Crime

“Minha casa foi o QG do arrastão”, afirma dentista

Vítima recorda o roubo a apartamentos de seis famílias de seu prédio, em Higienópolis, na terça (14)

Por: Daniel Bergamasco [com reportagem de Flora Monteiro, Ricky Hiraoka, Nathália Zaccaro e Pedro Henrique Araújo]

Dentista Capa 2258
O morador, que falou sob anonimato, e as suas gravatas usadas para amarrar os reféns: aprisionado com vizinhos por sete horas no quarto da filha de 11 anos (Foto: Mario Rodrigues)

“O grito de pavor da minha mulher é inesquecível para mim. Eram 4h20 da madrugada quando ela acordou com um barulho no apartamento. Achou que fosse uma empregada que chegaria da Bahia a qualquer momento naquele dia para começar a trabalhar. Ao ouvir o berro, pulei da cama, fui à sala e já a vi rendida. Dois caras armados com revólveres e facas vieram em minha direção. ‘Eu quero ouro!’, gritavam. Não tínhamos, mas pegaram joias e dinheiro. Outros criminosos subiram e transformaram o quarto da minha filha, que tem 11 anos, no QG do arrastão.

+ Violência: somos todos reféns

+ Trânsito: o maior problema de São Paulo

+ Caos na USP

Paravam moradores saindo para trabalhar, vasculhavam suas casas e os levavam até lá. Entraram em seis apartamentos. No fim, havia umas vinte pessoas, quase todas amarradas pelas mãos e pelos pés com as gravatas que acharam no meu guarda-roupa. Imobilizaram as crianças nos pulsos com esparadrapo. Mexeram na minha casa toda. Um deles estava com uma camisa de time de futebol, trocou-a por uma polo minha e ficava olhando no espelho e perguntando se estava bonito. Essas cenas quase cômicas se alternavam com as de desespero, já que eles nos ameaçavam. Haviam cheirado cocaína na guarita da portaria, onde até defecaram no chão. Pegavam uísque e cerveja da geladeira; bebiam o tempo todo. Eu tentava me manter frio, para tudo acabar bem. A cada momento, entrava algum vizinho aos prantos, gritando, mas ninguém ficou ferido.

A noite seguinte a uma situação dessas é difícil. Acordamos aflitos às 4 horas, no horário da ação. Levantar para ir ao banheiro é pior: parece que tem alguém ali. Mas, quando você tem filho, tenta se concentrar no que pode fazer por ele. Depois que minha menina vivenciou um assalto no trânsito, anos atrás, passamos a enfatizar que não era preciso ter medo de dormir, pois nossa casa é nossa fortaleza. O que dizer agora?”

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO