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Miriam Mamber mostra seu trabalho em livro

Arquivo mostra o processo de criação das inusitadas joias feitas pela artista

Por: Luísa Alcade - Atualizado em

Joias - Miriam Mamber - Ed. 48
Miriam em seu ateliê, em Pinheiros (Foto: Mario Rodrigues)

Os colares, pingentes e demais criações da artista plástica Miriam Mamber costumam despertar diálogos improváveis ao redor dos pescoços que adornam. As conversas giram em torno de descobertas a respeito de elementos como fungos urupês e cascas de ovo de dinossauro fossilizado. Esses materiais, que mais parecem tirados de catálogos de museus de geociências, são transformados por ela também em braceletes, anéis, brincos e outras joias inusitadas, vendidas em seu ateliê de Pinheiros por até R$ 10.000,00. “Adoro a ideia de, no meio de uma festa, alguém notar a beleza de uma amonita, por exemplo, e descobrir que se trata de um fóssil de 180 milhões de anos”, diz Miriam.

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Sementes africanas ou amazônicas, capim dourado, fibra de buriti, meteoritos, conchas, lava vulcânica, lascas de pau-brasil, fragmentos de leque de madeira do século XIX, pedaços de vidro romano da Idade Média, moedas judaicas e bizantinas, botões da década de 50. São muitos os itens improváveis, que ganham status ao ser fundidos pela curitibana de 62 anos a diamantes, ouro, prata, pérolas negras, ônix, madrepérolas, ágatas, águas-marinhas ou safiras. “Meu desafio é transformar o banal em precioso”, resume ela, que acaba de lançar um livro para celebrar quarenta anos de carreira.

Joias - Miriam Mamber - Ed. 48
O colar de cristal que imita um jato d’água: diálogo entre o banal e o luxuoso (Foto: Romulo Fialdini/Divulgação)

Na obra, de 240 páginas, editada pela editora BEI, ela mostra dezenas de suas criações e as histórias e referências por trás delas — como as araucárias, presentes nos cenários de sua infância na capital do Paraná —, que lhe ajudaram a conquistar clientes famosas, a exemplo da atriz Irene Ravache e da dramaturga Leilah Assumpção. “Ela é uma bruxa, daquelas que, se aparece uma aranha em casa, logo pensam em alinhavar o inseto na lapela e inventar um broche”, brinca Leilah. A empresária Chieko Aoki, da rede de hotéis Blue Tree, também é adepta das joias: “Pela originalidade, seus trabalhos combinam com os terninhos que uso profissionalmente ou com algo mais informal”.

O estilo da designer começou a ser moldado nas brincadeiras de menina, no armazém de secos e molhados da família de imigrantes do Leste Europeu. Aos 6 anos, já fabricava máscaras com estopas, cera de abelha, lã de carneiro, botões e tudo mais que encontrasse, e confeccionava brincos e colares com argila. No fim dos anos 60, mudou-se para São Paulo, e começou a produzir as primeiras joias quando ainda cursava jornalismo na USP. Em 1973, recebeu menção honrosa na Bienal de Arte de São Paulo pelo conjunto Poliestruturas, composto de bracelete, colar e um anel de prata com elementos que se movem e emitem sons, feitos a partir da observação de canudinhos de plástico, desses de tomar refrigerante. Depois do curso de comunicação, ela estudou ainda história da arte na Universidade Hebraica de Jerusalém e artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado.

Joias - Miriam Mamber - Ed. 48
A artista em 1973, na Bienal de Arte de São Paulo: conjunto de peças premiadas (Foto: Divulgação)

As invenções, no início, provocavam resistência dos lapidadores. Uma vez ela pediu a um profissional que fizesse uma peça de cristal branco como se fosse uma echarpe de seda, com textura semelhante e o mesmo movimento do tecido. “Ele achou ruim, mas acabou concordando e se acostumou”, conta. Quando teve a ideia de reproduzir o formato de ervilhas e carambolas em pingentes de ouro, fez um convite ao ourives: “Vá à feira, veja como são”.

Casada com o obstetra Carlos Czeresnia e mãe de cinco filhos, Miriam conseguiu fazer de seus trabalhos um sinônimo de brasilidade e representou o país em exposições de arte em países como Japão, França, Inglaterra e Alemanha. Já recebeu do governo encomenda de presentes para Hillary Clinton, secretária de Estado americana, e a rainha Margrethe II, da Dinamarca. Durante as comemorações dos 100 anos da imigração japonesa no país, em 2008, o Itamaraty ligou para seu ateliê encomendando um presente do governo brasileiro à princesa Michiko, com seis dias de prazo de entrega. Em vez de sacar algum item da vitrine, ela foi ao bairro da Liberdade em busca de inspiração e deparou com um obidome, uma espécie de fivela usada para fechar quimonos. Reproduziu a bugiganga com ouro, turmalina (simbolizando grãos de café) e lascas de paubrasil. Em outras ocasiões, pôs à venda braceletes produzidos com capim dourado que comprou de um ambulante no Guarujá. “As pessoas que usam as minhas criações gostam dessas misturas porque estão preocupadas em expressar ideias, e não em exibir poder econômico”, acredita Miriam, com razão.

 

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O uso do metal precioso em três colares

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Fonte: VEJA SÃO PAULO