COMPORTAMENTO

Namoro nos colégios de São Paulo

Tradicionais ou de linha liberal, escolas permitem que seus alunos mantenham relacionamentos amorosos, desde que sem exageros

Por: Nana Caetano e Sandra Soares - Atualizado em

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Namoro nos colégios de São Paulo (Foto: VEJA São Paulo)

Flagrados no mês passado trocando beijos durante a aula de informática, Murillo Lopes, 15 anos, e Bárbara Almeida, 14, estudantes da 8ª série da unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco, foram chamados à sala da orientadora educacional. Reincidente, Murillo recebeu mais uma advertência verbal e a ameaça de ser suspenso por um dia caso repita o comportamento. Ele já havia sido filmado no ano passado por uma das trinta câmeras espalhadas pelos corredores da escola (com a própria Bárbara, que na ocasião não foi identificada pelo equipamento). "Não consigo parar de beijar", diz ele, com seu vulcão de hormônios em ebulição, típico da idade. "Agora serei obrigado a me segurar."

Quarenta anos atrás, até um pouco menos, cenas como essas seriam impensáveis. Por uma razão simples. Naquela época, muitas escolas paulistanas ainda eram destinadas exclusivamente a meninos ou meninas. Hoje elas são raridades – existem menos de dez com tal perfil na capital. Mesmo nos colégios mistos, havia regras de conduta rigorosas, e os adolescentes não podiam andar de mãos dadas, quanto mais se beijar. Em meados da década de 80, a situação começou a mudar. Agora a realidade é outra. "Com tantas imagens de sexo e romance na TV e na internet, não dá mais para as escolas simplesmente proibirem os jovens de exercer a sexualidade e a afetividade", diz a psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão. "Em vez de apenas impor restrições, é preciso discutir com eles as questões relativas ao tema."

De vinte colégios particulares procurados pela reportagem de Veja São Paulo, dezenove afirmam permitir o namoro em suas dependências, desde que respeitados os limites determinados pela direção. Em geral, abraços e beijos discretos são liberados, mas amassos estão terminantemente proibidos. Essa regra é a mesma tanto em colégios de linha disciplinar mais rígida, como o Porto Seguro, quanto nos de linha liberal, caso do Equipe. O que varia é a intensidade da fiscalização. No tradicional Dante Alighieri, catorze inspetores monitoram os 1 008 alunos do ensino médio na hora do recreio e da saída. Segundo os estudantes, a marcação é cerrada. "Uma vez, três vigilantes, posicionados em diferentes pontas, gritaram ao mesmo tempo quando dei um selinho no meu namorado", conta Luciana de Figueiredo, 17 anos, aluna do 3º ano.

Única escola a se declarar contrária ao namoro no ambiente de estudo, a Barifaldi, no bairro de Cerqueira César, traz em seu regimento interno a determinação de coibir "qualquer manifestação de intimidade entre os estudantes". Dezesseis câmeras monitoram corredores e seis bedéis desencorajam possíveis chamegos entre os 86 alunos do ensino médio. No primeiro flagra, ainda que seja um beijinho rápido, os pais são avisados. "A gente fica de olho em tudo", afirma a diretora Carolina Hirs. O máximo permitido aos três casais que estudam atualmente ali é andar de mãos dadas. Leandro Yunes Perim, 18 anos, do 3º ano, e Patrícia Yoshikawa, 16, do 1º, estão juntos há um mês e já sentem os efeitos da vigilância. "Se nos damos os braços, na mesma hora aparece alguém pedindo para manter distância", diz ele.

Entre os educadores, há o consenso de que o namoro no colégio é inevitável. "Proibir seria como não reconhecer que os tempos são outros", afirma a diretora-geral do Porto Seguro, Mariana Battaglia. "A escola precisa acompanhar as mudanças da sociedade, cada vez mais velozes." Nem por isso, o colégio relaxa no controle.

Na unidade Morumbi do Porto Seguro, os dezoito bedéis contam com o auxílio de câmeras para monitorar os 100 000 metros quadrados de área. Os estudantes, claro, sempre dão o seu jeitinho – como não existe mais o famoso bambuzal que ficava onde hoje funciona um estacionamento, alguns jovens passaram a namorar atrás do auditório e perto do campo de futebol. "A gente fica só de mãos dadas e evita beijar porque os auxiliares estão sempre por perto controlando", diz Juliana Altieri, 16 anos, que namora há três meses Phillip Hatt, 16. "Em vez de proibir, eu acho melhor saber que minha filha namora", afirma Fábio Vasconcelos, pai de Juliana. "Dou o maior apoio desde que as coisas sejam feitas com calma."

