Crônica

Não está certo

Por: Ivan Angelo

Crônica
(Foto: Veja São Paulo)

Desculpem se vou parecer um tanto moralista, mas, poxa,quanta coisa nós, cidadãos comuns, fazemos que não élegal, não pega bem. Nem é grande coisa, no geralzão da vidaé miudeza, pecado que os padres de antigamente chamavamde venial, não leva a gente para o inferno, no meio de tantoabsurdo que se vê por aí. É mais uma lista de desgostos doque outra coisa, rol de desagrados, de coisas que a gente vaivendo se repetir, e acaba computando como sinal de perda dealgo que prezávamos. De quê? Ah, se soubéssemos que perda é essa, geral e difusa, saberíamos o que fazer? Certeza é que muitos de nós não fazemos a coisa certa.

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Exemplos?

Gente sadia de corpo e ruim de cabeça que estaciona o carro na vaga de deficientes físicos.

Ou gente nova, não grávida, que para o carro na vaga dos idosos e das grávidas nos estacionamentos de shoppings e nas ruas.

Moradores de prédios de apartamentos que jogam objetos,cinzas e bitucas de cigarro nas áreas comuns do térreo.

Motoristas e passageiros, de automóveis e de ônibus, que atiram latinhas, restos de comida, sacos e copos de plástico pelas janelas, como se as ruas de todos nós fossem sua lixeira.

Espertos que, no trânsito, assim que ouvem uma sirene de ambulância ou de bombeiro, dão passagem, posicionando-se para entrar no vácuo e seguir deixando os outros para trás.

Responsáveis por prédios em construção que jogam fora, nas ruas, nas sarjetas, a água sugada do lençol freático, em vez de recolhê-la para uso nas obras, nestes tempos de seca,enquanto nas casas há quem poupe gotas.

Responsáveis por serviços públicos que estocam gêneros alimentícios ou medicamentos para escolas e hospitais e os deixam encantoados, sem uso, até se deteriorarem, imprópriospara consumo.

Gente que acha que só porque pagou a comida no restaurante pode desperdiçá-la; pais que não transmitem a regra básica aos filhos já crescidinhos: botou no prato, come — ensinava-se isso em sinal de respeito aos que não têm o que comer.

Pessoas de carro que buzinam contra os outros motoristas ou os pedestres na rua, mesmo sabendo que a ideia a respeito da buzina é ajudar as pessoas, protegê-las, alertá-las. Como é que pode um recurso útil ser tão desvirtuado?

Motoristas de ônibus e caminhões a diesel que deixam os carros ligados em marcha lenta nas rodoviárias, nas paradas das estradas ou nas ruas das cidades, poluindo o ambiente e desperdiçando combustível.

Pais que corrompem as crianças com presentes em excesso,sem passar-lhes a noção de merecimento. Estão compensando o quê? O não se dedicarem ao trabalho da paternidade? O não cumprirem com acerto sua missão educadora e amorosa?

Pessoas que saem de casa e deixam o cachorrinho solitário latindo, uivando, chorando durante horas, para pena e irritação dos vizinhos.

Atendentes nos prontos-socorros que tratam com indiferença burocrática pacientes que esperam com a urgência do sofrimento.

E o desperdício, Santo Deus, quanto desperdício, nas feiras livres, nos mercados, nos restaurantes! Nas casas!

Será que não poderíamos, com pequeno esforço de cada um, em todas as atividades, ser mais civilizados?

Fonte: VEJA SÃO PAULO