Polícia

Gangues neonazistas se tornam mais ousadas e pertubam a cidade

Com integrantes entre 16 e 25 anos, grupos gritam palavras de ordem e dão as caras em manifestações

Por: Giovana Romani

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Jácullo: prisão por roubo e manifestação pró-Bolsonaro (Foto: Samuel Costa/CPN/AE)

Na tarde do último domingo (29), o estoquista Onilmar Rocha de Queiroz, de 31 anos, foi preso em Pinheiros após uma denúncia de sua namorada. Ela diz que seu companheiro a obrigava, entre outras barbaridades, a usar drogas e a se prostituir, além de mantê-la em cárcere privado. Na residência onde o casal morava, os soldados da Rota, responsáveis pelo caso, encontraram um arsenal composto de uma pistola calibre 635, uma bomba caseira, três nunchakus (bastões ligados por uma pequena corrente), cinco cassetetes (um deles, elétrico) e socos-ingleses. Também foram recolhidos por ali documentos falsos, manuais de fabricação de explosivos e livros sobre o movimento neonazista.

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Ao analisarem os antecedentes criminais do detido, os policiais descobriram que ele esteve envolvido num dos mais violentos ataques já feitos contra homossexuais na cidade, o assassinato a pancadas do adestrador Edson Neris da Silva, há onze anos, na Praça da República. Onilmar, suspeito de pertencer ao grupo de skinheads Carecas do Subúrbio, acabou absolvido no caso. Agora, vai responder pelos seguintes crimes: porte ilegal de arma de fogo, tráfico de drogas, uso de documento falso, apologia do crime, violência doméstica, ameaça e fabricação de explosivos.

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A prisão do estoquista Onilmar Rocha de Queiroz: processo por porte ilegal de arma e violência doméstica (Foto: Bruno Leite)

Ocorrências semelhantes a essa têm se repetido com uma frequência preocupante. Formadas por homens entre 16 e 25 anos, vindos de famílias de classe média baixa e praticantes de artes marciais, várias gangues radicais que mal conhecem as teorias que defendem estão por trás de ações violentas, atos de vandalismo e manifestações homofóbicas ocorridas recentemente na capital. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), especializada em combater ações desse tipo, já contabilizou 25 grupos em atividade, batizados com nomes como Devastação Punk, Vício Punk, Front 88 e Kombat RAC.

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Material apreendido na casa de Onilmar: armas brancas e material de propaganda (Foto: Bruno Leite)

Tão assustador quanto essas alcunhas é o visual da turma. Alguns deles, como os skinheads, vestem coturnos, suspensórios e uniformes camuflados. Outros preferem cabelos ao estilo moicano e calças rasgadas. Muitos decoram o corpo com tatuagens em homenagem a ditadores como Adolf Hitler. Em comum, demonstram ódio a gays, negros, nordestinos e outras minorias. “À medida que a sociedade cria mecanismos de aceitação, essas gangues proliferam, numa espécie de contrarreação”, afirma a psicanalista e antropóloga Ilana Novinsky, diretora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo.

Nos últimos meses, as turmas deixaram de agir nas sombras para aparecer de forma ousada em algumas manifestações públicas. Nas marchas pela liberdade de expressão realizadas nos dois últimos sábados de maio na Avenida Paulista, um grupo de quinze skinheads surgiu para provocar os presentes e aplaudir a repressão policial. Outro incidente foi causado por dois punks que, aos gritos, chutaram um carro de reportagem da Rede Globo, danificando equipamentos da emissora. Um deles portava uma bomba caseira. A dupla acabou detida.

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Marcas da ideologia: tatuagem da Cruz de Ferro, condecoração do Exército alemão; integrante do grupo Kombat RAC com a Cruz Celta no punho; no pescoço, a homenagem à SS de Adolf Hitler e o número 88 (HH); desenhada na careca, referência ao Oi!, movimento musical skinhead (Foto: Montagem sobre fotos de Luis H. Blanco/News Free e Mastrângelo Reino/Folhapress)

Autoproclamados neonazistas deram as caras ainda em um evento recente de São Paulo, a passeata em defesa das opiniões homofóbicas do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), ocorrida em abril, também na Paulista. “O que mais se ouvia por ali eram insultos e discursos inflamados”, afirma o blogueiro Raphael Tsavkko, que publicou em sua página na internet um documentário de autoria desconhecida retratando os membros desses bandos. O vídeo soma mais de 10.000 acessos na web.