É fundamental a escola ter muito claros os próprios valores e os limites para o romance. "Os casais têm de saber se andar de mãos dadas é permitido, se selinhos são aceitos, se beijo de língua é proibido, e assim por diante", exemplifica Içami Tiba, psiquiatra especializado em adolescentes. "Caso contrário, o aluno vai desconhecer a regra social que está infringindo." Na Escola Suíço-Brasileira, os beijos exagerados nos arredores do portão levaram alguns pais a reclamar com a direção. Birgit Mobus, psicopedagoga do colégio, conta que houve um funcionário que deparou com uma cena constrangedora e não soube como agir. A escola aproveitou o momento crítico para contratar a assessoria da educadora sexual Glaury Coelho. Ela instruiu professores e funcionários sobre como abordar os alunos mais saidinhos. "Começamos por determinar o que pode e o que não pode", explica Glaury. "É importante que os parâmetros sejam conhecidos."

"Acho positivo que os alunos abandonem a prática, tão comum entre os jovens, de ficar cada hora com uma pessoa diferente, sem compromisso", diz a orientadora do Colégio Rio Branco, Leda Soares. Outro efeito benéfico dos relacionamentos seria a melhora das notas e do comportamento. "Quando namoram, os adolescentes reforçam sua auto-estima e, muitas vezes, encontram um companheiro para estudar", observa a diretora do Colégio Guilherme Dumont Villares, Eliana Aun. O aluno Renato Marangoni, 16 anos, passou a se dedicar mais aos livros de geografia encorajado pela namorada, Thaís Tolentino, 14, craque na matéria. Atualmente, ele tem média 7,5 na disciplina, 1 ponto a mais em relação a 2005. Laressa Ferreira e Marcelo Didier, ambos de 17 anos e alunos da mesma classe do 3º ano do Colégio Pio XII, são mais um bom exemplo de como o namoro entre colegas pode ser positivo. Integrante da Seleção Brasileira de Handebol Juvenil, Didier passa pelo menos dez dias por mês fora de São Paulo para treinar e participar de campeonatos. Enquanto está longe, Laressa prepara para ele agendas de provas e trabalhos, anotações de aulas e resumos. "Não sei como faria se ela não me ajudasse", admite Marcelo.

Abordar temas ligados à sexualidade e à afetividade na sala de aula é uma tendência nos colégios. Como a realidade contemporânea é que pai e mãe trabalhem cada vez mais, a escola vem atuando em questões que anteriormente eram de responsabilidade apenas da família. Os orientadores entendem que é preciso fazer um contraponto ao bombardeio de informações e apelos ao erotismo que chegam aos jovens pelos meios de comunicação. Investir em projetos de orientação sexual é uma sugestão que o Ministério da Educação faz às escolas desde 1997, quando foram publicados os últimos Parâmetros Curriculares Nacionais, conjunto de diretrizes e metas de qualidade para o ensino. Na Escola da Vila, o recente flagrante da modelo Daniella Cicarelli em momentos tórridos com o namorado numa praia da Espanha foi debatido pelos estudantes mais velhos. "A partir do episódio, reforçamos a discussão do que deve ser público e do que deve ser privado", diz Armando Tambelli, coordenador do ensino médio. "Aproveitamos para lembrar também que, quanto mais as pessoas expõem a vida pessoal, mais liberdade dão para que os outros se intrometam." A necessidade de autopreservação é um dos principais pontos abordados pelos educadores no diálogo com os jovens para justificar que eles peguem leve nas manifestações públicas de afeto. Natalia Sackiewicz, 17, aluna do 3º ano do ensino médio do Colégio Sion, sofreu na pele as interferências de professores, colegas e funcionários em seu namoro de um ano e oito meses com um colega. "A gente se beijava muito durante o intervalo, e por isso todo mundo sabia que namorávamos", conta ela. "Começaram a aparecer fofocas, e nós acabamos terminando há um mês."

Dados do Instituto Kaplan, ONG dedicada ao estudo da sexualidade, mostram que desde 1991 quase 80 000 adolescentes já buscaram ajuda no S.O.Sex, serviço de orientação sexual por telefone. "Das ligações que recebemos, 70% são feitas por meninos e meninas entre 10 e 18 anos", diz Maria Helena Vilela, presidente do instituto. São cerca de vinte atendimentos por dia. "Isso acontece porque os jovens ainda não se sentem totalmente à vontade para tratar o tema na escola." Há oito anos, a ONG mantém uma parceria com o Colégio Bandeirantes. Por meio do site da instituição, os alunos enviam cerca de sessenta e-mails a Maria Helena com dúvidas que vão de gravidez na adolescência a beijos. "É uma prova de que ainda faltam canais para que eles se informem."

Bedéis e câmeras para vigiar

Os estudantes Leandro Yunes Perim, 18 anos, e Patrícia Yoshikawa, 16, namoram há um mês. Rigorosa, a Escola Barifaldi, em Cerqueira César, proíbe qualquer manifestação pública de afeto. O casal já se acostumou com as intervenções de Antonio Costa, um dos seis bedéis que vigiam os 86 alunos. "Ele nos chamou a atenção só porque estávamos de braços dados", conta Leandro.

Muita fofoca, pouca privacidade

No mês passado, Natalia Sackiewicz, 17 anos, desmanchou o namoro de um ano e oito meses com um colega do Colégio Sion. Paquera, primeiros beijos e brigas foram acompanhados de perto por estudantes e funcionários. "Ficava sabendo até se ele fazia dupla com outra menina para um trabalho ou com quem tinha conversado durante a aula", diz. "A falação era insuportável."

No recreio, cada um para um lado

Maria Eduarda Rizek, 15 anos, e Vagner Jorge, 16, estudam na mesma classe, no 1º ano do ensino médio da Escola da Vila. O casal combinou não passar junto o intervalo nem fazer parte dos mesmos grupos de trabalho. "Isso de ficar o tempo todo grudado é muito cansativo", acredita Eduarda. "Eu jogo bola e ela conversa com as amigas", completa Vagner.

Aliança e notas mais altas

Juntos há seis meses, Renato Marangoni, 16 anos, e Thaís Tolentino, 14, já viram o efeito da convivência no boletim dele. Aluna da 8ª série do Colégio Guilherme Dumont Villares, ela ajuda o namorado, que cursa o 2º ano na mesma escola, a estudar geografia, matéria na qual é craque. A parceria parece que vai longe: a dupla até adotou uma aliança de compromisso.

"A gente não pode fazer nada"

Na unidade Morumbi do Porto Seguro, os dezoito bedéis contam com o auxílio de câmeras para controlar os 100 000 metros quadrados de área do colégio. "A gente não pode fazer nada que já vem um monitor separar", diz Phillip Hatt, 16 anos, que namora há três meses a colega de classe Juliana Altieri, também de 16.

Janela nada discreta

Sempre que estão juntos e se aproximam das janelas que dão para o pátio do Colégio Dante Alighieri, Gabriela Zaniboni, 17 anos, e Alexandre Rosenblatt, 18, são orientados pelos vigilantes a mudar de lugar. "Eles acham que aqui ficamos muito visíveis", conta ela, que, como o namorado, cursa o 3º ano do ensino médio. "A gente evita se beijar perto dos professores e dos alunos mais jovens."

Ele falta, ela repassa a matéria

Integrante da Seleção Brasileira de Handebol Juvenil, Marcelo Didier, 17 anos, passa pelo menos dez dias por mês fora de São Paulo para treinar e participar de campeonatos. A namorada, Laressa Ferreira, também de 17 e sua colega no 3º ano do Colégio Pio XII, faz uma espécie de resumão para ele. "Organizo uma agenda de provas, copio matérias e estudamos juntos", diz ela.

Quando é bom...

• As notas sobem porque o casal fica mais motivado a ir ao colégio e estuda junto para as provas

• As turmas de amigos de cada um são mantidas

• Os pais sabem do relacionamento e o aprovam

• A auto-estima dos dois fica elevada

...e quando atrapalha

• O casal fica grudado em todos os intervalos e, quando é da mesma sala, vira dupla exclusiva para trabalhos e provas

• O pátio (e às vezes até a sala de aula) se torna cenário de beijos longos e carícias, podendo deixar os funcionários e colegas constrangidos

• Brigas e términos acontecem nos corredores e viram assunto público

• Cai o desempenho escolar

Fonte: VEJA SÃO PAULO