Crônica

Mistério (fim)

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

O velho Alfredo, sentado no banco em frente à palmeirinha da esplanada do condomínio de apartamentos, tem as duas mãos apoiadas uma sobre a outra na bengala, empinada entre seus joelhos, e medita ou dormita. É tardezinha, o Sol apenas o tinge de alaranjado. Um ventinho quente de verão eriça a piscina. Ele move os lábios, parece dizer alguma coisa, mas não há ouvidos por perto.

Faz apenas quatro semanas que foram encontrados sob a laje da área de lazer os ossos da mão de uma mulher – foi o que se presumiu, mulher, pois havia um nome de homem gravado na aliança: Mário. Os moradores já não perdem o sono com isso, não tentam montar uma história com os outros objetos encontrados no vão do subsolo – cama, roupas e sapatos de homem, vela queimada, um copo – nem enredar os objetos com aquela mão. Apenas um morador, o senhor H., vinha bisbilhotando, emendando frases com lembranças, em conversas com os mais antigos. Não parecia ter um objetivo, fazia evoluções de bisbilhoteiro comum. É ele quem se aproxima do velho senhor Alfredo.

– Posso me sentar? Interrompo?

– Pode, pode. Estou fazendo a minha gazeta.

E riu. O bisbilhoteiro deixou para compreender depois e resolveu ser direto, mas suave, respeitoso:

– Seu Alfredo, aquela mão que acharam no porão aqui debaixo é da sua esposa, dona Rosa, não é?

O velho olhou-o sem espanto, como se apenas se certificasse com quem estava falando.

– As fofoqueiras dizem que eu falo sozinho. Não é. Todo fim de tarde eu conto para a Rosa as novidades. O Cyrano de Bergerac fazia isso para a amada dele, à tardezinha. Chamava isso de gazeta. O nome dela era Roxane, Rosana. Tem a ver com a minha Rosa, não tem?

– Contou para ela que encontraram a mão dela?

– Contei. Eu conto tudo para ela.

– Quem é Mário? Ou era.

– Mário? Mário?

– O nome escrito na aliança.

– Ah! Não sei. Não conheci. Nunca vi. Só vi o nome na aliança. Nem sei o sobrenome.

O senhor H. teve a impressão de que seu Alfredo só não havia falado daquilo antes porque não lhe perguntaram, tal a naturalidade.

– Quando que o senhor viu o nome na aliança?

– Um dia. Era uma aliança igual a esta minha, deveria ser par da minha. Olha aqui, escrito Rosa, está vendo? A que nós trocamos no altar tinha escrito Alfredo. Eu que mandei fazer. Eu amava muito a Rosa, amo até hoje. Linda!

Repetiu, com menos força:

– Linda. Compramos esse apartamento aqui na planta. Mudamos ainda estava em obras, 1969. Um dia ela sujou a aliança com tinta, foi lavar, distraiu-se, esqueceu na pia e eu vi o nome, Mário. Ai, como aquilo me doeu! Sinto até hoje o tranco aqui dentro. A data. A data que estava gravada era dali a dezesseis dias, 20 de setembro. O senhor entendeu? Gravaram a data com antecedência!

– Meu Deus! Iam embora?

– Nunca vou ter certeza. Não disse nada a ela. Ah, como eu a amei naqueles dezesseis últimos dias da nossa vida... Pedi licença no serviço para não perder nem um minuto. Beijava os pés dela todos os dias – tinha pés lindos. Era toda ela muito linda. Perto da data, começou a dizer a todos que a irmã estava muito doente, tinha de ir vê-la. Marcou viagem para o dia 20. O dia do fim.

– E a cama, as roupas, os sapatos aí debaixo?

– O jardineiro que começou este jardim aqui morou lá, provisório. Ele que me ajudou. Fez tudo sozinho, só me mostrou a mão, para receber o pagamento. Depois fechou tudo, com calma, pediu as contas e sumiu.

Lembrou-se de que o velho havia regado por muitos anos aquela área do canteiro.

– Ela está aqui debaixo da palmeirinha, não está?

– Ela é a palmeirinha. A minha palmeirinha.

O senhor H. ficou olhando por algum tempo a piscina eriçada pelo vento. Inútil agitar com círculos concêntricos sua superfície harmoniosa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO