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Ruth Tarasantchi garimpa peças para o acervo do Museu Judaico

Historiadora é responsável pelo acervo da instituição localizada no centro, com previsão de abertura em 2016

Por: Carolina Giovanelli - Atualizado em

Ruth Tarasantchi Museu Judaico
A especialista: mais de 2 500 artigos reunidos (Foto: Mario Rodrigues)

A historiadora Ruth Tarasantchi manuseia cuidadosamente uma pequena boneca, com as pernas molengas e o rosto quebrado, remendado com um pedaço de chiclete. Ainda criança, ganhou a peça de sua mãe, quase como um prêmio de consolação, quando estava prestes a enfrentar um período turbulento. Judia, acabara de fugir de seu país de origem, a antiga Iugoslávia, por causa da II Guerra Mundial, deixando para trás uma rotina confortável. Foi parar na Itália, onde acabou confinada, primeiramente em um vilarejo e depois em um campo de concentração chamado Ferramonti. Após ser libertada por oficiais ingleses, em 1943, transitou ainda por alguns anos entre a Sicília e Roma.

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Em 1947, com 13 anos, ao desembarcar em São Paulo, cidade onde seu pai, médico, resolvera montar nova vida e abrir um laboratório de produtos químicos, a menina ainda levava consigo o brinquedo. Hoje, aos 81 anos, continua guardando esse tesouro de infância. Para ela, a memória de uma família é coisa seriíssima. Tanto que dedicou a vida a preservar as lembranças não só de sua trajetória marcada por reviravoltas como da de outras pessoas.

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A boneca (com suas roupinhas costuradas a mão) faz parte do acervo de mais de 2 500 itens do Museu Judaico, no centro, com inauguração prevista para o segundo semestre do próximo ano. Há uma década, Ruth é responsável por garimpar as relíquias com o intuito de contar e preservar a história da comunidade judaica mundial e, principalmente, paulistana. “O que importa nem sempre é o objeto em si, mas as recordações que carrega”, acredita. 

Com orçamento estimado em 27 milhões de reais, o centro de exposição de quatro andares, que será o principal do gênero no país, já tem boa parte de sua estrutura erguida. Na esteira da construção, a sinagoga anexa, batizada de Templo Beth-el e fundada em 1928, foi totalmente restaurada. Casamentos, celebrações de bar-mitzvá (ritual de passagem de um garoto à fase adulta) e brit milá (cerimônia de circuncisão) de famílias poderosas aconteceram ali. A Associação dos Amigos do Museu Judaico no Estado de São Paulo (AMJSP) ainda está em busca de recursos para finalizar o projeto.

Na terça (18), promoveu um jantar na Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, no Jardim Europa, a fim de arrecadar fundos. O evento contou com a presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex-ministro Celso Lafer, do conselho da entidade, composto também de gente como o político Alberto Goldman, o oftalmologista Claudio Luiz Lottenberg e o empresário Daniel Feffer. “Queremos auxílio também fora da comunidade judaica; afinal, trata-se de uma causa de todos”, explica Sergio Simon, presidente do museu e oncologista do Hospital Albert Einstein.

Museu Judaico
O projeto do museu: investimento previsto de 27 milhões de reais (Foto: Divulgação)

Nem só os oferecimentos financeiros são bem-vindos. Doações de objetos significativos também importam (e muito). É aí que entra o trabalho dedicado de dona Ruth. Cheia de energia, ela reuniu fotos, documentos, roupas, livros de reza, quadros, objetos para as festas sagradas e muitos outros itens. Há artefatos de diversos países, principalmente da Alemanha, da Polônia e da Turquia, e de várias épocas (alguns remontam ao século XVI). Por indicação, ela vai à casa de membros da comunidade em busca dos tesouros, em média, uma vez por semana. Passa tardes ouvindo histórias e observando tudo com olhar atento. “Muitas vezes, as pessoas possuem coisas incríveis e nem sabem, ou mesmo não têm interesse em guarda-las”, afirma. “Aí, logo vou dizendo: ‘Eu quero!’.”

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Ruth já chegou a encontrar álbuns de retratos e outros artigos expressivos no lixo. Ela cruza pelo caminho com muitos desavisados. Uma família lhe ofereceu uma vasilha enfeitada, pois a achava bonita. Ao catalogar a louça, Ruth viu que apareciam pequenas suásticas em meio às flores estampadas. Ninguém nunca havia percebido tal afronta à mesa de jantar. Existem ainda pessoas que pensam guardar relíquias importantes, mas elas têm, na verdade, pouco valor. Nesse caso, Ruth arma seu sorriso largo e declina gentilmente as doações, explicando isso com seu leve porém persistente sotaque. Até porque o espaço se mostra limitado. Os artefatos ficam armazenados, por enquanto, em um escritório nos Jardins.

Ruth Tarasantchi Museu Judaico Boneca
Boneca e roupinhas: brinquedo acompanhou a artista durante a guerra (Foto: Mario Rodrigues)

Com uma memória invejável, Ruth é capaz de lembrar detalhes de muitas das coisas amealhadas em uma década de trabalho. Em fevereiro, morreu, aos 92 anos, o ativista comunitário judaico Fiszel Czeresnia. Nascido na Polônia, ele chegou a São Paulo em 1934, com 11 anos. Coube à historiadora avaliar as dezenas de preciosidades doadas ao novo museu pelos descendentes, entre elas há uma coleção de dez gravuras do renomado pintor israelense Reuven Rubin. “Estamos considerando dar mais coisas, mas existem alguns itens de muito valor afetivo, seria difícil nos desfazermos deles”, diz Tamara, uma das filhas de Czeresnia.

Ruth Tarasantchi Museu Judaico
Acervo variado: com uma 'Torá' do século XIX (Foto: Mario Rodrigues)

Na relação de doadores constam vários clãs tradicionais dessa comunidade religiosa na capital. Fundador da empresa Tecnisa, do mercado imobiliário, Meyer Nigri cedeu uma das peças mais nobres do acervo — uma Torá, ou melhor, meia Torá, o livro sagrado dos judeus. Ela está incompleta, e Ruth ainda busca um texto integral. Vindo do Marrocos e datado de aproximadamente 1870, o artefato de 12 metros de comprimento é feito de couro e escrito a mão. Um amigo de Nigri o encontrou para venda em um antiquário em Barcelona.

Em breve, o acervo de Ruth deve receber contribuições da família de Samuel Klein (19232014), fundador das Casas Bahia. “Estamos avaliando quais objetos poderemos ceder”, conta Natalie Klein, empresária e neta de Samuel. “Meu avô foi perseguido pelos nazistas e passou por dois campos de concentração. Quando veio para o Brasil, tinha poucas coisas. Então o grande exemplo é a inspiradora história dele.” A maioria dos objetos que chegam a dona Ruth, entretanto, vem de sobrenomes menos conhecidos da sociedade.

Ruth Tarasantchi Museu Judaico
Ruth, em meio a dois colegas de classe do colégio interno, quando sua família vivia confinada em um vilarejo na Itália: juventude conturbada (Foto: Mario Rodrigues)

Outro destaque da miscelânea é um diário com relatos de perseguição escritos pela alemã Lori Dublon, aos 14 anos. A menina vivia na Bélgica e foi levada a Auschwitz, a mais conhecida rede de campos de concentração da época da II Guerra. Em seu caderno, Lori guardava bilhetes dos filmes a que havia assistido no cinema e falava de coisas comuns de seu dia a dia, incluindo as paqueras de adolescência. A história se assemelha muito à de Anne Frank, a célebre judia que deixou registrado em seu diário os anos em que ela e sua família viveram em cômodos escondidos dentro de um prédio comercial em Amsterdã, na Holanda. Curiosamente, os cadernos usados por Lori e Anne Frank são do mesmo modelo. Logo após a chegada dos nazistas à Bélgica, um tio de Lori voltou para tentar salvar a família Dublon, mas todos já haviam sido presos. Encontrou o livro, que passou para seu sobrinho e que veio parar agora na coleção do museu paulistano.

Fernando Henrique Cardoso e Celso Lafer Museu Judaico
Celso Lafer e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na última terça (18): jantar com o objetivo de arrecadar fundos para o projeto (Foto: Eliana Rodrigues)

O antissemitismo era um sentimento presente na São Paulo da primeira metade do século XX, conforme mostra um conjunto de cartas reunido para o museu da capital. As missivas contêm ameaças a Mauricio Blaustein, um judeu morador da Alameda Itu. Ele escreveu um texto a favor da comunidade em um jornal da cidade e passou a receber notas intimidativas. Em um dos documentos, de 1945, lê-se o seguinte: “Os pró-názis prometem a ti morte a tiro”. Em outro trecho dele, mais uma ameaça pesada: “Se morreram 6 milhões, morre mais um judeu”.

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Quando algo produzido em papel chega em mau estado ao acervo, Ruth restaura o item em uma oficina improvisada em seu apartamento, no Paraíso. Após passagem pelo Colégio de Santa Inês e Bandeirantes, ela cursou por três anos uma faculdade de medicina, época em que conheceu seu marido, o médico romeno Jacob Tarasantchi, falecido há dezoito anos, com quem teve dois filhos. Acabou desistindo da formação em saúde e enveredou pelo campo da arte. Assim, aprendeu as técnicas de restauro. Formou-se na Escola de Belas Artes e tem mestrado e doutorado em história da arte pela USP. Especializou-se na pintura paulista do século XIX, assunto que lhe rendeu a autoria de diversos livros sobre o assunto.

Gravura Ruth Tarasantchi Museu Judaico
Gravura: na obra, ela retrata a vida no campo de concentração (Foto: Mario Rodrigues)

As paredes de sua casa são repletas de obras de pintores, a exemplo de Pedro Alexandrino. Entre outras atividades, já fez parte do conselho da Pinacoteca. Ela mesma virou artista: produz gravuras, muitas com lembranças de sua infância e juventude. Em uma das peças, retrata o roubo de um repolho. Na época do campo de concentração, comia pouco e mal. Ao ouvir a mãe reclamar da saudade de saborear verduras frescas, esgueirou-se até a plantação de repolho dos chineses capturados de uma embarcação, que dividiam espaço com os judeus, e furtou o alimento. Trouxe-o para o barraco onde viviam também seu pai e sua irmã, mas demorou pouco para que um dos donos da comida batesse à porta a fim de reclamar do rapto.

Ruth Tarasantchi Museu Judaico
Ruth: vida repleta de reviravoltas (Foto: Fernando Moraes)

A despeito das privações e dos problemas, todos os integrantes da família sobreviveram à prisão. Havia na época lugares muito piores para os judeus, mas isso não significa que a experiência não tenha deixado marcas. “Minha mãe, que morreu em 1999, bloqueou essas memórias”, conta Ruth. O Museu Judaico de São Paulo contará com um setor dedicado ao Holocausto. “Há bastante coisa para ser contada sobre como viveram e vivem os judeus, e não apenas sobre como morreram”, diz Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israeli ta do Brasil (Conib). Com um misto de estrutura tradicional, representada pela sinagoga de Samuel Roder, e uma nova área, com vista para a Avenida 9 de Julho, pensada pelo escritório Botti Rubin Arquitetos, o local segue o modelo de outros espaços do gênero ao redor do mundo, como o de Nova York, instalado na mansão de um filantropo judeu. Os visitantes aproveitarão ainda um café, uma loja de suvenires e uma biblioteca.

A reunião de memórias ajuda a contar a história desse povo que emigrou mais fortemente para São Paulo nos anos 1910. O intenso crescimento urbano e econômico da cidade atraiu imigrantes, em sua maior parte, da Europa Oriental e, mais tarde, de países como Líbano e Síria. Com a eclosão da II Guerra Mundial, o fluxo de estrangeiros se intensificou. Nos anos 40, havia cerca de 20 000 judeus por aqui. A porta de entrada era o Porto de Santos, de onde eles partiam de trem para o Brás. Depois, instalavam-se principalmente no Bom Retiro e na Mooca. Os trabalhos mais comuns eram de mascate, comerciante e pequeno industrial. Muitos daqueles que prosperaram se mudaram, nas décadas seguintes, para Higienópolis, antigo reduto dos barões do café. O local se tornou um bairro emergente e ganhou sinagogas e comércios kosher. O grupo deixou marcas importantes, a exemplo do Hospital Israelita Albert Einstein e do clube A Hebraica.

Ruth Tarasantchi Museu Judaico
Ruth: com o Templo Beth-el ao fundo (Foto: Fernando Moraes)

Hoje, calcula-se que haja cerca de 120 000 judeus no Brasil, e metade deles mora na cidade. A trajetória de dona Ruth é similar à dos milhares de pessoas da mesma religião que desembarcaram no passado na capital. Em 2013 e 2014, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e o Memorial da América Latina receberam uma exposição sobre sua vida. A mostra passou depois pela Itália. A historiadora está escrevendo suas memórias, ainda sem previsão de término. “Quero que meus filhos, netos e outras pessoas saibam pelo que eu passei”, afirma. “Essa história não é só minha.” A especialista doou mais de 100 peças pessoais ao acervo do novo museu. Mas até agora não conseguiu se desfazer de um item: uma mala de vime marrom, usada para fugir da Iugoslávia. Dentro dela, além de algumas roupas, carregava a boneca que havia ganhado de presente da mãe.

*Com reportagem de Sophia Braun

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    Jun Sakamoto, titular de um dos melhores balcões de sushi da cidade, é um dos sócios desta dupla de casas grandalhonas. Cabe ao cliente escolher os ingredientes que vão compor o sanduíche, do hambúrguer, que pode ser um disco de carne de 200 ou 350 gramas (R$ 27,50 e R$ 33,00, respectivamente), a complementos como queijo suíço (R$ 3,50). Algumas sugestões já vêm prontinhas, como o super burger, em crosta de pimenta- do-reino e acrescido de gorgonzola (R$ 35,50). A batata spice (R$ 15,00), temperada com páprica e pimenta-de-caiena, vai bem ao lado de qualquer pedida.

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Organizada pela Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer), a série Aprendiz de Maestro se dedica a oferecer concertos especiais para as crianças com o objetivo de iniciá-las no universo da música erudita. O episódio inédito que será apresentado no sábado (29/8), na Sala São Paulo, se baseia na ópera O Elixir do Amor, composta pelo italiano Gaetano Donizetti. O espetáculo narra a história de um camponês atrapalhado que se apaixona pela garota mais popular do pedaço e decide conquistá- la, nem que tenha de apelar para uma fórmula para despertar seu interesse. A Sinfonieta Tucca Fortíssima será regida novamente pelo maestro João Maurício Galindo. Participam a atriz Tânia Casttello, o tenor Jean Willian, os barítonos Johnny França e Pedro Ometto e a soprano Roseane Soares. O texto e a direção artística são de Paulo Rogério Lopes.  Dia 29/8/2015.
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  • Não há nada mais desesperador do que abrir um armário e dar de cara com traças e cupins acabando com tudo. Quando isso aconteceu na casa de Rodrigo Bueno, em vez de contratar um especialista em dedetização para resolver o problema, ele decidiu transformar alguns volumes de sua biblioteca tomada por pragas em obras de arte. O negócio deu origem a uma linha de trabalho com resultados estéticos surpreendentes. Na mostra Rebento, Bueno, um paulista nascido em Campinas, apresenta quinze itens que ocupam o 2º andar e o terraço do edifício. Uma das peças que mais chamam a atenção é a reprodução de uma Mona Lisa totalmente desgastada e coberta por carvalhos e flores secas. Vale observar ainda a foto de uma natureza-morta que ganha alto-relevo com o acréscimo de conchas e sementes. Outros elementos rejeitados se tornaram matérias-primas nas mãos de Bueno, que costuma recolher resíduos como madeira, porcelana e objetos de decoração em seus passeios pela cidade para criar os trabalhos. A exposição merece ser vista sobretudo pelo olhar inusitado do artista, em sua busca de harmonia entre a arte e os materiais da natureza. Durante o período no qual a montagem ficará em cartaz, as obras continuarão a sofrer intervenções. Até 26/9/2015.
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  • Muito conhecido por filmes como Morangos Silvestres e O Sétimo Selo, o cineasta sueco Ingmar Bergman também fez carreira no teatro. Está em cartaz na cidade uma versão de uma de suas últimas obras como dramaturgo, Depois do Ensaio, de 1984. Na trama, dirigida por Mônica Guimarães, Leopoldo Pacheco é Henrik Vogler, diretor experiente envolvido com os ensaios da peça O Sonho, de August Strindberg. Protagonista da montagem, a jovem Anna (interpretada por Sophia Reis, filha do cantor Nando Reis) engata certa tarde uma conversa casual com o encenador no teatro vazio, após os ensaios. O bate-papo, entretanto, se transforma em uma série de revelações. Em uma espécie de devaneio, entra em cena Raquel (Malu Bierrenbach), a mãe de Anna, que, no passado, deu vida ao papel da filha. Ex-amante de Vogler, Raquel desanda a retomar as amarguras do passado. Em um paralelo com a carreira no teatro, ambas as personagens têm a mania de atuar também fora de cena. Os três atores dominam o texto e exibem boa presença de palco. Estreou um 15/8/2015. Até 27/9/2015.
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  • Comédia dramática

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    Helena Ranaldi, Juan Alba, Daíse Amaral e Clóvis Torres interpretam os três contos da comédia dramática Amores Urbanos. De Marcelo Rubens Paiva, Reconfigurar fala de um casal antenado tecnologicamente, mas cuja vida sexual se mostra morna, e de um par com objetivos diferentes para o futuro. Jardim de Infância, com texto de Torres e direção de Clarisse Abujamra, trata da relação entre dois irmãos que se comunicam há anos com a mãe apenas pelas redes sociais. Quatro pessoas que acreditam se ver livres de problemas amorosos formam a trama de Grupo de Apoio para Pessoas Sentimentalmente Muito Bem Resolvidas, de Mário Bortolotto. O assunto amoroso, também ligado ao uso das redes sociais, tem apelo, mas nenhuma das cenas possui impacto suficiente para prender totalmente a atenção da plateia. Estreou em 7/8/2015. Até 1º/11/2015.
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  • Na fértil cena musical portuguesa da atualidade, Paulo Furtado, de 45 anos, tem se destacado. Nascido em Moçambique, mudou-se para Coimbra ainda na infância. O início da carreira ocorreu na década de 90 ao lado da cultuada banda de blues Tédio Boys. Mais tarde, ingressou no grupo Wraygunn, do qual ainda faz parte. Em 2002 veio o primeiro disco-solo, The Naked Blues, lançado no formato “banda de um homem só” sob a alcunha de The Legendary Tigerman. Fazendo um som parecido com o psychobilly do The Cramps e cantando letras em inglês capazes de identificá-lo muito mais com o Delta do Mississippi do que com as margens do Tejo, Furtado soltou outros cinco trabalhos. Em Femina (2009), cuja capa evoca a do controverso Love on the Beat (1984), de Serge Gainsbourg, fez parcerias com Maria de Medeiros, Rita Redshoes e a brasileira Cibelle, e pulou para o mainstream do sul europeu, sendo atração frequente de festivais da região. Pela terceira vez por aqui, ele sobe ao palco sozinho para mostrar as faixas do álbum True (2014), o mais recente trabalho. O baterista Paulo Segadães participa em algumas canções. Dia 29/8/2015.
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  • Aviso aos navegantes: embora contenha trechos do best-seller de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe vai além do romance. E talvez seu deslize esteja, justamente, na pretensão de ter uma história maior. Produção francesa dirigida pelo americano Mark Osborne (do primeiro Kung Fu Panda), a animação, com uma beleza tão arrebatadora quanto poética, é um primor esteticamente. Enquanto os tempos modernos ganharam técnica em 3D, a trajetória do personagem do livro foi feita em stop motion (quadro a quadro). A trama começa divertida focando uma menina treinada pela mãe para ingressar numa prestigiada escola. Como ela não passa no teste, as duas se mudam para um condomínio e, durante as férias de verão, a garota será obrigada a estudar muito e seguir regras severas. Seu metódico cotidiano, contudo, sofre uma reviravolta quando ela conhece o vizinho da casa ao lado. O idoso mora sozinho e tenta convencer a criança a ser sua amiga. Ela resiste, mas, aos poucos, se interessa pela história contada pelo velho. Nela, seu novo companheiro relembra a vida de aviador e como conheceu, no deserto, o pequeno príncipe, habitante único de um planeta um pouco maior do que ele. No vaivém dos dois contos, o enredo principal (a inusitada amizade dos protagonistas) perde o fôlego. Para o público infantil, o desenho tem ingenuidade e pureza para satisfazer os menorzinhos, embora a duração seja longa e o ritmo, às vezes, lento. Adultos também podem curtir, caso ainda tenham uma criança chorona dentro de si. Estreou em 20/8/2015.
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  • Indicado por Israel para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano, O Julgamento de Viviane Amsalem merecia estar entre os finalistas. Trata-se de um contundente, imprescindível e sufocante trabalho dos irmãos Ronit e Shlomi Elkabetz. A dupla toca numa ferida de seu país por meio de um drama de tribunal singular. Praticamente todo ambientado entre as quatro paredes de uma sala, o filme tem tensão permanente e, em seu desenrolar, pede a cumplicidade do espectador (algo parecido foi feito no fabuloso A Separação). A trama traz à tona a tortuosa trajetória de Viviane Amsalem (papel da diretora), que, há três anos, tenta conseguir que o marido (Simon Abkarian) concorde com o divórcio. Como ele se recusa terminantemente a atender ao pedido, Viviane, mãe de quatro filhos e casada há trinta anos, tem seu caso levado a um tribunal de rabinos ortodoxos. Eles vão ouvir ambas as partes, testemunhas e dar o veredicto. A partir daí, a protagonista encara longas idas e vindas kafkianas através dos anos, sempre acompanhada de seu fiel e persistente advogado (o ótimo Menashe Noy). De um pequeno fato doméstico, o longa-metragem expõe uma situação recorrente de uma sociedade patriarcal e machista. Estreou em 20/8/2015.
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  • Quando recebeu o diagnóstico de tuberculose, na década de 60, o militar José Hermógenes de Andrade Filho descobriu os benefícios da ioga. Virou um ferrenho praticante, foi várias vezes à Índia e escreveu trinta livros sobre terapia holística e bem - estar. O documentário Hermógenes, Professor e Poeta do Yoga cumpre bem o papel de apresentar o trabalho daquele que é considerado um pioneiro no Brasil. Há imagens de arquivo, algumas dos anos 70, depoimentos de seus discípulos, parentes e personalidades como o músico Marcelo Yuka e o ator Jackson Antunes. Embora o formato seja quadradão (uma espécie de Globo Repórter com mais apuro de pesquisa e profundidade), o filme consegue falar a um público maior do que o segmentado. É difícil não encontrar um caminho nas palavras de Hermógenes (1921-2015), cuja filosofa de vida era o mantra “entrego, confio, aceito e agradeço”. Estreou em 20/8/2015.
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  • Uma das mais queridas estrelas da TV, Glória Pires já mandou muito também no cinema em trabalhos dramáticos, como Flores Raras, e comédias, a exemplo de Se Eu Fosse Você. Sua volta ao humor se dá em Linda de Morrer, cuja premissa é atraente. Na pele da dermatologista Paula, a atriz inventa um remédio capaz de acabar com a celulite. A médica não tem tempo para nada. Trata-se de uma egocêntrica que mal conversa com a filha, Alice (Antonia Moraes), e só pensa na carreira e no sucesso de vendas do medicamento. No dia do lançamento do Milagra, porém, Paula morre em decorrência dos efeitos colaterais. No além, encontra com uma mãe de santo (Susana Vieira) e, por meio dela, chega até Daniel (Emilio Dantas). Embora seja psicólogo, o rapaz possui o dom da mediunidade e pode ajudar Paula a ter contato com a herdeira. Seguem-se, então, as brincadeiras de gosto duvidoso com o espiritismo, a entrada de um vilão estereotipado (o sócio de Paula, papel de Angelo Paes Leme) e, claro, os momentos de redenção e reconciliações. A fórmula vem pronta para que a plateia caia na risada — isso no caso de alguém (ainda) achar graça em um homem fazer trejeitos femininos por estar “tomado” por uma mulher. A produção pobrinha, incluindo aí os modelitos de Glória e os efeitos visuais, conta pontos para derrubar do cavalo a grande intérprete. Estreou em 20/8/2015.
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  • Teve boa (e merecida) recepção no Festival de Gramado o drama O Último Cine Drive - In. Ele saiu da competição com os prêmios de melhor ator (Breno Nina), atriz coadjuvante (Fernanda Rocha), direção de arte, além do troféu da crítica. Trata-se de um trabalho singelo, sem afetações e bem conduzido, entre o humor e a emoção, pelo diretor Iberê Carvalho, estreante em longas-metragens. O Cine Drive-In, um cinema ao ar livre para assistir à fita de dentro do carro, agoniza em Brasília. Após décadas de sucesso, hoje sobrevive de escassos clientes. O expressivo Breno Nina interpreta o jovem Marlombrando, que leva sua mãe (Rita Assemany) para fazer uns exames num hospital público da capital federal. Durante a internação dela, o rapaz decide reencontrar seu pai, o dono do cinema. O relacionamento deles nunca foi bom, e a estada do filho vai reacender antigas rusgas. Há outros poucos personagens, como o bilheteiro (Chico Santanna), a projecionista (Fernanda Rocha) e um enfermeiro (André Deca). Embora de desfecho previsível, o longa-metragem, ao contrário da maioria dos trabalhos independentes nacionais, sabe dialogar com o público. Seu roteiro, além dos comoventes conflitos familiares, faz uma bela homenagem ao cinema — não à toa, surge um pôster do emblemático Cinema Paradiso em uma das cenas. Estreou em 20/8/2015.
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  • O tempo passa, novos temas surgem, mas o cinema ainda insiste em querer inovar em algo que O Exorcista já mostrou há 42 anos. Na pretensão de assustar as plateias, Exorcistas do Vaticano é uma cópia esquálida do filme de terror estrelado por Linda Blair. Agora, Olivia Taylor Dudley assume o posto de Angela, a jovem possuída pelo demônio. Tudo começa com um corte em seu dedo e, em seguida, um acidente de carro. Ao sair do coma, Angela muda de comportamento, para espanto do namorado (John Patrick Amedori) e do pai (Dougray Scott). Um padre observador (Michael Peña) sugere, lá pelas tantas, um exorcismo. O diretor Mark Neveldine estreou bem no cinema com o violento (e politicamente incorreto) Adrenalina (2006) e derrapou na curva em Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (2011). Na base do mais do mesmo, comanda seu novo trabalho como um burocrata. Estreou em 20/8/2015.
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  • O seriado Entourage durou oito temporadas, de 2004 a 2011. Tardiamente, chega aos cinemas uma versão em longa metragem com os mesmos personagens. Não é preciso, porém, ter visto a série para embarcar na trama de Entourage — Fama e Amizade, uma sátira rasgada aos bastidores do cinema. Há um rápido prólogo para explicar quem são os protagonistas. Vince (Adrian Grenier), bonito canastrão, tem grandes sucessos de bilheteria. À sua volta orbitam os amigos Turtle (Jerry Ferrara) e Eric (Kevin Connolly), além do irmão (Kevin Dillon), um ator igualmente medíocre. O astro vive rodeado de mulheres e tem a meta de crescer na carreira. Sua próxima empreitada será estrelar e dirigir uma versão modernosa de O Médico e o Monstro. Antes empresário dele, Ari Gold (Jeremy Piven) virou mandachuva do estúdio que está bancando a produção e, para seu desespero, precisa descolar mais grana para a finalização. Isso o leva a um ricaço (Billy Bob Thornton) cujo filho (papel de Haley Joel Osment) terá o poder de decisão. Sexista, o roteiro faz troça com gays e deixa aforar o lado hedonista de Vince. Se enxergou aí um humor politicamente incorreto, você tem ao menos um motivo para pegar uma sessão. Estreou em 20/8/2015.
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  • Olhares

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Fonte: VEJA SÃO PAULO