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"Destruído o trabalho de uma equipe gigantesca", diz Bia Lessa

Cenógrafa dá depoimento sensível sobre história do Museu da Língua Portuguesa, consumido pelas chamas na segunda (21)

Por: Veja São Paulo - Atualizado em

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Em 21 de março de 2006, a exposição Grande Sertão: Veredas inaugurou a ala de exposições temporárias do Museu da Língua Portuguesa, destruído pelas chamadas na tarde desta segunda-feira (21).

A mostra se propunha a traduzir a obra-prima de Guimarães Rosa para uma linguagem interativa. Com resultado espetacular e de grande apelo popular, teve concepção geral e direção pelas mãos da arquiteta, cenógrafa e diretora teatral Bia Lessa. Abaixo, a convite de VEJA SÃO PAULO, ela dá seu depoimento sobre o dia em que o museu foi consumido pelas chamas.

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Lutei muito para que o Museu da Língua Portuguesa tivesse em seu título “museu”. Muitas eram as ideias, ótimas todas, mas eu achava que era fundamental carregar no nome daquele trabalho tão inusitado e ousado o título de museu. Uma nova referência, onde a obra apresentada para o público não era um quadro de um grande pintor, uma escultura, um objeto que merecesse ser visto por todos – os objetos ali expostos eram abstraídos, tinham um movimento constante e carregavam dentro de si uma infinidade de movimentos culturais, históricos, etc - a língua portuguesa através de sua construção, de sua genealogia, através dos sotaques variados e da beleza e complexidade de suas infinitas formas.

Na segunda-feira, no meu primeiro dia de férias, sou surpreendida por essa notícia impactante. Destruído todo o museu, destruído o trabalho de uma equipe gigantesca, destruído um dos museus mais emblemáticos da nova leva de museus construídos nos últimos anos no Brasil. Podia se ver a potência das chamas a lamber os diferentes espaços do museu e se encaminhar para a Estação da Luz., referência da história da cidade, espaço por onde são transportados grande parte da população da capital. Um lugar especialmente rico pela diversidade de pessoas que circulam diariamente, a caminho da casa, do trabalho, do lazer. Nos meses dedicados à finalização do Museu da Língua Portuguesa, eu me encantava com aquele ambiente, e me encanta mais ainda com a escolha do Museu da Língua Portuguesa, dentro de uma estação de trem – um lugar onde os sotaques estão em permanente diálogo, onde as gerações se encontram, onde São Paulo reflete todo o país. Por essa razão a escolha da Estação da Luz para sediar o museu guardião da língua portuguesa, me parecia extraordinária. O prédio, sua importância para marcar toda aquela região, com seu relógio que contava o tempo das lojas, das pensões, dos botequins e restaurantes, das prostitutas, dos homens de negócio, dos estudantes – todos ali abraçados por aquela edificação. Esse amor pelo construção do museu se concretizou quando decidi que usaria os tijolos, as tábuas, os pregos, a terra para através deles apresentar a obra de Guimarães Rosa. Hoje esses tijolos, essas tábuas viraram cinzas.

Fogo é também luz: Estação da luz. O que terá significado tudo isso? Minha tristeza é enorme... Luz e cinzas

Bialessa
A cenógrafa Bia Lessa (Foto: Maurício Melo/Contigo)

Fonte: VEJA SÃO PAULO