Teatro

Sete horas de peça. Vai encarar?

Início da temporada de 2011 surpreende ao trazer quatro montagens que exigem um tempo maior da plateia

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

O Idiota - Lúcia Romano - Vanderlei Bernardino - 2203
"O Idiota": espetáculo mais longo da cidade está em cartaz no Sesc Pompeia (Foto: Caca Bernardes)

Nas décadas de 50 e 60, os palcos de São Paulo e do Rio de Janeiro conheciam, enfim, a maturidade com atores prontos para encenar os clássicos e um público em busca de grandiosidade. As montagens do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) ou das companhias das atrizes Cacilda Becker e Maria Della Costa nunca duravam menos de duas horas e meia. Lançado em 1967, o drama “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, levou os produtores a ouvir reclamações por cobrarem um ingresso semelhante ao da concorrência por uma hora e quinze minutos de apresentação. “Enfrentamos muita resistência”, lembra o ator Sérgio Mamberti, um dos protagonistas. “Os espectadores demoraram a entender que cada espetáculo tem seu tempo, e o nosso era tão consistente quanto os outros, apesar de não ter dois ou três atos.” Com o passar dos anos, o comportamento do público mudou, e a regra virou exceção. Raras são as peças que hoje ultrapassam uma hora e meia. O início da temporada de 2011, no entanto, surpreende ao trazer quatro montagens que exigem um tempo maior da plateia. 

Estruturado em quase sete horas, O Idiota — Uma Novela Teatral pode ser visto em duas sessões ou na íntegra. A adaptação do romance do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) ainda passeia pela área externa do Sesc Pompeia e leva o público a caminhar por diversos ambientes. “Gostei tanto que cheguei a assistir à peça duas vezes, a primeira dividida e a segunda na íntegra”, diz o administrador Mario van Vliet. “Mas, na íntegra, foi doloroso, afinal, eu saí do trabalho para o teatro e estava cansado”, completa ele.

O ator Aury Porto, que passa o tempo inteiro em cena, dorme pelo menos onze horas na véspera de cada sessão, além de fazer exercícios de alongamento e massagem. “Para me manter hidratado, como maçãs e tomo chá, evitando exagerar, porque não posso ir ao banheiro.” O analista de sistemas Edison Tadeu Augusto da Silva não encarou “O Idiota”. No entanto, para assistir ao espetáculo Naotemnemnome organizou seu dia saindo do trabalho, em Santos, às 3 da tarde, para enfrentar as duas etapas propostas. A montagem dura cerca de três horas e traz seis atores que interpretam situações baseadas em entrevistas — agendadas previamente — com o espectador. Por quarenta minutos, um questionário de oitenta perguntas investiga diferentes assuntos pessoais. “Como ele é marcado com antecedência, é comum parte do público ligar avisando que não vai poder comparecer à entrevista e virá direto para o espetáculo, mas metade passa pela conversa”, conta o diretor Emanuel Aragão.

Sob a direção de Isser Korik, a trilogia Enquanto Isso... oferece liberdade à plateia. Trata-se de três peças independentes que totalizam quatro horas. Todas mantêm vínculos entre si, porém não é necessário assistir a todas para compreender a história. “O autor Alan Ayckbourn criou esses textos justamente para divertir os hóspedes de uma colônia de férias da Inglaterra e não transformar a ida ao teatro em obrigação”, diz o diretor. “Muitas vezes, alguém que já assistiu a uma parte tem uma compreensão diferente e ri de cenas que, a princípio, não soam engraçadas para aqueles que estão lá pela primeira vez.”

Embalado por uma temática mais densa, o drama político Ópera dos Vivos, da Companhia do Latão, atravessa quatro horas. O grupo chegou a cogitar dividi-lo em dois dias, mas a diversidade de linguagem, que inclui números musicais e até a apresentação de um filme, deu dinamismo à montagem. “Não podemos ignorar a ansiedade do público e devemos ter a preocupação de fazer com que aquilo seja o mais prazeroso e o menos cansativo possível”, afirma Ney Piacentini, um dos atores da Companhia do Latão.

Naotemnome - 2203
Liliane Rovaris (de pé) em "Naotemnemnome": espetáculo criado com base em entrevistas prévias com o público (Foto: Cláudia Elias)

EM NOME DA DIVERSÃO

Algumas dicas para que o espetáculo não se torne um fardo

■ Informe-se sobre a duração exata da peça.

■ Evite assistir aos espetáculos nos dias em que sua rotina for mais pesada.

■ Calce sapatos confortáveis, especialmente se for conferir “O Idiota — Uma Novela Teatral” ou “Ópera dos Vivos”, que exigem o trânsito do público.

■ Uma almofada pode ser uma boa pedida, já que nem todas as cadeiras são estofadas.

■ Uma garrafa de água mineral sempre é um conforto enquanto o intervalo não chega.

■ Procure se informar sobre o horário de fechamento dos estacionamentos próximos. Alguns encerram o expediente antes do fim do espetáculo.

■ Lembre-se de que teatro é diversão, logo, se você estiver incomodado e decidir sair no meio do espetáculo, tudo bem, mas seja discreto e não perturbe a encenação.

Fonte: VEJA SÃO PAULO