Bebida

Mulheres invadem o universo das cervejas especiais

Até então considerado um reduto masculino, o mundo das cervejas agora também pertence à elas

Por: Adriana Marmo - Atualizado em

Mulheres cervejeiras
Mulherada ganha espaço no meio cervejeiro (Foto: Murillo Constantino)

Enquanto milhares de noivas escolhem o palco para o casamento dos sonhos pela religião, arquitetura ou história do local, a analista de marketing Michelle Rosa decidiu o seu por um motivo bastante peculiar: a proximidade da Igreja da Cruz Torta com a sede da Cervejaria Nacional, no Alto de Pinheiros. Depois da cerimônia, em novembro, os convidados só precisaram andar alguns quarteirões para curtir a festa, que contou com um cardápio que incluía brigadeiros feitos com cerveja pilsen e bolo com receita à base da irlandesa Guinness.

As tradicionais poses para as fotos do álbum de matrimônio se estenderam aos tanques de fermentação da casa e o brinde foi feito, é claro, com uma loira (de procedência belga, no caso). “Amo essa bebida e, quando experimento uma opção nova, sempre fico pensando nas sensações que ela me provoca”, diz Michelle. De tão apaixonada pelo assunto, ela criou há dois anos o blog mulheresecerveja.com para registrar suas impressões após as rodadas de degustação do produto. Essa história de Michelle é um bom exemplo de um novo fenômeno de comportamento na cidade: a bebida ganha cada vez mais espaço no universo feminino. Um dos fatores que estão ajudando a aumentar o consumo delas é a proliferação no nosso mercado dos rótulos premium, via importação ou produção artesanal de pequenas companhias.

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Michelle fez sua festa de casamento numa cervejaria (Foto: Arquivo pessoal)

A mudança já é bem perceptível nas mesas de vários endereços da capital. Paulo Almeida, dono do Empório Alto dos Pinheiros, uma espécie de “Disneylândia etílica” com seu mix de bar e loja especializada, conta que o número de mesas formadas apenas por meninas tem se tornado cada vez maior. “São consumidoras de qualidade”, define ele. “Chegam bastante decididas e falam de suas marcas prediletas com muita propriedade.” Túlio Rodrigues, coordenador do curso de marketing e negócios da cerveja da Fundação Getulio Vargas, é um entusiasta do fim do “clube do Bolinha” nesse mundo. Para ele, as mulheres possuem um sexto sentido ao degustar a bebida. “Elas conseguem captar detalhes que passam batido pelos homens”, acredita. As mulheres estão também virando mestres-cervejeiras e especialistas de respeito. Na Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP), o número de alunas nos cursos registrou um aumento de 24% nos últimos anos. “Na turma que está em andamento agora, elas representam 30% do total de setenta estudantes”, diz o coordenador Estácio Rodrigues.

Quando estão segurando o copo, as consumidoras se comportam de forma muito distinta da média masculina.  Garotas barrigudas entornando no bico da garrafa em frente à TV, nem pensar. “A mulher é mais elegante e menos agressiva no consumo. Bebe menos e melhor”, afirma Cilene Saorin, sommelière, mestre-cervejeira e diretora de educação no Brasil da escola Doemens, da Alemanha, uma das melhores do mundo no ramo. “Elas buscam qualidade e não quantidade.” Tampouco tem razão quem imagina que as moças gostam de opções doces ou rótulos cor-derosa. “Elas podem até começar com as refrescantes e suaves, mas em pouco tempo buscam as mais encorpadas”, diz Cilene.

A nova paixão feminina vem estimulando a criação de pequenas confrarias que reúnem fãs das fermentadas. Uma das mais ativas é a Maltemoiselles, uma brincadeira que une as palavras malte e mademoiselles (senhoritas, em francês). A cada dois meses, Fabiana Zanelati, Larissa Januário, Aline Araújo, Júlia Reis, Ingrid Calderoni e Tatiana Damberg se encontram para não apenas degustar, mas também fabricar cervejas. Desde a criação do grupo, em 2010, produziram dezenas de rótulos e adoram fazer alquimias. “Já misturamos na mesma fórmula flor de hibisco e cardamomo e o resultado foi divino”, conta Fabiana.

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A sommelère Cilene Saorin ensina mulheres a mergulharem no mundo da cerveja (Foto: Murillo Constantino)

A sommelière Cilene Saorin preparou um roteiro para as mulheres que querem mergulhar no mundo das loiras:

  1. Comece pela pilsen, uma cerveja mais leve e bem conhecida no Brasil. Duas boas dicas são a alemã Krombacher Pils (do estilo German Pilsener) e a checa Pilsner Urquell (Bohemian Pilsener).
  2. Já está à vontade? Hora de seguir adiante, rumo às bebidas de mais corpo, mas que preservam a refrescância. A cerveja de trigo da Baviera Paulaner ou a brasileira Bamberg (ambas do estilo Weissbier), com notas de cravo e banana, são boas pedidas.
  3. Próximo passo: estilos que oferecem as flores de lúpulo como protagonistas. Dicas: Meantime (English India Pale Ale), com terroir de lúpulos ingleses, a americana Brooklyn e a brasileira Colorado Indica (ambas do estilo American India Pale Ale).
  4.  Hora de encarar o poder das inglesas. Com os maltes tostados em evidência, a Fuller’s London Porter (Robust Porter) é um clássico e tem notas intensas de chocolate e café.
  5. Já está confiante? Hora de partir para o estilo Fruit Lambic. Cervejas desse tipo são, muitas vezes, harmonizadas com sobremesas como bolo de chocolate e cheesecake, por exemplo. Prove a belga Kriek Boon, fermentada espontaneamente, que recebe cerejas maceradas na receita.

Fonte: VEJA SÃO PAULO