Cidade

Moradores se mobilizam contra a venda de terreno no Itaim

Prefeitura negocia espaço de 20.000 metros quadrados para solucionar problema de falta de creches na capital

Por: Manuela Nogueira - Atualizado em

Avenida Horácio Lafer - Apae - Cidade 2198
Terreno da Avenida Horácio Lafer onde fica o prédio da Apae: avaliado em 200 milhões de reais (Foto: Fernando Moraes)

No início de dezembro, o prefeito Gilberto Kassab anunciou a intenção de vender uma das joias imobiliárias do Itaim: um terrenão de 20.000 metros quadrados cercado por condomínios de luxo, vizinho do Parque do Povo e próximo à Marginal Pinheiros. Ocupa quase todo o quarteirão formado pelas ruas Cojuba, Lopes Neto e Salvador Cardoso, além da Avenida Horácio Lafer. Seu valor estimado é de 200 milhões de reais. De acordo com a administração municipal, o objetivo da operação é solucionar um dos maiores problemas da capital: a falta de creches. A empresa que se comprometer a construir o maior número de unidades na periferia vencerá a licitação e ficará com o terreno, onde poderá construir um empreendimento residencial ou comercial com área total de até 40 000 metros quadrados. Atualmente, cerca de 120 000 crianças estão sem vaga na rede pública. A ideia é que sejam erguidas pelo menos 200 creches — o que significaria 32 000 novas vagas. “A iniciativa privada tem mais agilidade para comprar e construir imóveis”, afirma Marcos Cintra, secretário de Desenvolvimento Econômico e Trabalho.

O local abriga um teatro, uma biblioteca, duas escolas, um posto de saúde, um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) e uma creche. De acordo com Cintra, as escolas e o posto de saúde devem permanecer. “Mas os outros serão transferidos.” Ali fica também um prédio da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que ganhará duas outras unidades em São Paulo. “A decisão vem ao encontro do nosso desejo de descentralizar o atendimento”, afirma o presidente da Apae, Cássio Clemente.

Mas há resistências à vista: alguns dos moradores do bairro estão descontentes com a possível venda. Eles temem, principalmente, pela piora do já complicado trânsito da região. “Este quarteirão não comporta outro prédio. Os congestionamentos são impossíveis”, diz a publicitária Maria Luiza Gancia. A Sociedade Amigos do Itaim Bibi (Saibibi), que lidera o movimento, já mostrou ser boa de briga. É responsável por ter pressionado a prefeitura para tirar do bairro a casa de garotas de programa Café Photo e revitalizar o Parque do Povo. Quanto ao terreno, encomendou um laudo para apurar o impacto que um novo edifício causaria. O documento será levado a audiência pública, pois o projeto do Kassab ainda precisa ser aprovado na Câmara Municipal. “Queremos provocar um amplo debate sobre o assunto”, afirma o presidente da Saibibi, Marco Antônio Castello Branco. O secretário Marcos Cintra responde que a futura construção terá de respeitar as leis de zoneamento: “Se o terreno fosse particular, não haveria revolta. Falta visão social nessa conversa”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO