

Imóveis serão desapropriados e o equivalente a 160 campos de futebol desaparecerá

Por: Daniel Salles - Atualizado em

Serra da Cantareira - Rodoanel - 2224
Parte baixa da serra: cinco túneis serão escavados em seu perímetro (Foto: Fernando Moraes)

A queda de braço é antiga. Desde os anos 90, quando o governo estadual anunciou a construção do Rodoanel — uma das maiores e mais importantes obras viárias do Brasil —, alguns grupos de ambientalistas e uma parte dos moradores da Serra da Cantareira protestam contra o projeto do Trecho Norte da estrada, que vai cortar o bairro. Trata-se da mais extensa reserva florestal da região metropolitana, com 7.900 hectares, o equivalente a cinquenta Parques do Ibirapuera.

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O projeto inicial era fazer o cinturão na parte mais alta da zona de proteção, rica em mananciais — cerca de 60% da água consumida pelos paulistanos brota dali. Esse problema foi corrigido, com a definição, em 2009, de um novo traçado, que margeia a parte mais baixa do local. Ele prevê a construção de sete túneis, cinco dos quais por debaixo da área, cujo perímetro permanecerá intacto.

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Na semana passada, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) concedeu a licença prévia que autoriza o início dos trabalhos. “O trajeto adotado causará o menor impacto possível à fauna e à flora do lugar”, afirma Laurence Casagrande Lourenço, presidente da Dersa, a estatal responsável pela obra.

Orçado em 6,1 bilhões de reais, o novo trecho terá 44 quilômetros de extensão e interligará as rodovias Dutra, Fernão Dias e Bandeirantes. Em torno de 62.000 veículos por dia são esperados por ali, o que desafogará o trânsito e diminuirá a poluição na capital. Segundo a previsão, as escavadeiras devem começar a operar em novembro e encerrar os trabalhos no fim de 2014.

Ivini Ferraz, vizinha da reserva da Serra da Cantareira - 2224
Ivini Ferraz, vizinha da reserva: “Teremos de conviver com a fumaça dos caminhões” (Foto: Fernando Moraes)

A expectativa do início das obras já mexe com a vida de uma parte dos moradores da região. Cerca de 2.000 famílias que ocupam terrenos invadidos em meio ao percurso da obra devem ser removidas. Elas poderão se inscrever em programas de habitação ou aceitar uma indenização, de cerca de 40.000 reais. Outros 2.100 imóveis e terrenos com escritura também precisarão ser desapropriados. Um total de 112 hectares de mata nativa, ou 160 campos de futebol, sumirá. Como compensação, a Dersa promete reflorestar uma área quatro vezes maior.

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Utilizada como rota de tropeiros nos séculos XVI e XVII (o nome Cantareira vem do hábito desses viajantes de levar água em grandes jarras chamadas de cântaros), a região começou a ser explorada pelos paulistanos somente há poucas décadas.

A partir dos anos 70, grupos mais alternativos se mudaram para lá em busca de paz e sossego. Entre os moradores célebres da época estavam os roqueiros dos Mutantes, que ensaiavam na varanda da casa de Arnaldo Baptista e Rita Lee, em meio à mata, e os também cantores Elis Regina e Renato Teixeira. Hoje, a população local, calculada em 10.000 pessoas, mistura donos de casas em condomínios de alto padrão, praticantes de esportes radicais que baixam por lá nos fins de semana para explorar suas trilhas e gente interessada em aproveitar o circuito de bares e restaurantes no estilo rústico.

Palmor Carlos de Almeida, dono de imobiliária na Serra da Cantareira - 2224
Palmor Carlos de Almeida, dono de uma imobiliária na região: expectativa de valorização (Foto: Fernando Moraes)

A nova estrada ainda divide a opinião dos residentes e frequentadores. “Nossa vida será totalmente impactada”, diz a gestora ambiental Ivini Ferraz, moradora da região e coordenadora da ONG Recanta, voltada para a preservação da mata local. “Agora, teremos de nos preparar para conviver com a fumaça e o barulho dos caminhões.”

Uma boa parte dos que habitam a Cantareira, no entanto, vê a iniciativa com bons olhos. “Muitos dos que reclamam da chegada do Rodoanel não fazem ideia de qual será seu trajeto”, acredita Palmor Carlos Guilherme de Almeida, vizinho da reserva há 22 anos e dono de uma imobiliária nas redondezas. Ele entende que a parte nobre da região está bem protegida no projeto aprovado. “Se o acesso às rodovias próximas melhorar, só teremos vantagens, como imóveis mais valorizados”, torce o empresário.

 

CIFRAS DA GRANDE OBRA

112 hectares de mata nativa, o equivalente a 160 campos de futebol, serão derrubados. O governo estadual promete reflorestar uma área quatro vezes maior

2.000 famílias que vivem em áreas invadidas serão encaminhadas para programas habitacionais ou receberão cerca de 40.000 reais de indenização

2.100 imóveis e terrenos com escritura também precisarão ser desapropriados

7 túneis e 20 viadutos serão construídos para minimizar o impacto ambiental

6,1 bilhões de reais serão gastos com a construção da estrada, que ajudará a desafogar o trânsito e a diminuir a poluição da região metropolitana

Fonte: VEJA SÃO PAULO