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As novelas que entram no ar neste semestre

Dentro dos próximos três meses, estreiam quatro folhetins ambientados em São Paulo

Por: Ricky Hiraoka - Atualizado em

Amor à Vida - set cantina Bixiga - Malvino Salvador Paolla Oliveira
Malvino Salvador e Paolla Oliveira em cantina do Bixiga: gravações mensais na capital (Foto: Bob Paulino)

É perto de 8 horas e as lojas da Rua 25 de Março parecem lotadas em pleno domingo, quando a região costuma ficar vazia, com quase todos os estabelecimentos fechados. A mágica acontece em gravação da novela Amor à Vida, a próxima das 9 da Rede Globo. Só nas cenas dentro da Vitória Bijouterias são usados 37 dos cerca de oitenta figurantes contratados, que se espremem nos corredores redecorados pela produção. Para esconderem as estantes bagunçadas e dar mais colorido à imagem, tecidos estampados foram presos ao teto. “Está com cara de festa de São João”, observa o dono, Pedro Caldas, sem entusiasmo diante da transformação de seu comércio.

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Novela Amor à vida - Rua 25 de Março
Set de 'Amor à Vida' na Rua 25 de Março (Foto: Rodrigo Paiva/RPCI)

Enquanto isso, a atriz Gabriela Duarte, cuja personagem será balconista na área, é maquiada e vestida em uma base móvel estacionada em uma rua paralela, onde também se preparam os atores Malvino Salvador e Elizabeth Savalla. Tudo fica pronto por volta das 10 horas. Luz, câmera e... A chuva, que vem e vai, interrompe a maior parte do trabalho. A equipe corre para aproveitar os poucos momentos de céu aberto, mas sai de lá sem duas das seis tomadas planejadas. Mesmo com o mau tempo, dezenas de curiosos, separados por uma fita de isolamento, se mantêm firmes ali. O resultado de todo esse trabalho, feito no dia 17 do mês passado, será levado ao ar em um dos primeiros capítulos da trama, que estreia em maio.

Esbarrar em uma parafernália de sets de novelas, algo trivial no Rio de Janeiro, deve se tornar cada vez mais comum por aqui nos próximos meses. Neste ano, haverá quatro tramas, de exibição simultânea, ambientadas na metrópole. “Isso não acontecia desde o início dos anos 80, quando o SBT e a Band tinham produção concentrada em São Paulo, mas com raras imagens na rua”, aponta Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP. A primeira estreia é Sangue Bom, também da Globo, que ocupará a faixa das 19 horas a partir do dia 29. Da Record e do SBT, chegam dois remakes de campeãs de audiência — respectivamente, Dona Xepa, em maio, e Chiquititas, em junho.

Amor à Vida, porém, com início marcado para 20 de maio, será de longe a mais presente em nossas esquinas. “Pela primeira vez, dispensamos a montagem de um bairro cenográfico para filmar constantemente nas ruas paulistanas”, relata Wolf Maya, diretor do núcleo da emissora responsável pela novela. Apenas fachadas isoladas ficarão no Projac, a central de produção da Globo no Rio. O elenco fará viagens mensais a São Paulo, o que é incomum — em geral, garante-se um pacote de cenas para a história toda. Entre as locações já utilizadas estão o Vale do Anhangabaú, o Estádio do Pacaembu, a Avenida Paulista, o Memorial da América Latina e a cantina C... Que Sabe!, do Bixiga.

Sangue Bom - Marisa Orth - Casa Verde
Cena com Marisa Orth em bairro próximo à Casa Verde (Foto: TV globo/Zé Paulo Cardeal)

No Rio, autorizações para armar esse circo eletrônico nas calçadas costumam levar por volta de três dias. Em São Paulo, segundo os produtores, a demora gira em torno de dez. Como a demanda vem aumentando, criou-se até um órgão público para tentar agilizar o negócio. Trata-se do Escritório de Cinema de São Paulo (Ecine). A repartição, que funciona desde 2007, está vinculada à Secretaria Municipal de Cultura. O número de liberações expedidas pelo Ecine (se contabilizados ainda cinema e comerciais) passou de 47 em 2008 a 158 em 2012.

Nas últimas décadas, São Paulo serviu de palco para algumas tramas memoráveis. Em Vereda Tropical, de 1984, o protagonista era um jogador de futebol revelado pelo Corinthians, papel defendido pelo ator Mário Gomes. Outro sucesso da Globo, Sassaricando, exibida em 1988, tinha a impagável Tancinha, uma fogosa feirante interpretada por Claudia Raia, que caprichava no acento da Mooca. Esses folhetins com sotaque daqui, no entanto, apareciam apenas de tempos em tempos. Mais que uma simples coincidência, a realização simultânea de quatro grandes novelas sinaliza uma mudança nesse cenário.

Um dos motivos que ajudam a impulsionar as produções locais no momento é o peso da audiência da cidade para o mercado publicitário. “A busca pelos espectadores daqui influenciou na mudança do Rio para São Paulo na ambientação do remake”, afirma Ivan Zettel, diretor-geral de Dona Xepa. O fato de as gravações na cidade ainda serem pouco usuais torna a curiosidade do público uma dificuldade extra. “No Rio, os cariocas se irritam com as cenas de rua, acham que estão atrapalhando a vida deles. Aqui, todo mundo para e assiste”, compara a atriz Thais Fersoza, uma das estrelas da Record. O resultado é que parte do conteúdo acaba inutilizada. “As pessoas prejudicam a captação de áudio e a concentração dos atores”, afirma Alan Santos, produtor executivo de Dona Xepa.

Set novela Dona Xepa - Thais Fersoza
Thais Fersoza (de preto), de 'Dona Xepa', na Oscar Freire: “No Rio, as pessoas se irritam com cenas de rua. Aqui, param e assistem" (Foto: Ricardo D'Angelo)

Para completar, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) tem uma compreensível resistência a bloquear o trânsito. Isso fez Santos riscar do roteiro, por exemplo, uma sequência que se passa no Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera. Em Chiquititas, as escolhas envolveram menor complexidade. As tomadas foram feitas em fins de semana, em vias do centro, todas para ser exibidas nos primeiros capítulos. “Como é um período em que as crianças vivem nas ruas, anterior à sua ida ao orfanato, escolhemos rodar por ali”, explica o diretor-geral, Reynaldo Boury.

Mili - Giovanna-Grigio - Chiquititas
Giovanna Grigio, a protagonista de Chiquititas: tomadas na região central (Foto: Lourival Ribeiro)

A opção é também econômica. Gravar na rua custa entre 148,95 reais (lugares de pouco trânsito) e 1 747,45 reais (grandes avenidas). A Globo registrou em fevereiro passagens de Sangue Bom na Casa Verde, na Zona Norte, onde vive parte dos personagens, e no Jardim São Bento, área mais nobre da vizinhança. “Queríamos uma região simpática e agradável de classe média, em que o excesso de prédios não tivesse ceifado a intimidade entre os moradores”, diz o dramaturgo Vincent Villari, que residiu lá e assina a trama ao lado de Maria Adelaide Amaral. A cidade cenográfica ocupará 7 500 metros quadrados no Projac, com reproduções de trinta imóveis. Presidente da Sociedade Amigos de Casa Verde, Carlos Antonio Zecca se anima com a entrada das cercanias no horário nobre. “A visibilidade pode valorizar a vizinhança”, acredita.

Para evitar o efeito contrário, de merchandising negativo, Walcyr Carrasco, autor de Amor à Vida, optou por não identificar o bairro de classe média baixa onde acontecem situações violentas, como ônibus queimados por bandidos. A Vila Brasilândia, que no ano passado foi palco de episódios assim, acabou descartada, após ser visitada pela produção. “Achei melhor não nomear o local da trama para não magoar os moradores e criar um estigma”, afirma Walcyr. Para Mauro Mendonça Filho, diretor-geral da novela, a metrópole é “ideal para exercitar a criatividade”. Um exemplo: ele estava atrás de um cenário exótico para ambientar um bordel. Optou pela Choperia Liberdade, tradicional karaokê de decoração abarrotada, que inclui até luzes de Natal e quadros com imagens que se mexem. “Só tivemos de colocar estruturas de pole dance e garotas para dançar”, conta. “O resto era extravagante o suficiente.”

QUANTO VALE O ALUGUEL

O preço pago pelas emissoras para rodar em algumas locações da metrópole

Ceagesp: cenário de Dona Xepa e Sangue Bom, custa 5 000 reais por período (manhã, tarde ou noite)

Restaurante Quattrino: a casa da Rua Oscar Freire cobrou 2 500 reais da Record para ceder o espaço por quatro horas

Cantina C... Que Sabe!, no Bixiga: ponto de encontro dos protagonistas de Amor à Vida. Cobra, em média, 3 000 reais, mas fez permuta neste caso

Memorial da América Latina: estará na próxima novela das 9. Não houve cobrança desta vez, mas o preço-padrão é de 15 000 reais por seis horas.

Teatro Municipal: usado por Amor à Vida, custa 35 000 reais por dia

 

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

SANGUE BOM — Globo

Estreia: 29 de abril (19 horas)

Tema: os desencontros românticos de seis jovens

Locações: Shopping JK, MIS, Parque do Ibirapuera

AMOR À VIDA — Globo

Estreia: 20 de maio (21 horas)

Tema: disputa de dois irmãos pelo controle de um hospital

Locações: Parque Villa-Lobos, Cachaçaria Água Doce

DONA XEPA — Record

Estreia: maio, ainda sem definição de dia (22 horas)

Tema: a vida de uma feirante que é rejeitada pelos filhos

Locações: Ceagesp, Rua Oscar Freire, Avenida Paulista

CHIQUITITAS — SBT

Estreia: junho, ainda sem definição de dia (20h30)

Tema: o cotidiano de um orfanato

Locações: Rua Líbero Badaró, Avenida Ipiranga

Fonte: VEJA SÃO PAULO