crônica

Milhões de dólares

Por: Ivan Ângelo

Crônica Ivan Ângelo
(Foto: )

Ofereceram-me, mas eu não quis. Seria algo em torno de 3,5 milhões de dólares, em dinheiro, cash, verdinhas, entregues na minha porta. Eu não teria de fazer nada, só dar meu endereço e telefone. Fui trouxa? Não quis ser esse milionário— até quero ser um, na verdade tento, mas uso o caminho mais difícil, o das loterias, com suas decepções semanais e renovada esperança. Ilusão, se preferirem.

A história desse oferecimento é complicada e chegou-me em mau português. Vindo a oferta de quem vem, não admira a linguagem estropiada: alguém que se apresenta como “John Hancock um ex-empreiteiro Exército dos EUA atualmente trabalhando como Inspeção da Unidade de Diretor Adjunto do Aeroporto Internacional de Los Angeles (LAX) EUA”.

Consegui entender que, durante uma verificação de rotina no setor de armazenamento Vault do aeroporto, essa pessoa descobriu um “carregamento abandonado deixado por um diplomata de Bagdá que deveria entregar esses pacotes para você”. Para mim! Eu, formiguinha nesse mundão de Deus, residente em Perdizes, São Paulo, Brazil, South America! Não se entende direito por que tal diplomata não teria conseguido despachar-me os volumes, “duas caixas de metal com peso aproximado de 25 kg Tronco cada” (Tronco? Será peso bruto?), e concluo que foi por não cumprir exigências da alfândega dos EUA. Tais pacotes, “quando digitalizados” (entendo que foram passados pelo raio X), “revelou (isso mesmo, sujeito no plural, verbo no singular) uma quantia não revelada de dinheiro”. Transcrevo um trecho maior do intrigante texto, com seus erros:

“A remessa foi abandonado porque o conteúdo da remessa não foi devidamente declarada pelo destinatário como ‘Money’ em vez disso, foi declarado como efeito pessoal para evitar o desvio pelo agente marítimo e também a incapacidade do diplomata que pagar para os Estados Unidos não inspeção Encargos que é cerca de $ 3 800 USD”.

Entendo que o remetente (não o “destinatário”) declarou bens pessoais em vez de dinheiro e não teve grana para pagar os encargos que dispensariam a inspeção. Resumindo, pois o original é longo: JH calcula que as caixas contêm “US$ 2 milhões para US $ 2.5 milhões cada” e diz que os detalhes da remessa incluem o meu nome, meu endereço de e-mail “e do documento oficial do escritório das Nações Unidas em Genebra e estão todos marcados nas caixas”.

O que eu teria de fazer: fornecer telefone e endereço completos, inclusive o “aeroporto mais próximo”, para confirmar se meus dados batem com os dos documentos. Ele admite que a remessa deveria ter sido devolvida ao Tesouro dos Estados Unidos e confessa que a tinha retido com a intenção de ficar com uma parte. Sugere uma companhia de despachos segura para o transporte, ou “eu posso trazê-lo por mim mesmo, para evitar mais problemas (...) mas você tem que me assegurar de meus 30% de participação”. Quer dizer: o cara queria 1,5 milhão dos “meus” 5 milhões de dólares.

Para agilizar as coisas e ter mais segurança, deu seu e-mail “privado”, diferente daquele que encabeça o e-mail enviado. Não respondi. Se respondesse, seria algo como sorry, John, desculpe não poder te ajudar a ganhar esse dinheirinho, não conheço nenhum diplomata de Bagdá. Falando sério, fiquei intrigado: qual é o lance nesse golpe? Por que inventar uma história tão longa, de mais de 700 palavras, cheia de detalhes, nomes, lugares, situações, referências, só para obter meu endereço e telefone? Nesse mundo de paraísos fiscais e de laranjas e de propinas viajantes e de superfaturamentos bilionários, pode ser que precisem de nomes e endereços reais para abrir contas fantasmas. Que sei eu!

Fonte: VEJA SÃO PAULO