Algumas das facções mais violentas não se contentam em portar faixas e gritar palavras de ordem. Em abril, dois homens acabaram esfaqueados enquanto se dirigiam para um show de rock na Virada Cultural. O responsável pela agressão, Rafaele Marquini Franco, de 25 anos, foi preso em flagrante. Seu corpo possui várias tatuagens com símbolos nazistas. No momento do crime, portava uma faca, um canivete, um soco-inglês e um bastão de ferro. Atualmente, aguarda o desenrolar do processo na prisão.

Para conter a escalada de barbaridades, investigadores da Decradi têm comparecido a shows e eventos com a missão de identificar e fotografar membros de gangues. O arquivo reunido contém imagens de mais de 1.000 homens e mulheres, fichados após se envolverem em crimes, brigas e confusões. “Existe também muita rivalidade entre esses grupos”, afirma a delegada Margarette Barreto, da Decradi.

Há dois anos, a unidade realizou uma grande operação para desbaratar a gangue Impacto Hooligan. Dois de seus líderes, Guilherme Witiuk Ferreira de Carvalho e Rodrigo Alcântara de Leonardo, terminaram condenados a dois anos de prisão, por formação de quadrilha, em setembro passado. No momento, a delegacia especializada tem outros 130 inquéritos em andamento. Apesar dos esforços, uma simples busca pela internet mostra que a repressão está ainda longe de resolver o problema. Em um vídeo do grupo Kombat RAC postado há três meses no YouTube, aparecem declarações como “skinheads, a voz que não pode calar” e “sempre leais, sempre fascistas”.

Em sua página no Facebook, o integrante Guilherme Jácullo, de 20 anos, diz ter entre seus ídolos o ditador italiano Benito Mussolini. O jovem chegou a ser preso, dois anos e meio atrás, por agredir e roubar um garçom em Heliópolis. Acabou solto e estava entre os participantes do ato em defesa de Jair Bolsonaro. Esse caso deixa clara uma lição: contra os atos de ódio e intolerância promovidos por essa gente, o único remédio é a intolerância das autoridades e da Justiça.

A CRONOLOGIA DO ÓDIO

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(Foto: Reprodução)

2010

14 de novembro

Quatro menores e um rapaz de 19 anos espancaram o universitário Luis Alberto Betonio, de 23 anos, na Avenida Paulista, por volta das 6h do domingo. Imagens de câmeras de segurança mostraram que um dos menores golpeou a vítima com duas lâmpadas fluorescentes (foto acima). De acordo com a investigação da polícia, outras quatro pessoas foram surradas pelo grupo no mesmo fim de semana.

5 de dezembro

Câmeras de segurança registraram um ataque a dois jovens na Rua Frei Caneca. Seguidos por um homem branco, de casaco escuro e com um soco-inglês entre os dedos da mão esquerda, os rapazes foram golpeados várias vezes na cabeça e no corpo.

2011

25 de janeiro

Um estudante de 27 anos afirmou que ele e um amigo foram vítimas de um ataque homofóbico na Rua Peixoto Gomide, quase na esquina com a Rua Frei Caneca. Câmeras de segurança de um posto de gasolina próximo ao local mostraram um grupo de quatro pessoas andando em direção às vítimas.

26 de fevereiro

Com facas, tacos de beisebol e socos-ingleses, um grupo de skinheads invadiu uma festa do movimento anarco-punk realizada em um prédio na Rua das Carmelitas, na Sé, ferindo pelo menos quatro pessoas. Quatro agressores foram presos.

23 de março

Militante do movimento gay, o professor Guilherme Augusto Rodrigues acusou quatro rapazes de agredi-lo com motivação homofóbica na esquina das ruas Augusta e Peixoto Gomide.

16 de abril

Dois homens foram esfaqueados após uma briga nas proximidades do Terminal Jabaquara. Eles estavam a caminho de um show de rock na Virada Cultural. Preso em flagrante, o agressor, Rafaele Marquini Franco, de 25 anos, tem tatuagens com símbolos nazistas e portava uma faca, um canivete, um soco-inglês e um bastão de ferro.

Fonte: VEJA SÃO PAULO