Roteiro

Os destaques do ano segundo os críticos de VEJA SÃO PAULO

Por: Redação VEJA SÃO PAULO - Atualizado em

Ozzy Osbourne durante show do Black Sabbath em São Paulo
Ozzy Osbourne durante show do Black Sabbath em São Paulo (Foto: MRossi/T4F)

Shows - Carol Pascoal

O melhor: Black Sabbath

Na maioria das vezes, turnês de reunião não passam de uma maneira oportunista para ganhar dinheiro.  Mas este não é o caso do retorno Black Sabbath. Só pelo lançamento do bom disco de inéditas 13 (2013) – o primeiro em 34 anos - já era possível notar que o vocalista Ozzy Osbourne, o guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler não estavam de brincadeira. O show é igualmente de resultado surpreendente. Sem a presença do baterista Bill Ward, que não topou participar, a lendária banda de heavy metal atraiu 70000 pessoas (algo raro atualmente) ao Campo de Marte em 11 de outubro. Em um show emocionante - daqueles de contar para as gerações futuras que você esteve presente -, Ozzy mostrou que segue ensandecido, Iommi ainda é responsável por riffs perfeitos e Butler  não perdeu a precisão. Seria difícil dar errado um show que começou com War Pigs e terminou com Paranoid.

O pior: Homenagem a Cazuza

show cazuza - holograma
Holograma de Cazuza em show póstumo (Foto: Reprodução)

Em 2012, o rapper Tupac (1971-1996) apareceu no formato de holograma durante o show de Snoop Dogg dentro festival Coachella. Uma surpresa para o público presente, já que nada havia sido anunciado. É aceitável que a indústria do entretenimento fique tentada a utilizar o recurso, mas também é grande a chance de a produção faltar com respeito à imagem de artistas queridos. Foi o que aconteceu na noite de 30 de novembro, quando um Cazuza holográfico cantou cinco músicas para quase 30000 pessoas no Parque da Juventude. Antes disso, contudo, pessoas próximas ao cantor e compositor, entre eles Paulo Ricardo, Leoni e George Israel, repassaram canções que marcaram a trajetória de Cazuza. O clima era de festa de formatura barata. A maneira como o holograma foi posicionado, ao fundo do palco, dava a impressão de que o “homenageado” era uma formiguinha se comparado aos outros ali presentes. Inclusive, alguns fãs encostados na grade chegaram a comentar que se não tivessem sido avisados de que se tratava de um holograma, eles pensariam que era um telão comum. Um resultado pífio e desrespeitoso - ainda mais se considerarmos que o projeto custou R$ 8,5 milhões (e usou incentivo). Contrastou com o mico a participação de Gal Gosta, que foi responsável pelos únicos momentos dignos de aplausos.

+ RETROSPECTIVA 2013

Teatro - Dirceu Alves Jr. 

O melhor:  Translunar Paradise

Translunar Paradise - CCBB
Cena da peça muda 'Translunar Paradise' (Foto: Alex Brenner)

O grupo inglês Theatre Ad Infinitum cumpriu concorrida temporada no CCBB com o espetáculo que é totalmente mudo. No entanto, a dramaturgia criada pelo diretor George Mann traz riquíssimos detalhes e se revela muito clara ao espectador. Também protagonista, Mann dá corpo a um viúvo arrasado com a morte da mulher (papel de Deborah Pugh). Sem abrir mão da rotina passada, ele chega, inclusive, a preparar o café para os dois todas as manhãs. Um dia, ela aparece para ajudá-lo a se livrar do luto e, nesse momento, começa a superação da montagem. Com uma técnica impressionante, os atores transmitem os sentimentos necessários apoiados apenas na mímica, no uso de máscaras para diferenciar as idades e na trilha sonora executada ao acordeão pela atriz e instrumentista Kim Heron.

O pior: Shrek, o Musical

O ogro e sua amada Fiona, protagonistas de um conto de fadas em que a beleza e a delicadeza são deixadas de lado, fracassaram na adaptação para o palco. Com texto de David Lindsay-Abaire e canções criadas com Jeanine Tesori, o musical dirigido por Diego Ramiro é simplista, tem atuações sem empatia alguma e quase nenhum efeito surpreende. Um tédio do início ao fim em um momento em que o musical brasileiro já atingiu outro estágio de criatividade.

Cinema - Miguel Barbieri Jr.

Melhor filme estrangeiro: Gravidade 

Gravidade
'Gravidade': Stone (Sandra Bullock) e Kowalsky (George Clooney) (Foto: Divulgação)

Há vários motivos para apontar Gravidade como o melhor do ano. Foram raras as vezes que o espectador se sentiu “imerso” num filme, experimentando a sensação de angústia e aflição dos personagens – dois astronautas perdidos no espaço, interpretados por George Clooney e Sandra Bullock. O plano-sequência inicial, que dura cerca de doze minutos, é um dos momentos mais marcantes do cinema nos últimos tempos. Além de plasticamente sublime, Gravidade, dirigido com garra pelo mexicano Alfonso Cuarón, vai virar um marco no gênero dos filmes espaciais. É esperar para ver.  

Pior filme estrangeiro: Todo Mundo em Pânico 5

Será que alguém ainda aguenta paródias de filmes famosos realizadas na base da baixaria? Em seu quinto episódio, a cinessérie perdeu totalmente o rumo e a noção de tempo. Para se ter uma ideia, o roteiro esculachou filmes “velhinhos”, como Cisne Negro e A Origem. Entre piadas vulgares e sequências escatológicas, a “comédia” abre com uma das mais patéticas cenas de sexo do ano, protagonizada pelos atores-escândalo Charlie Sheen e Lindsay Lohan. 

Melhor filme nacional: Elena 

Elena
'Elena': a diretora Petra Costa relata um documentário sobre sua irmã (Foto: Divulgação)

Escolher um documentário foi uma forma de protesto pela falta de qualidade generalizada no terreno da ficção neste ano. Por mais que Faroeste Caboclo, Somos Tão Jovens e Vai que Dá Certo tenham cumprido um papel correto, o registro real da diretora Petra Costa surpreendeu bem mais. Ao levar ao cinema a história de sua irmã, que foi tentar a carreira de atriz na Nova York da década de 80, a diretora expôs, com intensidade à flor da pele, a intimidade de sua família.  

Pior filme nacional: Se Puder... Dirija!

A comédia foi anunciada como o primeiro longa-metragem brasileiro com atores em 3D. De péssima qualidade, a técnica passou despercebida diante de um roteiro lamentável e, ao tentar ser engraçado, não teve humor nenhum. Luiz Fernando Guimarães, um astro da comédia, só conseguiu passar vergonha na pele de um pai que atravessa de um dia de cão com o filho pelo Rio de Janeiro. Para forçar a barra, o roteiro criou situações patéticas para esticar a trama. 

Exposições - Jonas Lopes

A melhor: Mestres do Renascimento: Obras-Primas Italianas

Educativo - Mestres do Renascimento CCBB
Mestres do Renascimento: educadores ficam pelos quatro andares da exposição (Foto: Divulgação)

A espetacular mostra levou mais de 300 000 pessoas ao Centro Cultural Banco do Brasil. A euforia se justificou pela presença de maravilhas de Ticiano, Tintoretto, Rafael, Veronese, Bellini e outros gênios – para não falar de uma Anunciação de Bellini para guardar no coração pelo resto da vida. A decisão de organizar o percurso por cidades colaborou com o ótimo resultado.

O pior: Eddie Peake

Incensado pelo mercado, o inglês Eddie Peake não mostrou a que veio na individual ainda em cartaz na White Cube. As telas com cores berrantes, influência infeliz de pop art e grafite e com frases pornográficas são gratuitas e imaturas. Transgressão para adolescentes. Resta torcer para que em 2014 a galeria londrina traga para a filial paulistana os melhores artistas que representa, como o canadense Jeff Wall e os alemães Anselm Kiefer e Georg Baselitz.

Concertos

Melhor: Mariss Jansons e Orquestra Real do Concertgebouw

Concertgebouw
A Orquestra Real do Concertgebouw (Foto: Divulgação)

Eleita a melhor orquestra do mundo pela revista britânica Gramophone, em 2008, a orquestra holandesa mostrou sonoridade aveludada numa sinfonia do compositor com a qual é mais associada, o austríaco Gustav Mahler. O maestro letão Mariss Jansons regeu uma Sinfonia Titã espetacular na Sala São Paulo

Pior: Piotr Anderszewski

Conhecido pelas performances irregulares, o pianista polonês não estava em seus melhores dias no recital-solo na Sala São Paulo. Anderszewski abusou dos maneirismos: retardou e acelerou livremente os andamentos, fez pausas bizarras no meio das composições, e entregou ao público uma Fantasia de Schumann sem qualquer graciosidade.

Crianças - Tatiane Rosset

Melhor espetáculo: Uma Trilha Para Sua História

Uma Trilha para Sua História
Os movimentos são interpretados por onze habilidosos bailarinos de 'Uma Trilha Para Sua História' (Foto: Cacá Meirelles)

O delicado espetáculo de dança acertou ao realizar uma montagem interessante para os adultos e cativante para as crianças. Dirigido com precisão por Gustavo Kurlat, a peça acompanha uma garota aventureira (interpretada pela talentosa Thaís Pimpão) enquanto ela conta à plateia seus devaneios e sonhos. A cada fábula, um novo número de dança encanta a plateia – em parte, por causa do excelente trabalho dos onze dançarinos e também em virtude das inteligentes coreografias criadas por Dafne Michellepis e Marina Caron. Completa o clima de fantasia composições do próprio Kurlat em colaboração com Ruber Feffer, além de uma participação especial do músico Zeca Baleiro com uma canção chiclete e divertida. 

Pior espetáculo: A Cigarra e a Formiga

Adaptar um texto já desgastado e clássico como o da fábula de Jean de La Fontaine nunca é tarefa fácil: um simples escorregão, e acaba-se com um espetáculo pouco original. É justamente o que acontece neste monólogo, dirigido por Isser Korik e interpretado por Noemi Gerbelli – conhecida do público por integrar o elenco da novela Carrossel. Durante a montagem, Noemi utiliza muitos artifícios para distrair as crianças, como mágicas e uma fraca manipulação de bonecos, e esquece de focar em sua interpretação e na lição moral do conto. A música, por muitas vezes, atrapalhada o trabalho da atriz e não acrescentava em nada à peça. O único destaque fica para o simples e bem pensado cenário que, mesmo assim, ainda falhava em algumas cenas. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO