Fora de Série

Hermès agora produz móveis feitos de seda

Fiapos dos lenços triturados eram uma pedra nas sapatilhas de Pascale Mussard, herdeira da grife francesa e cabeça criativa por trás do upcycling

Por: Simone Esmanhotto, de Paris

Móveis de Seda - Luxo Ed.: 2376
Biombo de papel de seda, couro e debruns de seda, petit h: 32 000 euros (Foto: Véronique Matin)

Por dois anos, um bololô de seda ocupou as prateleiras do ateliê da petit h, marca que parte do material rejeitado pelo controle de qualidade da Hermès para fazer objetos únicos. Acinzentados e macios, os montes de fiapos dos lenços triturados como nas máquinas de papel eram uma pedra nas sapatilhas de Pascale Mussard, herdeira da grife francesa e cabeça criativa por trás do upcycling.

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Couro e porcelana, entre outras matérias-primas, já haviam sido reaproveitados: uma bolsa Kelly com defeito deu origem a um relógio cuco, xícaras de asas quebradas viraram luminárias. Mas os lenços reprovados, até então, tinham no máximo sido cortados e costurados em velas de barcos de brinquedo. Nenhum designer convidado por Pascale encarara o desafio de usar a chamada bourre de soie. Até que Nicolas Daul e Julien Demanche entraram em cena.

A dupla deixou claro que não gostaria de utilizar um objeto para criar outro, a especialidade da casa. “Queríamos conceber um material inédito”, diz Daul. E não apenas para a petit h, mas que fosse inovador para o mercado. Intrigados com o estofo da seda, os designers aceitaram o desafo de transformar o carré, em linha de produção manual em Lyon desde 1937. A inspiração veio de um objeto banal: o dito papel de seda para embrulhar presentes, que de seda, na composição, não leva nada. “Resolvemos fazer um papier de soie de verdade”, completa Demanche.

Um produtor de folhas artesanais na Provence foi escolhido para descobrir a receita, tarefa que durou seis meses. Ela leva mais de 90% de puro lenço Hermès e outros ingredientes naturais para dar liga, mantidos em segredo. Com o resultado em mãos, vieram três móveis: um espelho, um biombo (foto) e um console. Neles, o papier de soie entra no lugar do compensado de madeira, com folhas comprimidas uma sobre a outra. Para manter a ligação com o papel, todos fazem referência à leitura: o espelho e o console apoiam livros, e o biombo não apenas isola o sujeito para o momento de ler, mas a seda compensada tem uma propriedade acústica.

Fonte: VEJA SÃO PAULO