Crônica

Micos Natalinos

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

Bem que eu tento. Mas é difícil escapar de amigos-secretos. Nas empresas e grupos de amigos é inevitável. Minha família adota a prática. As ciladas se multiplicam. Sou capaz de dar um curso sobre como atarraxar um sorriso quando a vontade é atirar o mimo pela janela. Histórias não faltam. Sorteado pelo dono da empresa, um amigo comemorou. Ganhou uma rede caríssima, artesanal. Segundo o cartão, era para ele relaxar em “seu sítio”. O presenteado rangia os dentes:

— Com o que ele me paga, acha que posso ter sítio?

Outro, vegetariano, recebeu um carneiro morto de uma colega e admiradora.

— Para sua ceia!

O vegetariano nem conseguia olhar o bicho. No apartamento, descobriu que não cabia na geladeira. A fa mília do zelador agra dece até hoje!

Uma amiga ganhou dois enormes vasos de cerâmica. Morava em uma quitinete. Ou ficavam os vasos ou ela. Deu fim. Certo dia, a amiga secreta apareceu. Primeiro grito:

— E os vasos que eu dei?

Quem dá objeto de decoração faz questão de conferir se a pessoa colocou em lugar de destaque! É uma tortura. Se não gosto, escondo num armário. Quando quem deu anuncia a visita, corro para expor em lugar de destaque. Certa vez até ouvi o comentário orgulhoso:

— Gostou do vaso, hein? Na próxima, dou o par!

Aterrorizado, aguardo o presente!

Roupa fora do tamanho vira mico. Ganhei uma camisa justíssima. Fui trocar.

— Não é desta loja! — explicou a vendedora.

— Mas a sacola é daqui. E a etiqueta!

— Só a sacola é. A camisa é pirateada. Vá trocar num camelô!

Ainda por cima, até fui obrigado a usar a falsa grife para não fazer desfeita.

— Olha só como ficou bem em mim! — garanti, enquanto os botões explodiam, expondo meu umbigo.

Já sei que é cilada quando ouço:

— Trouxe uma lembrancinha!

Puro disfarce para pão-durismo. Se a verdadeira intenção fosse ser lembrada, minha memória seria mais ativada se ela me desse um Rolex. Lembrancinhas significam chaveiros, ímãs de geladeira, panos de prato, sapinhos de porcelana... Tudo bem, quando a pessoa não tem dinheiro. Mas em caso contrário é uma saia justa! Sou obrigado a expor os dentes, como diante de um diamante azul.

— Ah, mas que gracinha! Puxa, obrigadooooooo...

Por dentro, meu espírito natalino se esvai. Penso: “Pãoduro safado!”.

E presentes reciclados? A pessoa ganha alguma coisa em um ano, passa para a frente no seguinte. Certa vez ganhei um relógio abóbora, acompanhado da declaração:

— É a cor da moda!

Dei um abraço pa ra esconder a ex - pressão do meu rosto. Mais tarde, olhei o certificado de ga - rantia. Era de quatro anos antes! Havia pelo menos três o relógio passava de mão em mão!

Se existe algo insuportável em amigo- secreto é a diferença de valor de presentes. Uma sina me persegue: sempre ganho algum muito mais barato que o meu! Sim, o hábito é estipular limites mínimos. Sempre acabo com o mínimo! Ou recebo algo no gênero “feito por mim mesmo”. Um panetone, por exemplo.

— Fiz para você! É receita de família!

— Hummmm....

Ou a cestinha de papel trançado que ganhei há alguns anos.

— Eu mesma fiz, gosta?

— Ahnnn... que beleza! Você é tão talentosa!

A proximidade do Natal estimula o amor e as boas intenções. Mas também a falsidade, ao menos durante a troca de presentes de amigos-secretos! Neste ano minha sobrinha Andréa fez uma proposta: oferecer o dinheiro a ser gasto em doações a uma entidade que abriga crianças carentes. A família concordou. Com certeza, o sorriso das crianças será verdadeiro! E nós seremos seus amigos- secretos!

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO